Fofura

Em meio à pandemia, crianças se espelham em servidores que dão exemplo de acolhimento

Psicanálise explica que crianças sonham em ser como os profissionais que as incluem em seu afeto e trazem esperança

Belo Horizonte | Brasil de Fato MG |
A pandemia, apesar dos pesares, tem sido uma oportunidade para novas possíveis soluções, e isso a criançada adora - Arte: La Cruz

Há algo maravilhoso acontecendo agora. Difícil acreditar, não é? A quarentena completou um ano, vivemos com um governo que tem retirado direitos sistematicamente da população em geral, mas sim, sonhos estão sendo gestados neste momento. E o servidor público tem parte na construção dessa esperança.

“Eu quero ser professora para ensinar as crianças e ajudar. Eu acho importante cuidar dos alunos”. Essa é a sorridente e divertida Beatriz Monteiro, de 11 anos, que como toda criança passou um ano difícil sem ir à escola, mas quando é perguntada o que quer ser quando crescer, responde rapidinho: professora.

“Quero ser igual à minha professora Andréia”, diz a pequena Bia. “A minha inspiração é ver todas as professoras trabalhando duro, mas com muito carinho, e por isso eu quero fazer a mesma coisa que elas”.


Beatriz Monteiro, de 11 anos, quer ser igual à sua professora Andréia / Arte: La Cruz

As crianças percebem o esforço dos adultos e, além do esforço, elas tendem a se identificar com pessoas que as incluem em seu afeto, nos explica a psicanalista Tânia Ferreira, que é mestre e doutora em educação e professora no IEC PUC Minas. E deve ser por isso que o pequeno Miguel Henrique Costa, que tem apenas 3 anos, já quer ser gari.

Ele veste o seu mini-uniforme laranja, a tarja com o seu nome no peito, as luvas, as botas e espera o “amigão” passar. “Ele sempre ficava doido vendo o caminhão, aí depois começou a gostar dos garis também. Ele chama os garis de meus ‘amigão’. Se ele estiver dentro de casa e escutar o barulho dos garis, sai correndo atrás deles!”, diverte-se a mãe de Miguel, Jéssica Natália Costa. “Em todo lugar que ele vai é assim: se ele vê os garis, fica louco (risos)”.


Miguel Henrique Costa tem 3 anos e já sabe o que quer ser: gari / Arte: La Cruz

Como outras crianças, que decoram o seu aniversário com o Ben 10, o Batman ou o Capitão América, o pequeno Miguel também aniversariou com seu herói favorito: o gari. “A gente perguntava pra ele do que queria que fosse sua festa de aniversário, ele sempre respondia: de lixeiro. Aí nós fizemos a festinha temática”, descreve a mãe. Foi na festa que ele ganhou o seu primeiro uniforme.


Aniversário de Miguel / Foto: Arquivo pessoal

Construindo o ideal de futuro

De acordo com a psicanálise, a criança tem um desejo de crescer, de ser grande. Num primeiro momento, ela lida com um “eu ideal”, pensado pelos seus pais no qual a criança se aliena, para depois construir seu “ideal do eu”. Crianças que querem ter profissões como essas, relacionadas ao serviço público, provavelmente tiveram boas e afetivas experiências com esses profissionais.

A criança brinca e fantasia a partir do que ela ouve ou vê. Tem criança que fala que quer ser lixeiro. Por quê? Porque o modo como a criança foi incluída no afeto do lixeiro faz com que ela construa esse ideal de futuro. As crianças veem esses lugares como lugares de identificação, onde elas querem estar, querem viver, querem ser”, relata a psicanalista Tânia.

::Leia também: Criança suja é mais saudável? ::

Dinossauros e novas soluções

Outros pontos de interesse também aparecem ao longo da vida de uma criança. A pandemia, apesar dos pesares, tem sido uma oportunidade para novas possíveis soluções, e isso a criançada adora.

“Mesmo crianças que passam por situações muito adversas têm recursos como brincar ou fantasiar que as colocam no caminho de construir um futuro de melhores tempos”, explica Tânia. “Esses dias eu escutei um menininho falando isso: ele queria trabalhar no Centro de Saúde perto da casa dele para dar a vacina para o avô dele e assim eles poderem se abraçar”, relembra.

Essa não é, mas poderia ser, uma frase do Antônio Buono Ribeiro, de 6 anos. Ele adora ver vídeos documentários sobre a natureza, o universo e o porquê das coisas. O Antônio quer inventar um dinossauro – sem dentes, claro, para não machucar ninguém, quer entrar num buraco negro para ver como é, e prometeu que vai inventar um laser para resolver alguns dos nossos problemas, como acabar com o coronavírus.


Antônio Buono Ribeiro, de 6 anos, quer ser cientista para inventar soluções para o mundo / Arte: La Cruz

E o que te leva a pensar em tantas soluções, Antônio? - perguntamos. “Eu penso em uma lógica: como eu poderia salvar as pessoas?”, questiona-se o pequeno.

Ajudar as pessoas tem tudo a ver com o que os servidores públicos fazem hoje. Eles são a maioria na saúde, na educação, na limpeza urbana e até na ciência. “Servidor público é uma missão”, afirma Israel Arimar, presidente do Sindicato dos Servidores e Empregados Públicos de Belo Horizonte (Sindibel).

“Mesmo com todos os ataques e adversidades, existem muitos servidores públicos que conseguem tirar felicidade em atender a população. Quando a criança sonha em ser gari ou professor, é importante não só para a nossa categoria, mas para toda a sociedade”, diz Israel.

E os nossos servidores públicos, estão sonhando?

Informações da Secretaria de Previdência, do Ministério da Fazenda, mostram que os transtornos mentais são a terceira maior causa de afastamento do trabalho por doença no Brasil. O 1º Boletim Quadrimestral sobre Benefícios por Incapacidade, de 2017, apontou que episódios depressivos são a principal causa de pagamento de auxílio-doença não relacionado a acidentes de trabalho, correspondendo a 30%, seguido de outros transtornos ansiosos (17,9%).

Nós conversamos com o gari Vander Lúcio dos Santos para saber se ele, como o pequeno Miguel, também está com a cabeça no futuro, mas a realidade não tem ajudado Vander a sonhar. Ele já é aposentado, mas acompanha de perto a situação das colegas e dos colegas que continuam na ativa.

:: Ouça no Radinho BdF: Comer pastel e visitar os avós são desejos de crianças no pós-vacina

Em Belo Horizonte os garis são contratados de forma terceirizada ou por meio de concurso público pela empresa de Serviço de Limpeza Urbana (SLU). Segundo Vander, os concursados estão passando por problemas de afastamentos, baixo salário e uma possível extinção. “A maioria dos funcionários já têm mais de 50 anos e eles estão sendo afastados e não se renova a profissão. O servidor vai perdendo a estima. Nós estamos na fase final da SLU”, lamenta Vander Lúcio.

A situação também é difícil para os trabalhadores da saúde, para as professoras municipais, para os poucos pesquisadores e servidores públicos de Belo Horizonte em geral. A tramitação da Proposta de Emenda Constitucional 186 e a Reforma Administrativa têm tirado o sono e o sonho de muita gente, e isso não é bom.

:: Leia também: Paulo Freire, a primavera e o tempo de esperançar ::

“Essa coisa de já prever o futuro”, diz a psicóloga Tânia, “uma certeza antecipada de que tudo será pior, adoece as pessoas. A psicanálise trabalha com isso: não é possível antecipar uma certeza. O futuro não aconteceu ainda. As coisas estão difíceis, mas nem por isso estão perdidas. O desejo é indestrutível. Não é pandemia, não é coronavírus que vai acabar com ele”.

E como essa reportagem tentou demonstrar, os servidores públicos têm motivos de 3, 6 e 7 aninhos para retomar os sonhos. Segundo o médico psicanalista Sigmund Freud, os adultos responsáveis por crianças têm pelo menos três funções determinantes: despertar o interesse da criança pelo mundo externo, dar amparo e proteção, e acender o desejo de viver, desejo esse que pode ter relação com o prazer e com o sofrimento, mas ainda assim desejo.

Hora de esperançar

A médica veterinária Patrícia Dinah Tamantini divide um pouco desse desejo com a pequena Valentina Prates Gonçalves, de 7 anos. Na casa da Valentina existem vários animaizinhos e isso traz para ela uma vontade de cuidar dos bichos e, talvez, ser veterinária um dia. “Mas quero ser veterinária de animais selvagens”, diz Valentina.


Valentina Prates Gonçalves, de 7 anos, quer ser veterinária de animais selvagens / Arte: La Cruz

A entrevista com Valentina trouxe bons ventos e, três dias depois, veio a notícia de que Belo Horizonte ganhou o seu primeiro Hospital Público Veterinário. “Aqui em BH está sendo muito legal a experiência. Estamos muito contentes com mais um hospital público veterinário no Brasil”, conta Patrícia Dinah, que está treinando a equipe de veterinários do hospital. Não é de dar uma esperança?

Quem também entra no jogo de “esperançar” é o presidente do Sindibel, Israel Arimar. Na opinião dele, se a gente acordasse em um Brasil que valorizasse os servidores, nosso país seria mais ou menos assim:

As escolas e hospitais teriam número de profissionais suficiente. Teríamos a maioria da população com conhecimento necessário, e isso tudo se refletiria na economia, porque pessoas saudáveis produzem mais e geram menos custos. 

Nesse país, todos os profissionais de serviços essenciais já estariam vacinados, dos garis às assistentes sociais, e nenhum servidor morreria mais por covid-19. Os servidores só trabalhariam a quantidade de horas saudável para a mente e o corpo, e o salário seria justo.

“O desejo do servidor público é bem simples e é igual ao da maioria dos brasileiros: ter reconhecimento da importância do trabalho que exerce”, sonha Israel.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Elis Almeida