Futebol

Como Landim aproximou o Flamengo de Bolsonaro e usou o clube para defender ideias do presidente

“Envolver o Flamengo nisso é um absurdo e um tiro no pé”, critica Juca Kfouri, em entrevista ao Brasil de Fato

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Landim e Bolsonaro se aproximaram durante o mandato do presidente e podem compor chapa para 2022 - Foto: Reprodução

Na última terça-feira (31), vazou na imprensa que o presidente do Clube de Regatas Flamengo, Luiz Rodolfo Landim, teria dito que trabalhará para ajudar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em uma possível campanha para a reeleição em 2022, com doações e votos.

A reciprocidade parece ser verdadeira. A interlocutores em Brasília (DF), o presidente já manifestou o desejo de ter o flamenguista como candidato à vice-presidência em sua chapa, em 2022.

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Não foi a primeira vez que Landim demonstrou sua proximidade com Bolsonaro e seus ideais. Impulsionada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), a chamada “Lei do Mandante” foi aprovada, em pouco mais de um mês de tramitação, pelas duas casas legislativas. No final de agosto, o texto passou pelo Senado, e, agora, está à espera da sanção presidencial.

A proposta, que foi enviado por Bolsonaro após uma almoço com Landim, autoriza os clubes mandantes a negociarem os direitos de transmissão de suas partidas diretamente com as emissoras de televisão. O projeto é mais uma etapa da briga do presidente da República contra a TV Globo, detentora exclusiva da transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol.

Caso a lei passe, a TV Globo teria que negociar com cada clube os direitos de transmissão, inflacionando o mercado e deixando aberta a possibilidade de outras emissoras transmitirem o campeonato nacional.

Em Brasília, pelas mãos do diretor de relações institucionais do Flamengo, Aleksander Silvino dos Santos, camisas do clube circulam entre os gabinetes de parlamentares bolsonaristas e de ministros.

Santos levou o ex-chefe do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, para ver uma partida do Flamengo no estádio Mané Garrincha, em Brasília, onde o clube carioca manda alguns de seus jogos. O deputado federal Rodrigo Amorim (PSL-RJ), que quebrou a placa de Marielle Franco, recebeu uma camiseta do clube customizada com seu nome.

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Hélio Lopes (sem partido-RJ), amigo de Bolsonaro e figurante de diversas agendas do presidente, também recebeu uma camiseta. O vice-presidente Hamilton Mourão foi homenageado pelo clube e recebeu o título honorário do Flamengo, em evento na Gávea, sede do time.

A direção, não o clube

Perguntado se a atual direção tem conduzido o clube para o bolsonarismo, o jornalista Juca Kfouri respondeu assim: “Sem dúvida alguma. É claro que o Landim, como pessoa física, tem todo o direito de apoiar quem ele quiser. Envolver o Flamengo nisso é um absurdo e um tiro no pé, porque a torcida do Flamengo se divide como se divide o eleitorado brasileiro.”

Kfouri afirma que “nenhum presidente pode associar o clube que defende a um político ou a um partido”. “Ele (Landim) achar que associar o Flamengo ao Bolsonaro é de uma ingenuidade atroz. Pode associar o Flamengo às ideias, que é o que ele está fazendo, infelizmente. O Landim é um pulha, um sujeito que um dia me disse que era muito amigo de Dilma Rousseff e não é coisa nenhuma.”

::Rachadinha e Rachadões::

Professor adjunto da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Instituto de História da UFF e pesquisador da História do Desporto, Renato Coutinho também separa a massa flamenguista, maior torcida do país, dos propósitos de Landim.

"A diretoria atual do Flamengo tem uma proximidade ideológica com o Bolsonaro, eu concordo. Mas o clube é composto por sócio-torcedor, por sócio-patrimoninal, por torcedores comuns e por torcedor organizado. Somente aí, nesse grupo de atores políticos, não encontramos homogeneidade”, explica Coutinho.

O pesquisador lembra que “assim como Bolsonaro veste a camisa do Flamengo, Freixo também” e que o clube, assim como outros, está sempre em disputa. Porém, Coutinho pondera que se o governo tem utilizado o Flamengo, o oposto também ocorre.

“Então, estamos falando da diretoria do Flamengo. Eu não tenho como garantir para você a composição ideológica do Flamengo. Mas, como você destacou, em todos os exemplos, é evidente que o Flamengo se aproximou do governo Bolsonaro”, argumenta Coutinho.

“Em relação às pautas que atual gestão defende, em relação à lei do mandante, a abertura do estádio, enfim, isso é interesse da atual direção do Flamengo. Me parece mais o Flamengo se valendo do prestígio da atual diretoria com o governo para construir sua agenda. Se isso é virtuoso, ou não, se isso é bom para o clube, é outra questão”, finaliza.

Flamengo, Bolsonaro e pandemia

Durante a pandemia, o Flamengo é o clube brasileiro que mais defende a abertura dos estádios aos torcedores. Medida controversa, em um país com quase 600 mil mortes por covid e com média de 600 óbitos por dia, em decorrência da doença. A medida tem apoio do presidente Bolsonaro.

“Temos que voltar a viver, pessoal. Sorrir, fazer piada, brincar. Voltar o público nos estádios de futebol o mais cedo possível, que seja uma quantidade menor, 20% ou 30%, da capacidade do estádio”, disse Bolsonaro em live, nas suas redes sociais, no dia 29 de janeiro deste ano.

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A Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou a pandemia do coronavírus no dia 11 de março de 2020. Três meses depois, o futebol estava suspenso no país. Inconformado com a medida, o Flamengo enfrentou o vírus e voltou aos treinos clandestinamente, escondido da prefeitura e do governo do Rio de Janeiro, que haviam proibido as atividades.

Edição: Leandro Melito e Lucas Pará