Até metade da população pode sofrer transtornos psicológicos diante da pandemia

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Em tempos de pandemia, os problemas mentais podem afetar até metade da população. - Kristina Tripkovic/ Unsplash
Seguro desemprego e auxílios são tão importantes quanto ações médicas para preservar saúde mental

Durante uma pandemia, estima-se que de um terço a metade da população pode vir a sofrer alguma manifestação de transtornos psicológicos, se não houver acesso a cuidados específicos. O dado foi divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) na cartilha Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Pandemia covid -19. O documento ressalta que estados de alerta, preocupação, confusão e sensação de falta de controle são reações normais em uma situação tão atípica. O momento exige acolhimento de novos temores, readequação de planos, novas formas de viver a coletividade e esforços diferenciados para manutenção de laços de afeto.

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Fatores como o grau de vulnerabilidade de cada indivíduo e as proporções da pandemia afetam diretamente as percepções e podem ser determinantes para o nível de estresse. O professor-pesquisador Dênis Petuco, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz, afirma que as consequências podem afetar mesmo que não tem histórico de transtornos psicológicos.

“A gente pode ter múltiplos efeitos que vão atingir de maneira diferente as pessoas. A gente tem, por exemplo, os efeitos na população comum, que não tem nenhum tipo de transtorno mental de base. É uma situação extremamente nova. Para as pessoas que gostam de estar na rua, socializando, encontrando amigos, é uma situação angustiante ficar em casa. Isso acaba produzindo impactos de angústia e de ansiedade em qualquer um de nós", aponta.

Ele explica que, entre as pessoas que já possuem algum tipo de transtorno mental de base, as situações podem ser ainda mais complicadas. "Pessoas que têm quadros mais graves de ansiedade, isso pode se agravar. Pessoas que já têm um quadro depressivo e pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e drogas, este é um período que também pode agravar a situação. Então, a gente tem casos que podem acarretar um agravamento.”

Na semana passada, o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) lançaram uma campanha publicitária que tem como objetivo amenizar os efeitos da covid-19 na saúde mental dos brasileiros. Os vídeos têm como público-alvo cuidadores e familiares de pessoas idosas e crianças e trabalhadores da saúde. Dênis Petuco afirma que as condições de trabalho desses profissionais podem ser um agravante.

“No caso dos trabalhadores da saúde, que estão na ponta e enfrentando no cotidiano esse dilema, a questão nem passa diretamente pelo aspecto do isolamento social, mas com certeza isso traz questões. A gente já tem relatos de pedidos de suporte e de ajuda nesse sentido: trabalhadores de saúde que estão vivendo momentos de extrema angústia diante, por exemplo, de situações como a falta de insumos e equipamentos de proteção individual. São situações de angústia, de agravamento da saúde mental. Nesse sentido, os trabalhadores da saúde são um grupo extremamente vulnerável.”

Vale ressaltar que nem todos os problemas psicológicos e sociais apresentados evoluem para uma doença mental ou podem ser classificados dessa forma. Boa parte das sensações desse período são respostas normais frente à pandemia. Segundo Dênis Petuco, será preciso avaliar mecanismos para diminuir os impactos da covid-19, não só na saúde, mas também na vida econômica, social e no cotidiano das famílias. 

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“Se a gente pensa numa perspectiva de saúde mental coletiva, inspirados pelos princípios da saúde coletiva brasileira, a gente vai sempre lembrar a importância dos determinantes sociais nos processos de saúde e doença. Tudo indica que a gente vai viver um período de recessão econômica, de diminuição no poder de compra, de insegurança no trabalho, de desemprego. Isso desestabiliza. Temos inúmeros estudos sobre o quanto esses momentos de recessão e de aumento da desigualdade afetam a saúde mental de um modo geral. Indicadores de alcoolismo e uso abusivo de drogas, por exemplo, aumentam."

O professor aponta que essa é uma tarefa não só do Sistema Único de Saúde (SUS), mas de toda a sociedade, no sentido de acolher aqueles que estiverem lidando com sofrimento de origem política e socioeconômica.  

"Vamos ter que pensar também, como sociedade, em como dar conta de minimizar os impactos. Não apenas os equipamentos do SUS vão ter que acolher essa população, mas a gente vai ter que pensar em mecanismos que não são propriamente da saúde, mas que podem contribuir para que os impactos na saúde mental da população sejam menores, como seguro desemprego e auxílio social. Eu diria que, neste caso, eles são tão importantes quanto ou até mais do que os próximos mecanismos da saúde.” 

 

Edição: Camila Maciel