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O dia em que as galinhas voaram

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A propósito, a palavra “antifa” aparece no Google beirando os 13 milhões de resultados. Pode não significar muito mas pode estar sinalizando o começo de algo importante - Luiza Castro/Sul21
Esperado, posto que “fascismo” é gênero e “bolsonarismo”, espécie

É bem provável que nunca antes neste país tenha se falado tanto em “fascismo”. No Google, a palavra abre com 12,6 milhões de resultados. Ganha de “fascista” que surge com 11,9 milhões. Mas ambos goleiam “bolsonarismo” (2,3 milhões) e “bolsonarista” (1,8 milhão). Esperado, posto que “fascismo” é gênero e “bolsonarismo”, espécie.

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Desde 2018, o termo invadiu as conversas por obra da campanha eleitoral e da condução de Jair Bolsonaro ao Planalto. Com caras novas e ideias antigas, o fascismo do século 21 também é associado a personagens como Donald Trump (EUA), Viktor Orbán (Hungria), Andrzej Duda (Polônia) e Matteo Salvini (Itália).

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Talvez a expressão só tenha sido tão ouvida nos anos 1930, quando os dois maiores fascismos, o italiano e o alemão, convulsionavam a Europa. Fascistas também se impunham ou disputavam o poder na Espanha, Portugal, Hungria, Grécia, Romênia, Polônia, Lituânia e Iugoslávia.

No Brasil, o acirramento entre fascistas e antifascistas levou a um incidente dramático – mas com elementos burlescos -- que aniversaria agora. Nesta quinta-feira, dia 7, completam-se 87 anos daquilo que ficou conhecido como “Batalha da Praça da Sé” ou, com viés satírico, “Revoada dos Galinhas Verdes”.

Versão nativa do fascismo de Mussolini e do nazismo de Hitler, o integralismo de Plínio Salgado preparou naquele domingo, 7 de outubro de 1934, uma marcha apoteótica de suas milícias até a praça da Sé, centro de São Paulo.

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Replicando os camisas negras italianos e os camisas pardas nazistas, os camisas verdes de Salgado chegaram aos milhares, alguns deles armados, gritando sua saudação “Anauê” e portando seu lema “Deus, Pátria e Família”. Vinham exibir a potência da Ação Integralista Brasileira (AIB) e do seu contingente de um milhão de adeptos no país.

No seu caminho, porém, estava a Frente Única Antifascista (FUA), uma miscelânea de socialistas, anarquistas, comunistas e sindicalistas que resolveu barrar o que julgava ser um ensaio para o assalto ao poder.

Prevendo a lambança, um terceiro componente, a polícia militar com o reforço da guarda civil, também se instalou no palco dos acontecimentos.

Rapidamente, tudo se precipitou com os desaforos e as palavras de ordem sendo trocadas pelo confronto aberto, que logo substituiu os socos e pontapés pelo chumbo grosso.

A contenda acabou quando os integralistas – brindados com o apelido de “galinhas verdes” -- bateram em retirada. O que teria acontecido “na mais perfeita desordem”, como ironizou o esquerdista Jornal do Povo ao estampar sua manchete de capa “Um integralista não corre: voa...”

A balaceira deixou sete baixas fatais: três integralistas, dois policiais, um guarda civil e um comunista. E pelo menos 30 pessoas ficaram feridas. Nunca se comprovou quem atirou primeiro. Os inimigos se acusam mutuamente.

Hoje, além do evento histórico, é um episódio interessante para relembrar quando o bolsonarismo - interpretação apalhaçada do fascismo - e seus opositores antifascistas voltam a disputar as ruas. Sem armas, o que é melhor.

A propósito, a palavra “antifa” aparece no Google beirando os 13 milhões de resultados. Pode não significar muito mas pode estar sinalizando o começo de algo importante.

 

*Ayrton Centeno é jornalista, trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais "Os Vencedores" (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017). Leia outras colunas.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Vivian Virissimo