Na mira do Senado

Por que o empresário bolsonarista Luciano Hang foi convocado para depor na CPI da Covid?

Investigações ligam o nome de Hang ao gabinete paralelo, à disseminação de notícias falsas e ao camarote da vacina

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

Ouça o áudio:

Luciano Hang, dono da rede de loja de departamento Havan, é apoiador de Bolsonaro e contrário a medidas de restrição de circulação, como o lockdown - Marcelo Camargo/Agência Brasil

O empresário bolsonarista Luciano Hang, dono das lojas Havan, fala hoje à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid. Mas quais são os motivos que o levaram a ficar na mira dos senadores?

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Promoção do tratamento precoce

As investigações acerca da operadora de saúde Prevent Senior levantaram indícios de que Luciano Hang levou a defesa do tratamento precoce muito a sério. Quando a sua mãe, Regina Hang, contraiu o novo coronavírus e depois veio a óbito, o empresário publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que nunca deu nenhum desses remédios para a mãe e se questionando: “será que se eu tivesse feito o tratamento preventivo, eu não teria salvado a minha mãe?".

Depois, a partir de um dossiê elaborado por 15 médicos que trabalharam na Prevent Senior entregue à CPI da Covid, descobriu-se que a declaração de óbito da mãe do bolsonarista foi fraudada. 

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Além de não constar covid-19 como a causa da morte, "o prontuário médico da sra. Regina Hang prova que ela utilizou o kit antes de ser internada e que repetiu o tratamento durante a internação, assim como registram que seu filho, Sr. Luciano Hang, tinha ciência dos fatos".

A mãe do bolsonarista, conforme consta no dossiê, foi internada em 31 de dezembro e morreu em 3 de fevereiro. Nesse período, Hang recebeu medicamentos do tratamento precoce, como hidroxicloroquina, azitromicina, colchicina e ivermectina.

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"Como outros tantos casos de óbitos na rede Prevent Senior decorrentes da covid-19 que não foram devidamente informadas às autoridades, a declaração de óbito da sra. Regina Hang foi fraudada ao omitir o real motivo do falecimento", diz o documento.

Gabinete paralelo e fake news 

Pela defesa do tratamento precoce e a proximidade com o governo federal, os senadores acreditam que Luciano Hang também faz parte do chamado gabinete paralelo. O grupo seria formado por figuras de fora do governo federal que aconselhariam o presidente acerca do uso de medicamentos comprovadamente ineficazes pela ciência contra a covid-19, como hidroxicloroquina e cloroquina.

Como o grupo também é investigado por disseminar notícias falsas, uma vez que faziam a defesa de medicamentos sem nenhuma eficácia comprovada, Hang também é investigado por ser um dos disseminadores. 

Segundo documentos da CPI, divulgados por uma reportagem da TV Globo, Luciano Hang financiou o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, que é investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por divulgação e realização de atos antidemocráticos e propagação de notícias falsas. Ainda segundo a comissão, a ponte entre ambos foi intermediada pelo filho do presidente Bolsonaro, Eduardo.

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Confira o diálogo entre Eduardo Bolsonaro e Allan dos Santos sobre Luciano Hang:

Allan: “Preciso que você me coloque em contato com o Luciano Hang”.

Eduardo: Envia o contato telefônico de Luciano Hang e pergunta: “Quer que eu fale algo a ele para te introduzir?”.

Allan: “É melhor”.

Eduardo: “Mandei mensagem para o Hang. Assim que ele me responder te passo”.

Eduardo: “Ele disse que você pode entrar em contato com ele. Falei que você é o nosso cara da imprensa para um projeto que desenvolvemos aqui nesta semana de aulas com o Olavo [de Carvalho]”.

Allan: “Sobre o Hang, quando ele voltar da Europa, falarei com ele”.

Eduardo: “Beleza. Falei no macro com o Hang”.

Depois de quatro meses da troca de mensagens, dos Santos confirmou a participação de Hang como um dos patrocinadores de um programa.

Camarote da vacina

Luciano Hang e Carlos Wizard, também suspeito de integrar o gabinete paralelo, deram força ao projeto de lei 948/2021, de autoria do deputado Hildo Rocha (MDB-MA), que prevê a aquisição de imunizantes contra a covid-19 pela iniciativa privada sem repasse ao Sistema Único de Saúde (SUS) e dispensava o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a importação privada. A proposta ainda está em tramitação na Câmara dos Deputados. 

Esses aspectos da proposta ganharam força após encontro dos empresários com o ministro da Economia, Paulo Guedes. Na ocasião, eles destacaram a intenção de garantir a imunização para os trabalhadores das empresas e seus familiares.

Os empresários também tiveram uma reunião informal com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para tratar da proposta de “furar a fila” do Plano Nacional de Imunização. O encontro ocorreu na mesma semana em que o próprio ministro reduziu pela metade a previsão de entrega dos imunizantes em abril.

Edição: Vivian Virissimo