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Boulos: falta sensibilidade social a Covas para entender os problemas de São Paulo

No primeiro debate, Boulos diz que "moradia não é projeto eleitoral, mas uma questão de vida"

Brasil de Fato | Brasília (DF) |

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Boulos e Covas durante primeiro debate dos candidatos à prefeitura de São Paulo - Divulgação

 

No primeiro debate com os candidatos do segundo turno na eleição para prefeito de São Paulo, realizado pela CNN Brasil, na noite desta segunda-feira (16), Guilherme Boulos (Psol) e Bruno Covas (PSDB) adotaram um tom razoavelmente respeitoso em cerca de uma hora e meia de discussão. Apesar disso, como estratégia, o atual prefeito, que concorre à reeleição, tentou colar no candidato do PSOL a pecha de "radical" e "inexperiente", ao comentar, em um dos blocos, que Boulos não sabia nada de gestão pública por ter atuado por 20 anos no Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que luta por moradia popular. 

"Até entendo a dificuldade do Guilherme Boulos, porque ele como chefe de um movimento está acostumado a mandar. Ser prefeito é mais do que isso, é ser servidor público, ouvir as pessoas, a comunidade, discutir e dialogar com o parlamento municipal e com as pessoas", alfinetou. 

Em resposta, Boulos destacou sua trajetória no MTST e disse que falta sensibilidade social a Bruno Covas para entender os problemas do povo da maior cidade do país.

"Eu tenho muito orgulho da minha experiência no movimento social, nos últimos 20 anos, onde eu aprendi a sentir a realidade das pessoas, a trajetória, a vida das pessoas como a sua história, e não como um número ou uma estatística que um secretário te dá num gabinete. Essa experiência te dá uma sensibilidade social, Bruno, que eu acho que você deveria experimentar, [experiência] que nenhum mandato te dá, que nenhum cargo de secretário nos governos do PSDB, que você teve, te dá", afirmou. 

Moradia popular

Sobre o tema da moradia, Bruno Covas tentou se contrapor a Guilherme Boulos ao dizer que vai priorizar parcerias com a iniciativa privada para construção de habitações, incluindo isenção de impostos para empresas e outras iniciativas ligadas ao mercado imobiliário. Atualmente, o déficit habitacional na capital paulista é de mais de 470 mil moradias, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

"A gente tem investimento público na construção de unidades habitacionais. Nossa meta, nos próximos 4 anos, é chegar a 70 mil unidades habitacionais viabilizadas pela Prefeitura, mas é claro que a gente também precisa estimular o setor privado a construir mais na cidade de de São Paulo. A gente não pode apenas pensar nas obras públicas como saída para este tema, esse grande desafio, que é vencer o déficit habitacional."

Em resposta, Guilherme Boulos destacou que "uma coisa é moradia popular, habitação de interesse social para os mais pobres. Outra coisa é habitação de mercado, iniciativa privada, financiamento imobiliário". Segundo ele, 92% do déficit habitacional são de pessoas que ganham menos de três salários mínimos.

Para o candidato, essas pessoas "não são sujeito de crédito" para os bancos e, por isso, não conseguem financiamento para a casa própria. "Nesse caso, é o poder público que tem que entrar com subsídio". Ainda de acordo com o candidato do PSOL, Bruno Covas e seu principal aliado, o governador tucano João Doria, têm obsessão pela ideia de que o mercado resolve tudo.     

"Bruno, sabe por que que você insiste nessa ideia de que o mercado resolve tudo, de que o mercado é salvador de tudo? Você e o Doria tem quase uma tara por essa ideia. Vocês insistem nessa ideia porque não conhecem a vida das pessoas, vocês não conhecem a realidade concreta de pessoas que, no final do mês, e tem que escolher entre pagar o aluguel e botar comida na mesa. De alguém que mora de favor e sofre humilhação, de alguém. De alguém que mora numa encosta, numa área de risco, num barraco. Eu conheço essas pessoas não por estatística, mas por nome. Convivo com elas há 20 anos. Por isso, o meu compromisso é encontrar uma solução para o problema delas, e uma solução para o problema delas vem do poder público. O teto é o básico, garante dignidade, nós não podemos se isentar dessa responsabilidade", criticou.

Pandemia

Outro ponto de destaque durante o debate girou em torno da pandemia de covid-19. Apenas no estado de São Paulo, mais de 40 mil mortes já foram registradas, a maioria esmagadora dos óbitos está concentrada na capital. Segundo Guilherme Boulos, caso eleito no segundo turno, vai realizar o trabalho que, segundo ele, não foi feito pelo atual prefeito Bruno Covas, como testagem em massa e monitoramento epidemiológico. 

"[Vou] Usar a rede de agentes comunitários de saúde — são quase 8 mil na cidade de São Paulo — para fazer a testagem em massa, usar os equipamentos públicos — que estão subutilizados, as escolas ainda estão fechadas, por exemplo —, para fazer o isolamento das pessoas que não conseguem fazer, seja por condições de moradia precária, adensamento ou qualquer outra razão, e monitoramento epidemiológico seguindo o conselho de infectologistas, profissionais de saúde, enfim, a ciência", disse Boulos. 

Para rebater o argumento do adversário, Covas disse que todas as decisões da administração municipal foram realizadas com acompanhamento de técnicos de vigilância sanitária. "Muito fácil agora ser engenheiro de obra pronta. O difícil foi enfrentar o desafio de estar à frente da prefeitura durante o momento em que a cidade virou o epicentro dessa grave crise sanitária no Brasil. Todas as medidas tomadas aqui foram tomadas olhando para a realidade da cidade, uma cidade que tem 1.740 ruas que começam na cidade de São Paulo e terminam numa outra cidade da Grande São Paulo", retrucou. 

Cracolândia

O tema da Cracolândia foi trazido por Guilherme Boulos, que acusou a gestão do PSDB na capital de agir com demagogia, violência e ineficiência para conter o problema.

"Um dos dramas é a situação da Cracolândia. No mês passado, tivemos duas ações dos guardas na Cracolândia. Você acha mesmo que o tema dos usuários de droga se resolve à base da porrada?", questionou. “O Dória prometeu acabar com a Cracolândia. O que aconteceu é que ela está ainda maior. Vamos fazer um programa ousado de redução de danos. E o problema do tráfico vai ser enfrentado pela inteligência da polícia civil”, acrescentou. 

Em resposta, o atual prefeito buscou rebater o candidato do PSOL. "Nós tínhamos várias quadras na região em que o poder público era impedido de entrar, nem mesmo para fazer a limpeza. Agora, a prefeitura está lá presente, o governo do estado está lá presente, para poder atuar neste problema. A solução é multidisciplinar, passando pela assistência, pela saúde e pelo combate ao crime organizado", apontou. 

O próximo debate entre dois candidatos a prefeito de São Paulo está marcado para quinta-feira (19), a partir das 22h30, na Band TV.

Edição: Rodrigo Durão Coelho