LITERATURA

Artigo | A invenção do “Bruxo do Cosme Velho”

Nos 113 anos de morte de Machado de Assis, jornalista descobre origem do apelido do escritor

No audio source provided.
Machado de Assis
Escritor, cuja morte completa 113 anos nesta quarta-feira (29), é conhecido como o “Bruxo do Cosme Velho” | Crédito: Reprodução

Na literatura brasileira, certos apelidos ficaram famosos: o “Príncipe dos Poetas” era Bilac; a “Hermética”, Clarice; o “Poeta Menor”, Bandeira; o “Poetinha”, Vinicius; e o “Boca do Inferno”, Gregório de Matos. Machado de Assis recebeu o mais célebre desses epítetos, o “Bruxo do Cosme Velho”, sendo Carlos Drummond de Andrade, o “Gauche”, apontado frequentemente como seu inventor. Trata-se, no entanto, de um equívoco que acabou se popularizando e até hoje é repetido.

“Devo reconhecer (…) que não me cabe a paternidade da apelação 'bruxo do Cosme Velho’, dada a Machado de Assis”, confessou o poeta mineiro na crônica de 11 de setembro de 1964, no Correio da Manhã. Era uma resposta à referência que, meses antes, o acadêmico Alceu Amoroso Lima lhe fizera no discurso de saudação a Gilberto Amado na Academia Brasileira de Letras:

“Mas de um despojamento diverso, igualmente, do empregado pelo ‘bruxo do Cosme Velho’, como o denominou Carlos Drummond de Andrade no seu poema imortal”. 

Leia mais: Artigo | Negro, pobre, gago, epilético: Machado de Assis teve quase tudo contra si

No entanto, antes de Drummond, o poeta gaúcho Augusto Meyer já havia usado o tal apelido, mas também não era o criador do epíteto. Ao ser consultado por Drummond, Meyer lhe contou que outro gaúcho, o crítico literário Moysés Vellinho, em “um momento de inspiração”, já o tinha registrado em um “antigo ensaio integrado em livro”. 

O  livro era Letras da província, lançado pela Livraria do Globo, de Porto Alegre, em 1944. Na p. 46, o crítico comenta (sobre o próprio Augusto Meyer, um “machadiano” ferrenho): 

“Convicções novas rondavam-lhe o espírito, impondo-lhe o dever de penitenciar-se de um pecado tão gave quanto fora grande a delícia que nele sentira – o pecado de haver mergulhado os sentidos e o pensamento nos perigosos filtros que o bruxo do Cosme Velho sabia propinar com arte sorrateira e amável.”


Crítico literário Moysés Vellinho, em “um momento de inspiração”, registrou apelido no livro "Letras da província", lançado em 1944 / Divulgação

Daí, pois, é justo que se reconheça: a Vellinho o que é de Vellinho. 

Leia também: Artigo | Centenário: A Morte Vertiginosa de João do Rio

Ainda assim, não se pode negar que o apelido só se popularizou com a publicação do poema de Drummond “A um bruxo com amor”, em 28 de setembro de 1958, no Correio da Manhã, e republicado depois, com alterações, no livro Poemas, de 1959. Curiosamente, no poema não aparece a expressão “bruxo do Cosme Velho”, apenas as palavras “bruxo” e “Cosme Velho” em versos separados.

Por fim, vale um reconhecimento: o primeiro a divulgar o apelido na imprensa foi o jornalista alagoano Valdemar Cavalcanti, em pelo menos três ocasiões, na coluna literária de O Jornal, nos últimos meses de 1958. A partir daí, o “Bruxo do Cosme Velho” passou a se confundir com o nome de Machado de Assis.

* C. S. Soares é escritor e jornalista

Editado por: Eduardo Miranda

|

Newsletter