RESISTÊNCIA

Lideranças debatem papel dos movimentos populares no pós-pandemia

Discussão compôs a programação virtual deste sábado (6) do Fórum Popular da Natureza

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

Ouça o áudio:

De acordo com Sônia Guajajara, da Apib, 200 indigenas já faleceram em decorrência da pandemia da covid-19. - Cimi

O Fórum Popular da Natureza, que acontece desde o dia 1º de junho e segue até o próximo dia 10, recebeu neste sábado (6) lideranças de movimentos populares para o debate virtual “Movimentos e Natureza: Qual é o papel dos Movimentos na (Re)Construção do mundo pós-pandêmico?”.

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A partir do eixo proposto, as lideranças denunciaram a histórica violação de direitos pela “pandemia do capitalismo”, como definiu o integrante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) Alex Cardoso. Segundo ele, evidenciada e agravada com a chegada da covid-19.

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Povos indígenas

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Seguindo a mesma linha, a indígena Sônia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) apontou que o novo coronavírus intensificou “as pandemias” enfrentadas pelos povos originários desde outros tempos.

“A gente já viveu tantas outras pandemias, a pandemia dos ataques às comunidades, dos conflitos, do desmatamento, das queimadas, do racismo. Tudo isso se intensifica agora com a pandemia do novo coronavírus associada, também, à pandemia do fascismo que está em curso aqui no Brasil”, afirma.

Segundo dados da Apib, 200 indígenas já morreram em decorrência da covid-19 e mais de 3 mil já foram infectados, enquanto os dados oficiais apontam para apenas 60 óbitos. 

Para Guajajara, a subnotificação é uma forma de “institucionalização do genocídio”, visto que, segundo ela, o racismo institucional não contabiliza os indígenas que vivem fora das comunidades fechadas.

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Racismo ambiental

A representante do Fórum dos Povos e Comunidades Tradicionais do Vale do Ribeira, Adriana Lima, conta que a região, no sul do estado de São Paulo, onde a organização articula comunidades tradicionais de caiçaras, quilombolas e indígenas, também sofre há 40 anos com o racismo ambiental promovido pelo governo paulista. 

Ela cita a criminalização das populações locais que sustentam o território e a implementação de reservas ambientais que, segundo ela, visam a “mercantilização da natureza”, como o novo projeto do governador João Dória, Vale do Futuro.

“Por mais que o governo esteja criando um programa pensando no futuro da região, a gente vê que não existe esse cuidado pelas comunidades. A pandemia tem mostrado as grandes dificuldades que as comunidades têm para acessar os centros [de saúde], acessar as medicações, de fazer testes. As coisas estão muito isoladas. E esse processo da pandemia também tem mostrado essa desigualdade”, denuncia. 

Para Adriana o caminho da reconstrução do país pós-pandemia pela união dos movimentos que resistem na cidade e no campo.

Já Alex Cardoso, do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), enfatizou a desigualdade social evidenciada pelo coronavírus nas periferias das grandes cidades, o valor da solidariedade e que enquanto o sistema capitalista existir “vamos viver em uma eterna pandemia”.  

“Temos que nos unir para poder combater esse sistema e apresentar novas ferramentas, que sejam mais solidárias, que sejam mais fraternas, que tenham engajamento social e um controle popular para que a gente consiga, de fato, ter uma vida.E essa vida deve ser uma vida digna”, afirmou.

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Ele também destacou que os catadores têm maior risco de contaminação pela covid, uma vez que estão expostos ao contato com os objetos que saem de todas as casas. Seu apelo, em nome dos trabalhadores do segmento, é para que as pessoas não descartem máscaras que possam estar contaminadas em um ato de cuidado com o próximo.

Homem x natureza

A liderança da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) presente no debate, Miriam Nobre, também chamou a atenção para a crise sanitária como  produto da exploração capitalista da natureza e destacou que o feminismo defende que o “capitalismo não tem eco”.

“Se a gente quer continuar nesse processo de afirmar os povos e a natureza num processo harmônico e em comunhão, a gente tem que destruir o capitalismo, o racismo, o patriarcado, o colonialismo, tudo de uma vez só. E eu acho que aprendo muito com as companheiras guaranis quando elas falam de retomada, porque a gente tem a tarefa de retomar nossos territórios, nossa memória e nosso corpo”, expressa.

Ela e os outros representantes do debate destacaram que o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) representa a ameaça do sistema capitalista, por isso “a gente precisa tirar o joelho do governo do nosso pescoço”, como afirmou Miriam. Todos pontuaram que defender a vida significa “Fora Bolsonaro”.

 

Edição: Geisa Marques