Fora de hora

Enfrentamento da covid-19 em BH esbarra na flexibilização e subnotificação de casos

Audiência na Câmara dos vereadores evidenciou baixo isolamento e crescimento da pressão ao sistema de saúde da cidade

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG) |
De acordo com a prefeitura, em Belo Horizonte o alerta é vermelho, indicando que a epidemia está em expansão - PBH

Uma audiência pública na Câmara Municipal de Belo Horizonte debateu nesta quarta-feira (17) a flexibilização do isolamento social e subnotificação dos casos de covid-19 na capital mineira. O requerimento para audiência foi realizado pelo vereador Pedro Patrus (PT) para a Comissão de Saúde e Saneamento da Casa.

A atividade contou com a presença remota de representantes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Conselho Municipal de Saúde (CMS), da Secretaria Municipal de Saúde, do Sindicato Único dos Trabalhadores da Saúde de Minas Gerais (Sind-Saúde), além de alguns poucos vereadores.

::Três meses após primeira morte, Brasil tem mais de 46,5 mil óbitos por covid-19::

Flexibilização

Desde o dia 25 de maio, a capital mineira vem abrindo aos poucos os estabelecimentos comerciais. De acordo com o último monitoramento, divulgado no dia 12 pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), o alerta é vermelho, indicando que a epidemia está em expansão. A taxa de ocupação dos leitos de UTI atingiu 82% e de enfermaria 71%, conforme dados de terça (16).

Segundo a prefeitura, 92% das atividades estão em funcionamento na cidade, mas o aumento expressivo de casos confirmados de covid-19 no interior do estado, somado à situação crítica da rede hospitalar, levou à decisão de não avançar para a “fase 3” da abertura gradual do comércio.

“Belo Horizonte concentra grande parte da rede hospitalar do estado. Apesar de a cidade estar fazendo um manejo melhor da propagação do vírus que os municípios vizinhos, a cidade vai sofrer uma pressão em relação aos leitos, o que nos coloca em risco”, afirmou Rômulo Paes, da fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), presente na audiência.

Para Rômulo, os principais desafios no enfrentamento à covid-19 estão relacionados ao isolamento precário, às dificuldades em relação aos testes e à falta de coordenação nos níveis federal e estadual.

Carla Anunciatta, presidenta do Conselho Municipal de Saúde (CMS), reforçou que a entidade tem se posicionado contrária à abertura do comércio neste momento.

“Estamos diante de um vírus desconhecido com taxa de transmissão altíssima. Se temos o recurso do isolamento social para diminuir a propagação, temos que fazer isso. É inadmissível a flexibilização, porque ainda temos pessoas que não entendem o que está acontecendo. E o governo federal propõe um boicote ao isolamento, confundindo a população sobre a letalidade do vírus e o uso de máscaras, por exemplo”, afirmou.

::Leia mais: Risco de colapso de hospitais é maior em áreas mais pobres, diz estudo da UFMG::

Na semana passada, o índice de isolamento em BH se manteve em torno de 47%, mesma média anterior, de acordo com a prefeitura. Um novo boletim de monitoramento será divulgado na sexta (19). Até terça (16), a capital atingiu o número de 77 óbitos e 3489 casos confirmados.

Trabalhadores da saúde

A situação dos profissionais que atendem na linha de frente do combate à covid-19 também foi um tema debatido da audiência, sobretudo em relação à necessidade de mais equipamentos de proteção individual (EPIs). De acordo com o boletim epidemiológico, divulgado na terça (16), 179 trabalhadores da saúde apresentaram testes positivos para covid-19, e outros 151 casos estão em investigação.

Testagem

“A preservação da vida é nosso objetivo, diante dessa pandemia e desses desafios colocados”, apontou Fabiano Geraldo Pimenta Júnior, Subsecretário de Promoção e Vigilância à Saúde da Secretaria Municipal de Saúde. Segundo ele, a subnotificação está relacionada a alguns fatores, por exemplo, os tipos de teste que estão disponíveis.

“O que temos procurado fazer é tentar ampliar a testagem por PCR, agora com o apoio da Fiocruz”, contou. A Fundação vai contribuir com o município com cerca de 300 testes por dia, totalizando 5 mil. O teste rápido recebido do Ministério da Saúde, segundo Fabiano, não discrimina os marcadores, ou seja, não distingue se a pessoa assintomática está contaminada ou já teve a doença. Os testes por PCR são mais eficazes na detecção da doença.

::"Estamos entregando pessoas de bandeja para vírus infectar", afirma coordenador da maior pesquisa sobre covid no Brasil::

Além dos trabalhadores da saúde, estão sendo testados também os pacientes que sofrem por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que pode ocorrer devido a outros vírus e outras doenças. Até terça (16), foram 428 casos testados, entre os quais 77 foram confirmados para covid-19 e outros 42 estão em investigação.

Segundo Fabiano, em relação à síndrome gripal, com sintomas leves, há sim uma subnotificação, uma vez que a indicação é que os pacientes não procurem a rede hospitalar para não sobrecarregar o sistema.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Joana Tavares e Raquel Júnia