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Chile: entre celebaração por Constituinte e sofrimento por covid-19

Em plena campanha do plebiscito Constituinte de 25 de outubro, país enfrenta pandemia com 15 mil mortes e grave crise

Brasil de Fato | Santiago (Chile) |

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No aniversário de golpe militar e morte de Salvador Allende, em 11 de setembro, Chile se vê diante de novos desafios - Claudio Reyes/AFP

“Trabalhadores de minha pátria: tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens superarão este momento cinzento e amargo, em que a traição tenta se impor. Saibam que, muito antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor”. Esta parte do último discurso de Salvador Allende, transmitido por rádio antes do atentado ao Palácio de La Moneda, que o destitui da Presidência na manhã de 11 de setembro de 1973, faz total sentido com o Chile de hoje.

No último ano, ocorrem no país andino constantes momentos de mobilização social exigindo uma mudança profunda no modelo neoliberal imposto na ditadura. Isso se soma ao processo Constituinte pelo qual passa o país, e cuja primeira etapa será o plebiscito de 25 de outubro para aprovar ou rejeitar a convocação de uma nova Constituição.

O debate sobre a nova Constituição é atravessado pela crise em decorrência do novo coronavírus, que tem no Chile um dos países com maior taxa de incidência de casos no mundo. O governo do presidente Sebastián Piñera é muito criticado por controlar a pandemia, que até agora significou aproximadamente 430 mil casos e quase 15 mil mortes. A doença, além de agravar a crise política e social que atravessa o país, significou um colapso econômico, com mais de 2 milhões de desempregados.

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No Chile, pelo mesmo motivo, o cenário deste aniversário do golpe militar é especial. Hoje, o país sul-americano está em um processo de mudanças importantes, em que o povo tem protagonismo e em meio a uma longa transição pós-ditadura, encontra-se em sua fase final.

No entanto, o governo de direita de Piñera ainda não entende as demandas dos cidadãos por mais democracia: na tarde dessa sexta-feira (11) estendeu o Estado de exceção por mais 90 dias, o que inclui a data do plebiscito e o primeiro aniversário da revolta social chilena, em 18 de outubro.

O processo Constituinte como fim do legado da ditadura

Um dos resultados mais importantes das mobilizações de outubro do ano passado é o processo Constituinte, que começa no próximo mês de outubro, e que é visto como uma das expressões mais claras do fim do ciclo neoliberal.

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Lembremos que a repressão ordenada pelo governo de Sebastián Piñera causou 31 mortes, das quais pelo menos cinco estão diretamente relacionadas a agentes do Estado, além de 5.558 denúncias de violações de direitos humanos, segundo dados do Ministério Público Nacional, e cerca de 400 mutilações oculares.

Esses eventos reativaram o vínculo entre a direita e as ações da ditadura de Pinochet, fortalecendo a demanda por uma nova Constituição. Apesar da conclusão desse processo Constituinte, isso não diminuiu o descontentamento com o governo de Piñera, que não ultrapassou 15% de apoio, em média, em diferentes pesquisas.

Nesse sentido, a Frente Ampla, coligação de oposição que reúne forças de esquerda que estavam fora da tradicional social-democracia chilena, indicou que essas datas deveriam nos lembrar que "o golpe de 1973 é a causa do Constituição de 1980, que não garante direitos humanos ou direitos básicos. Apenas estabelece garantias para um sistema de abuso contra as pessoas. Para construir o Chile, precisamos curar e mudar as instituições que vêm das armas, pelas instituições que vêm do diálogo”.

“Nossa memória é a base para o futuro, para o Novo Chile que nasce na construção de um país para e com todas, todos e todes. Hoje temos a possibilidade de decidir qual Chile queremos construir. O processo Constituinte que iniciamos com o plebiscito de 25 de outubro é a resposta do povo a um processo de 47 anos, caracterizado pela violência e abusos. O povo disse basta, abalou as instituições e forçou este momento da nossa história”, enfatiza o conglomerado de esquerda.

No Chile de agora há esperança de acabar com o legado de Pinochet e iniciar um novo processo, com vistas aos desafios do futuro, em que a eleição dos que farão parte da Convenção Constituinte – órgão que certamente redigirá a nova Constituição – será fundamental para o curso que o país seguirá nos próximos anos.

*José Robredo Hormazábal é jornalista (@joserobredo).

Edição: Vivian Fernandes