Descaso ambiental

Avanço da soja em MT prejudica acordo que combinou produção agrícola e conservação da Amazônia

Dados de satélite mostram que alguns agricultores têm desrespeitado a "Moratória da Soja", optando por desflorestar

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Área desmatada na Amazônia com plantação de soja bem consolidada; árvores e biodiversidades perdem espaço para a planície do monocultivo
Área desmatada na Amazônia com plantação de soja bem consolidada; árvores e biodiversidades perdem espaço para a planície do monocultivo - Foto: Juan Doblas

Conseguir combinar o desenvolvimento da produção agrícola com a conservação florestal é um dos principais desafios que o Brasil enfrenta hoje. 

Um dos mais citados exemplos de sucesso neste equilíbrio delicado é a chamada Moratória da Soja, um acordo entre produtores que visa impedir que o avanço da produção da commodity impacte no desmatamento da Floresta Amazônica.

Porém, novos estudos estão mostrando que, nos últimos anos, tem crescido o desmatamento de áreas de floresta com o objetivo de dar lugar a novas lavouras. Um desses novos estudos, publicado recentemente, reuniu pesquisadores da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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 Usando informações de duas das principais bases de dados para monitoramento da Amazônia e algoritmos que identificam áreas de cultivo da soja, pesquisadores apontaram um crescimento do plantio dessa cultura sobre áreas protegidas pela Moratória da Soja no estado de Mato Grosso. Em um desses levantamentos, o avanço sobre áreas da Floresta Amazônia chegou a 7,81% no período entre 2008 e 2019.

O trabalho acessou a série histórica de desmatamento do Prodes (Programa de Cálculo do Desflorestamento na Amazônia), disponibilizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e do ImazonGeo (Programa de Geoinformação sobre a Amazônia), desenvolvido pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), para identificar as áreas desmatadas.

A partir do cruzamento das informações de áreas desmatadas provenientes das duas ferramentas de monitoramento, os pesquisadores concluíram que, ao longo dos últimos 12 anos, uma área de 108.441 hectares de floresta desmatada foi usada para plantar soja. Isso equivale a 7,81% das áreas desmatadas da Amazônia no período, tomando-se por base os dados do sistema Prodes, ou 6,33%, utilizando-se os dados do ImazonGeo. Os resultados revelam o descumprimento do acordo estabelecido pela Moratória da Soja. 


Dados dos sistema PRODES e ImazonGeo, de monitoramento da Amazônia, mostram avanço da soja em novas áreas desflorestadas em Mato Grosso / Unesp

Dados indicam piora nos últimos anos

No início dos anos 2000, a cultura da soja era um dos motores do desmatamento da Amazônia. Para dar uma ideia, em 2004, observou-se a maior taxa de desmatamento registrada no século, com mais de 27 mil quilômetros quadrados de área de vegetação derrubada.

Diante da pressão de ambientalistas do Brasil e do exterior, foi estabelecido um acordo entre ONGs e representantes dos produtores de soja para que, pelos dois anos seguintes, os grandes compradores não adquirissem soja cultivada em áreas da Amazônia que tivessem sido desmatadas após 2006.

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Em 2008, o compromisso foi renovado, contando com a anuência do governo brasileiro. Até hoje, a Moratória da Soja, nome pelo qual o pacto ficou conhecido, segue apontada como um caso de sucesso no equilíbrio entre a conservação da floresta e a produção agrícola.

“Precisamos olhar esses números com preocupação porque indicam uma evolução muito grande em relação à área cultivada de soja nos últimos anos”, alerta o professor da Unemat Carlos Antonio da Silva Junior, líder do grupo Geotecnologia Aplicada em Agricultura e Floresta (Graaf), que se especializou em aplicar sensoriamento remoto ao monitoramento da produção de soja.

Atualmente, ele vem expandindo sua atuação para questões ambientais, tais como queimadas ou desmatamento. Silva Júnior é um dos autores da pequisa publicada na revista científica Scientific Reports.

Os números para os quais o docente da Unemat chama a atenção são especialmente relevantes se considerarmos que o Brasil é hoje o maior produtor e exportador de soja no mundo. Na última safra (2020/2021), segundo a Embrapa Soja, foram produzidas mais de 135 milhões de toneladas. Deste montante, quase 36 milhões de toneladas foram colhidas no Estado do Mato Grosso, o maior produtor do país.

O professor argumenta que o acompanhamento do local em que esse plantio é realizado é uma informação estratégica, em especial neste momento em que a comunidade internacional vem aumentando a pressão sobre produtos que colaboram para o desmatamento:

“Desde 2019, temos notado uma atenção especial sobre a cadeia sustentável dessas commodities. Então, passamos a monitorar de forma objetiva essas áreas e fica claro que não é a maioria dos agricultores que está errada. É uma minoria, às vezes em áreas grandes, mas que acaba contaminando o restante. E isso é algo que a gente mostra em nossos trabalhos”, afirma Carlos.

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No artigo, os autores concluem que sua pesquisa “sugere que a Moratória da Soja foi eficiente nos primeiros anos e continua sendo, apesar do aumento progressivo verificado neste estudo nas taxas de áreas que não a respeitam”.

Mas ponderam que ela corrobora outros estudos semelhantes, como um do INPE, que registrou uma elevação do desmatamento de 0,5 milhão ha em 2012 para 0,7 milhão em 2017. “O atual governo de Jair Bolsonaro também preocupa, pois suas ações para diminuir os recursos para fiscalização, agências e outras práticas permitiram mudanças no uso e na ocupação do solo na Amazônia.

Além disso, o governo tem apoiado o movimento dos agricultores que critica a Moratória da Soja, sob a justificativa de que o código florestal brasileiro é  um dos mais completos do planeta e, por isso, não precisam de ONGs fiscalizando a sustentabilidade da soja. As ações do governo do presidente Bolsonaro favorecem a expansão da agricultura na Amazônia”, afirmam. [Continua após o vídeo.]

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Assinatura espectral da soja

O grupo vem aprimorando a forma de identificar a cultura de soja a partir do que os pesquisadores chamam de assinatura espectral. De forma resumida, a ideia é que cada material na Terra absorve uma parte da energia emitida pelo Sol e “reflete” o restante em diferentes espectros de onda eletromagnética, uma informação que é capturada pelos satélites orbitais. A leitura dessa informação é feita por meio de algoritmos de acordo com o objeto que se quer observar, neste caso uma plantação de soja. 

“Esse algoritmo tem mais de mil linhas e foi desenvolvido por computação de nuvem. Ele é capaz de gerar um layout que aponta o que é a soja no mapa e anualmente nós lapidamos e verificamos esses dados a partir de diferentes recortes”, explica Fernando Rossi, doutorando da Unesp que colabora com o grupo e também assina o artigo. Os dados são disponibilizados publicamente em uma plataforma chamada SojaMaps.

Uma vez obtidos os dados, é necessário analisá-los. Essa tarefa contou com a colaboração do professor Paulo Eduardo Teodoro, docente do curso de Agronomia e de Engenharia Florestal na UFMS e professor permanente do Programa  de Pós-Graduação em Agronomia da Unesp, no câmpus de Ilha Solteira, onde leciona disciplinas na área de Estatística e Análise de Dados.

Parceiro do Graaf em diversas publicações, Teodoro explica que nesse artigo a principal ferramenta de análise estatística empregada foi a chamada análise de tendência. Ela é aplicada principalmente quando é necessário avaliar uma série temporal, que no caso dessa pesquisa, compreendia o período entre 2008 e 2019.

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Os testes aplicados por Teodoro apontaram uma tendência de acréscimo no desmatamento e plantio de soja na série temporal. “Também aplicamos outros testes que apontaram o ano de 2013 como o provável ponto de mudança da série temporal”, afirma.

Com a tecnologia de detecção de plantios de soja já consolidada e disponibilizando publicamente uma série de informações por meio da plataforma SojaMaps, o Graaf tem ampliado sua área de atuação. “Entramos em um patamar de dizer não apenas o que está sendo plantado, mas também como. Por exemplo, conseguimos diferenciar uma cultura tradicional de uma cultura transgênica”, explica Teodoro.

Além disso, o grupo vem desenvolvendo novos algoritmos capazes de detectar espécies nativas da Amazônia e quantificar, em uma certa área, o número de indivíduos de determinada árvore. “O mundo do sensoriamento remoto é muito rápido, assim como as suas tecnologias. Você precisa estar sempre em atualização e nós estamos conectados com essas atualizações e trazendo algumas dessas aplicações para a Unemat.”