DESALENTADOS

Quase 6 milhões de brasileiros desistiram de procurar emprego; especialistas apontam razões

O aumento da população nessa condição revela a desesperança que se expande em meio à crise econômica

Brasil de Fato | Recife (PE) |
Falta de qualificação técnica e profissional e ausência de ações do Estado tem impacto na quantidade de pessoas que desistem da busca por emprego - Helena Pontes/IBGE

Desalentado: pessoa que gostaria de trabalhar, mas desistiu de procurar emprego por acreditar que não conseguiria. A definição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ilustra uma face muitas vezes invisível de um Brasil crivado pelo desemprego.

Continua após publicidade

Em todo o país, há 5,97 milhões de desalentados, segundo os últimos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral. Pernambuco sozinho soma 325 mil, número que vem em crescente quando comparado com os primeiros trimestres de 2019 e 2020. O aumento da população nessa condição revela a desesperança que também se expande em meio à crise econômica.

Continua após publicidade

Leia mais: IBGE: desemprego bate recorde com 14,4 milhões; quase 6 milhões estão desalentados

Continua após publicidade

Apesar de o levantamento do IBGE não detalhar o motivo da desistência, Fernanda Estelita, gerente de Pesquisas do Instituto em Pernambuco, conta que é possível identificar um perfil.

Continua após publicidade

“Em geral, é uma pessoa que procurou bastante e não encontrou. Ela realmente está desanimada. Existem algumas pessoas que dizem: na minha cidade não tem emprego, já verifiquei, então eu nem estou disposto a fazer esse esforço porque sei que não vou conseguir”, relata. 

Como o próprio nome sugere, o índice traduz o sentimento de descrença com o futuro. “O desalento é uma questão além de mercado, é uma questão de como as pessoas estão se sentindo e se estão confiantes que as coisas vão ficar melhores”, contextualiza a gestora. 

Viés Psicológico 

Para além da escassez de trabalho, a problemática também pode ser entendida pelo ponto de vista psicológico. Para o psicólogo Miguel Gomes, uma dimensão que pode explicar essa realidade é a internalização de que a culpa pelo desemprego é da própria pessoa, e não da falta de políticas públicas que incentivem a capacitação e o desenvolvimento de novos postos de trabalho.

“Isso está muito relacionado à pobreza. As pessoas por viverem em condição de vulnerabilidade acabam por se responsabilizarem. Não existe a percepção de que existe uma injustiça social e um Estado incapaz de promover equidade entre as pessoas. Elas vivem o fato de estarem na miséria em situação precária como se fosse uma falha delas”, comenta.

::Com Brasil no auge do desemprego, Renda Básica é necessária e urgente::

Simultaneamente, a condição de desemprego retroalimenta o sentimento de fracasso, agravando ainda mais a percepção negativa do indivíduo sobre sua própria realidade.

“Nossa sociedade valoriza muito essa ideia do ser humano produtivo que tem que estar ganhando dinheiro. À medida que a gente hipervaloriza o trabalho, quando não se tem um emprego, é como se a pessoa se sentisse menos completa. Isso aparece no índice de suicídio: a gente tem um crescimento do índice de suicídio por pessoas não conseguirem emprego”, diz. 

Miguel destaca que essa tomada para si de responsabilidade por algo que deveria ser do Estado gera conflitos psicológicos. “As pessoas sofrem muito nessa situação. As pessoas que não procuram emprego não estão satisfeitas, estão tristes, entristecidas, com certa decepção com a própria vida”, descreve.

Secretário de Trabalho, Qualificação e Empreendedorismo de Pernambuco, Alberes Lopes enfatiza que há postos de trabalho, mas reconhece que a situação dos desalentados é preocupante.

Quando não se tem um emprego, é como se a pessoa se sentisse menos completa.

Leia também: Quatro anos de "reforma" trabalhista: da perda de rumo do crescimento aos excluídos sociais

“Hoje foram anunciadas na nossa agência 528 postos de trabalho. Mas a gente sabe da dificuldade das pessoas que ainda não têm qualificação e não conseguem se qualificar. A maioria do pessoal que está desempregado não concluiu nem o Ensino Médio. Então isso mostra que a baixa qualificação faz com que essas pessoas tenham poucas oportunidades”, pontua.

Perguntado sobre iniciativas de fomento à capacitação, o secretário citou o projeto voltado a agricultores de Triunfo e Taquaritinga do Norte para produção de café e o programa de confecção de artesanato com couro de tilápia em Petrolândia, Tacaratu e Floresta, todos municípios do Sertão pernambucano. "Nós estamos explorando potencialidades regionais”, disse.

Lopes lembrou que Pernambuco gerou mais de 6 mil empregos em julho, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o melhor resultado para o mês em nove anos e que a expectativa ainda para 2021 é gerar quase 18 mil empregos.

Fonte: BdF Pernambuco

Edição: Vanessa Gonzaga