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Falta de diálogo do governo Doria coloca trabalhadores em risco, denunciam sindicatos

Metroviários ainda discutem plano para evitar risco em atividade essencial; Apeoesp busca na Justiça mesa de diálogo

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
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Categorias que realizam serviços essenciais durante a pandemia não tiveram demandas consideradas até o momento - Nelson Almeida/AFP

Os sindicatos têm sofrido com tentativas de esvaziamento de suas ações desde a reforma trabalhista, aprovada em 2017 durante o governo de Michel Temer (MDB). E neste momento de avanço da pandemia de covid-19, não tem sido diferente. Diversas categorias reclamam da falta de diálogo com poderes locais.

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Em São Paulo, por exemplo, trabalhadores em home office, como é o caso dos professores da rede estadual, e aqueles que desenvolvem atividades essenciais, como os metroviários, relatam dificuldades em construir acordos com o governo de João Doria.

"Desde que estourou a pandemia, a gente elaborou um plano de emergência para o Metrô. A gente apresentou isso para a direção do Metrô, para o governo do estado e para o secretário de Transportes Metropolitanos. E nós só fomos recebidos uma vez, pelo secretário do secretário de Transportes", afirma Camila Lisboa, coordenadora geral do Sindicato dos Metroviários de São Paulo. 

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A categoria não parou sua força de trabalho desde o início da crise, mas, por negociações intermediadas pelo Sindicato, conseguiu que os funcionários que fazem parte do grupo de risco para o coronavírus fossem afastados das funções.

Ainda assim, a já são 164 funcionários afastados por conta da covid-19. Destes, 75 são casos confirmados, outros 36 são suspeitos e 53 foram afastados por terem contato com outras pessoas contaminadas. 

"Os Metroviários têm um papel comunitário a cumprir nessa crise. Obviamente a gente teve que lutar para ter segurança de trabalho para a categoria, porque tem muito contato com os usuários do Metrô, transporte público é o segundo local de maior risco de contaminação", explica Lisboa.

Obviamente a gente teve que lutar para ter segurança de trabalho para a categoria, porque tem muito contato com os usuários do Metrô, transporte público é o segundo local de maior risco de contaminação.

A diretora do Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp), Professora Bebel, explica que também tem enfrentado problemas para manter diálogo com o governo do Estado. "Você não consegue sequer falar com o secretário de Educação, ao ponto de a gente ter que ir à Justiça, o que é um absurdo. Deixou quase 2 milhões de alunos sem acessar às aulas à distância", conta.

Muitos professores têm relatado problemas causados pela pressão exercida por conta do trabalho diário, que teve que se adaptar às aulas à distância. Assim como grande parte dos alunos da rede estadual, que não dispõem de infraestrutura para acessar as aulas online, não são todos os professores que conseguem bons acessos à internet para ministrar as aulas ou manter contato com os alunos.

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Desemprego

E o cenário pós-pandemia promete ser ainda mais complicado para os sindicatos. Um estudo coordenado por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Aponta que mais de 12 milhões de trabalhadores poderão perder suas posições de trabalho ao final da crise causada pelo coronavírus. E o desemprego, segundo os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), já alcançava 12,8 milhões de brasileiros, ou 12,2% da população economicamente ativa.

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Para Douglas Izzo, coordenador estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT), "esse impacto do desemprego tem um impacto direto no sindicato. Muitos desses trabalhadores que serão demitidos são filiados e deixarão de contribuir com o sindicato".

Passada a crise, lembra Camila Lisboa, será o momento de os sindicatos atuarem com ainda mais vigor, em defesa dos direitos dos trabalhadores. “A nossa categoria tem uma tradição de um sindicato forte, presente, atuante. Isso não quer dizer que os governos, os patrões, não vão nos atacar. Isso quer dizer, sim, que as nossas condições para enfrentar esses ataques são muito melhores”, afirma.

Se desde 2017 as situações trabalhistas vem se deteriorando, com a implementação dos contratos intermitentes, a terceirização e mais recentemente com a período em que vigorou a carteira verde e amarela pelo governo Bolsonaro, a coordenadora dos Metroviários avisa que os trabalhadores deverão enfrentar ainda mais dificuldades: “É evidente que estão se aproveitando dessas situação de pandemia para seguir avançando no ataque aos direitos trabalhistas”.

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Procuradas pela reportagem do Brasil de Fato, as secretarias de Educação e Transportes Metropolitanos do governo do Estado de São Paulo não se posicionaram até a publicação desta reportagem.

Edição: Rodrigo Chagas