ENTREVISTA

Inteligência Coletiva: projeto para pensar saídas da crise e em defesa da ciência

Conheça o projeto mineiro formado por pesquisadores e que luta pelo cumprimento dos investimentos na Fapemig

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Luciano Mendes
“A defesa da Fapemig vem sendo feita há muitos anos por várias instituições mineiras, reitores, deputados, pesquisadores, estudantes, sindicalistas” | Crédito: Créditos da foto: Amanda Lelis/UFMG

O Brasil de Fato acompanhou nesta semana o lançamento do projeto Inteligência Coletiva em Minas Gerais, que aconteceu na terça-feira (22) e reuniu, por meio de uma plataforma online, professoras e professores, pesquisadores e pesquisadoras e representantes de diversas Instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação (ICTs) do estado.

Durante o evento foi realizada uma conferência sobre a história e aprendizados deixados pela pandemia da Gripe Espanhola de 1918 em Belo Horizonte, ministrada pela professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Heloísa Starling. Assista.

O Inteligência Coletiva é um grupo que reúne diversos pesquisadores que desejam, além de defender e reivindicar maiores investimentos na pesquisa, contribuir para enfrentar a crise sanitária e social de hoje e pensar juntos em novas iniciativas para melhorar o futuro da população brasileira.

Inteligência Coletiva é uma iniciativa que reúne pesquisadores de instituições mineiras para articular formas de combate aos impactos da pandemia

O coletivo é coordenado pela Secretaria Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC-MG), Instituto René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Minas) e presidência da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que tem coordenação da deputada Beatriz Cerqueira (PT).

Para saber mais sobre o projeto e quais serão os próximos passos em Minas Gerais, conversamos com o professor da UFMG Luciano Mendes, também da SBPC. Leia a entrevista:

Brasil de Fato – Pode falar melhor sobre o Inteligência Coletiva e aprofundar seus objetivos do movimento?

Luciano Mendes – É uma iniciativa que reúne pesquisadores e pesquisadoras de instituições mineiras de todo o estado para, em primeiro lugar, articular formas de combate aos impactos da pandemia aqui em Minas. Isso significa fazer um inventário desse impacto e daquilo que já vem sendo desenvolvido nos territórios.

A segunda ação fundamental é pensar novos horizontes para o estado, porque a gente sabe que a crise que a gente está vivendo não foi estruturada pela pandemia. O que a pandemia fez foi agrava-la. Então, nós coordenamos ações imediatas, mas planejamentos de longo prazo.

Queremos pensar novos horizontes para o estado, a crise já existia, a pandemia só agravou

Desejamos agrupar as forças que já existem, sobretudo aquelas ligadas às universidades e instituições de ciência para esse enfrentamento coletivo.

O nosso olhar também se volta para o fortalecimento da Fapemig [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais] como uma estratégia, uma mediação fundamental para que a gente possa pensar novos e mais audaciosos projetos de futuro, para que o estado de Minas Gerais seja cada vez menos violento, mais igualitário, menos racista, machista e homofóbico.

Em que a Fapemig atua e por que é importante realizar a defesa da instituição?

A Fapemig é similar a órgãos que existem no mundo inteiro e em vários estados brasileiros. Uma fundação mantida com recursos públicos, que financia pesquisas e projetos de desenvolvimento nas áreas estratégicas, nas áreas em que a gente mais precisa produzir conhecimento para que a ação do Estado e da sociedade seja cada vez mais esclarecida sobre os diversos aspectos da vida social.

A Fapemig apoia projetos em todos os setores, ou seja, saúde, pandemia, alternativas à mineração, financia pesquisa sobre a escola, a situação dos adolescentes ou das pessoas em situação de rua, etc… Tudo isso é parte do investimento da Fapemig na pesquisa para que possamos nos entender melhor.

Por exemplo, a importância da pesquisa em história: é preciso entender o que somos aqui em Minas, no Brasil, como nos constituímos, como chegamos a essa situação dramática que vivemos.

Tudo isso é parte do investimento na pesquisa e no desenvolvimento. Além de tudo, [a Fapemig] apoia várias iniciativas que vão melhorar a nossa vida no cotidiano, como produtos e serviços, até medidas que nos ajudem a nos compreendermos. Quanto mais sabemos o que somos, mais e melhor podemos agir para alcançar bem-estar para todo mundo.

Quais os próximos passos vocês estão articulando para a defesa da Fapemig?

A defesa da Fapemig vem sendo feita há muitos anos por várias instituições mineiras, reitores, deputados, pesquisadores, estudantes, sindicalistas.

Nosso programa de defesa da Fapemig comporta quatro fases. Uma delas foi a elaboração e assinatura de uma carta, que foi entregue de forma simbólica ao governador Romeu Zema, porque ele não nos recebeu.

Fizemos uma exposição pública dessa carta nas redes sociais. Nós a entregamos ao presidente da ALMG, Agostinho Patrus (PV), no lançamento do Inteligência Coletiva.

A universidade produz inclusive utopias de que esse mundo pode ser melhor, para que a gente derrote esse projeto político que aí está

A terceira fase será uma campanha de esclarecimento sobre a Fapemig, a importância dela no estado, os resultados muito positivos que a gente já tem. É também uma campanha de denúncia sobre o descaso com que o Governo de Minas vem tratando a Fapemig.

Isso tudo nos leva à discussão daquilo que é o coração da nossa campanha: a luta na ALMG pela aprovação do orçamento da Fapemig no ano que vem. [De acordo com a Constituição estadual, o investimento na instituição deve ser de ao menos 1%. A regra não está sendo cumprida].

No início de setembro, a UFMG foi considerada a melhor universidade federal brasileira no ranking Times Higher Education (THE), um dos três mais importantes do mundo. Em julho, o mesmo ranking a apontou como a 5ª melhor universidade da América Latina. Como a instituição está lidando para balancear a falta de investimento em educação do governo federal e estadual?

Respondo essa questão como professor da UFMG. Sei que a universidade tem um processo interno muito seguro e muito importante de manutenção das estruturas que permitem que professores, alunos e funcionários trabalhem apesar da crise.

Significa que a universidade tem feito uma série de opções políticas para manter os alunos na universidade e fazendo isso com grande esforço e dificuldade.

Certamente é esse esforço que é feito pela reitoria, pelos órgãos colegiados e por cada uma das unidades da universidade, que faz com que, apesar da crise, a gente ainda continue respirando e produzindo.

Produzindo, inclusive, utopias de que esse mundo pode ser melhor e para que a gente derrote esse projeto [político] que aí está. Acho que a universidade tem sido muito bem conduzida na direção de um programa cada vez mais inclusivo, autônomo e com grande impacto social em todas as áreas.

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Editado por: Elis Almeida

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