RELIGIÃO

Solidariedade, fé e jejum: entenda o que é o Ramadã, o mês sagrado para os muçulmanos

Ramadã é um dos pilares do islamismo e celebra a revelação do Alcorão para o profesta Mohammad

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"É uma espiritualidade que se distribui no nosso cotidiano", afirma Francirosy Segurado sobre o Ramadã - Ahmad Gharabli/AFP
Toda oração é para adocicar nossa conduta

O Ramadã, nono mês lunar do calendário islâmico, é um período no qual muçulmanos de todo o mundo praticam o jejum absoluto do nascer ao pôr do sol, em busca da purificação do corpo e da mente.

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Este ano, o Ramadã teve início em 12 de abril e vai até 12 de maio. Como acontece anualmente, é marcado por uma série de ações de caridade, ainda mais intensificadas em meio à pandemia do novo coronavírus.

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O Ramadã é celebrado por ser o momento, segundo crê a religião, em que o anjo Gabriel revelou o livro sagrado do Islã, o Alcorão, ao profeta Mohammad (Maomé, em português).

Ali Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), explica que o islamismo é uma religião monoteísta que representa uma continuidade tanto do judaísmo quanto do cristianismo.

Existe uma crença absoluta do Alcorão como uma mensagem para humanidade de conduta e de preservação da vida. É um mês sagrado em que a caridade acaba se multiplicando. O profeta disse que o muçulmano não pode dormir enquanto outro ser humano está com fome

Zoghbi acrescenta que o jejum possibilita o desenvolvimento da paciência e da resiliência. “É uma abstenção completa. Um jejum onde se faz um aprimoramento espiritual que consiste em ter um comportamento ético, em paz com todos os seres humanos”, diz.

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A restrição alimentar não é obrigatória, apesar de adotada massivamente pelos adeptos da religião desde a infância. A orientação é que apenas muçulmanos em condições físicas para o jejum, com saúde plena e idade adequadas, o pratiquem. 

De acordo com o Alcorão, a vida se sobrepõe a tudo. Exatamente por isso, aqueles que não conseguem ou não podem jejuar por qualquer motivo têm como alternativa oferecer um prato de comida ao próximo, já que, para os muçulmanos, a solidariedade também é uma via de purificação.

Ao longo do ano passado, por exemplo, a Fambras doou mais de 150 toneladas de alimentos para combater a fome em meio à pandemia.

A quebra do jejum, após o pôr do sol, também é sagrada. Fora do contexto pandêmico, é o momento em que os muçulmanos se encontram e celebram juntos nas mesquitas. Há ainda algumas orientações de atos simbólicos deixadas pelo profeta Mohammad, como retornar a se alimentar, primeiramente, com uma tâmara.

Pilar fundamental

A antropóloga e muçulmana Francirosy Barbosa, pesquisadora e professora da Universidade de São Paulo (USP), explica que, durante o período do Ramadã, as súplicas e práticas religiosas acontecem com mais frequência, com orações ao menos cinco vezes por dia. Assim como toda a comunidade islâmica, ela inicia o dia cedo com a preparação do chamado Suhur, uma refeição feita de madrugada, geralmente às 4h, que permitirá que a pessoa se sustente até o sol se pôr.

Nos conectamos muito com a religiosidade, com a espiritualidade. Nosso desafio não é só o jejum de comida e bebida, é o desafio de termos pensamentos positivos, atitudes boas, comportamentos afetivos e contribuir com uma sociedade mais justa. É uma espiritualidade que se distribui no nosso cotidiano. Toda oração é [para] adocicar nossa conduta 

Segundo a antropóloga, em países de maioria islâmica, o comércio funciona somente durante o período noturno, em respeito ao Ramadã, um dos cinco pilares do Islã e o período mais importante do ano para os muçulmanos.

"O Ramadã é tão forte que até aquelas pessoas que no cotidiano não praticam a fé, não fazem as cinco orações ou estão afastadas da religião, quando chega o mês do Ramadã, vai lá e faz o jejum. Se cria uma atmosfera muito bonita. É um sentido da comunidade, congregação e solidariedade”, ressalta Barbosa.

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Os outros pilares são o Shahadah, a proclamação da fé na unicidade de Alá; o Saalat, as cinco orações que os muçulmanos realizam diariamente, voltados para Meca; o Zakat, uma contribuição anual para ações de solidariedade; e, por fim, a Hajj, a peregrinação realizada à cidade santa de Meca, na Arábia Saudita.

Cerca de 3 milhões de pessoas de todos os pontos do planeta cumprem o trajeto anualmente, que deve ser feito pelo menos uma vez na vida adulta dos muçulmanos. Para Ali Zoghbi, falar sobre o Ramadã permite desconstruir uma imagem estereotipada e equivocada do Islã.

“O Islã é uma religião de paz, que respeita as diferenças. Não só respeita como entende que elas fazem parte do plano divino. Infelizmente, criou-se a ideia que o muçulmano está ligado ao terrorismo, à violência, porque grupos que não praticam o Islã, em nome do Islã, fizeram coisas erradas. Como o cristianismo fez na Idade Média. Temos que separar o que preconiza a religião da prática nefasta de alguns”, argumenta o vice-presidente da Fambras.

Em meio à pandemia e à volta da fome no Brasil, Francirosy Barbosa ressalta que o Ramadã só vem a contribuir: “Acredito que neste mundo só cabe uma palavra: solidariedade. Independente de religião, gênero e raça”.

Edição: Morillo Carvalho