Protestos

Estudante jogado de ponte por policial revela violações de direitos humanos no Chile

Anthony Araya teve traumatismo craniano aberto; polícia alega que tentou “ajudá-lo a não cair”, mas vídeos mostram ação

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Araya no rio após ser empurrado por policiais
Após ser empurrado por policiais, Araya aparece caído no leito do rio - Natalia Espina/OperaMundi

Era tarde de sexta-feira (2) quando o jovem Anthony Araya, de 16 anos, estudante chileno do ensino médio, participava de uma manifestação no centro de Santiago por causa do plebiscito constitucional de 25 de outubro. Ao fugir de uma perseguição policial, foi empurrado por um “carabineiro” (membro da polícia militarizada chilena).

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O vídeo é da TeleSur e viralizou nas redes sociais. Mostra que o empurrão faz com que Araya choque sua cintura contra uma mureta baixa da ponte Pio IX. Ele dá uma meia cambalhota, tenta se segurar na mureta, mas não consegue, e cai no rio Mapocho, que estava com baixíssimo volume. Os vídeos não mostram o impacto, mas há fotos do jovem já desmaiado após a queda, com o sangue escorrendo junto com as águas que correm.

Entre a noite de sexta e a manhã de sábado, a direção dos carabineros (polícia militarizada chilena) deu duas versões bem diferentes sobre o episódio. No primeiro comunicado, quando o vídeo da TeleSur ainda não era trending topic no país, a instituição afirmou que “não houve nenhum envolvimento de carabineiros com a queda de um manifestante da Ponte Pio IX”. Na manhã de sábado (3), já com o vídeo do empurrão como assunto mais comentado do país, o novo comunicado afirmou que “um policial tentou evitar que um manifestante se atirasse da ponte, mas não conseguiu”.

A instituição também reconheceu que o policial que “tentou evitar” a queda de Anthony Araya (ou que o empurrou da ponte) já está identificado, mas se negou a revelar seu nome. Na tarde de sábado (3), os carabineros informaram que o autor do empurrão foi detido e deve ser investigado por tentativa de homicídio.

Curiosamente, antes mesmo desse segundo comunicado, já havia um segundo vídeo, publicado pelo perfil de Piensa Prensa, a partir de imagens do próprio Centro de Comunicações dos Carabineros (Cenco), que não deixa dúvidas: a cena filmada mostra que Araya fugia e sua trajetória só passa a ir em direção à mureta após o empurrão.

O estudante foi levado, em estado grave, à Clínica Santa María, que fica a poucos metros do local onde tudo ocorreu. Segundo informe médico publicado na madrugada de sábado, o jovem sofreu um traumatismo craniano aberto, fratura em ambas os pulsos e em alguns ossos da coluna vertebral. 

Nesse sábado, Araya passou por cirurgia e não tem mais risco de morte. No entanto, ainda não se sabe que tipo de sequelas o estudante pode ter.

Direitos Humanos

O episódio reabriu o debate sobre direitos humanos no Chile no contexto da revolta social do país, iniciada em outubro de 2019, e que passou por um período de calmaria nos últimos meses, devido à pandemia do coronavírus, mas que tem voltado a gerar protestos nos últimos dias.

A manifestação que terminou com Araya empurrado e caindo de uma ponte tinha clara relação com o plebiscito, e defendia as opções “aprovo” e “convenção constitucional”. A primeira defende que o Chile abandone definitivamente a atual Constituição, imposta pelo ditador Augusto Pinochet em 1980. A segunda defende que a nova Constituição seja realizada a partir por uma assembleia constituinte.

:: Chile confirma plebiscito sobre nova constituição para o dia 25 de outubro ::

Oposição

Todos os partidos da oposição ao governo de Sebastián Piñera se uniram para pedir a demissão do general-diretor dos Carabineros, Mario Rozas. Não é a primeira vez que isso ocorre: em novembro do ano passado, em meio aos protestos e quando havia centenas de denúncias pelos 22 mortos e mais 200 casos de lesões oculares contra manifestantes, houve não só pedidos de renúncia de Rozas, como denúncias apresentadas por organizações de Direitos Humanos no Chile à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Segundo o senador Juan Ignacio Latorre, da Frente Ampla, “é evidente que existe um sentimento de impunidade, muito pouco progresso foi feito no sistema de Justiça e novos casos muito graves de violações dos direitos humanos surgiram. É urgente uma profunda refundação dos Carabineros do Chile, o general Rozas não pode continuar no comando”.

Já o comunista Daniel Jadue, prefeito do município de Recoleta, na região metropolitana da capital (a Ponte Pio IX conecta justamente os municípios de Santiago e Recoleta) disse ao diário El Desconcierto que “esse registro de horror deveria ser suficiente para que o Ministro do Interior (responsável no Chile pela política de segurança pública) e o general-diretor dos Carabineros colocassem seus cargos à disposição”.

O ministro do Interior é Víctor Pérez, que declarou ao El Mercurio que “houve uma mudança no procedimento policial, e em um momento de violência ocorreu um incidente que lamentamos tenha acontecido. Estamos trabalhando para que esses eventos não ocorram”.

Até o momento, o general-diretor Mario Rozas não se pronunciou nem sobre a queda de Anthony Araya, nem sobre os apelos a que ele seja demitido. O presidente chileno Sebastián Piñera tampouco se pronunciou até o momento.