Coluna

Ajude a salvar a Amazônia: conte a si mesmo uma mentira

Imagem de perfil do Colunistaesd
Fecho os olhos e me vejo em um mundo ambientalmente equilibrado, socialmente justo, economicamente igualitário. Um lugar onde eu possa fazer a diferença - AFP
A natureza se torna mercadoria. A ecologia se torna espetáculo

Dentre as muitas mentiras que conto a mim mesmo, está a inabalável certeza de que é possível “salvar a Amazônia”.

Continua após publicidade

Fecho os olhos e me vejo em um mundo ambientalmente equilibrado, socialmente justo, economicamente igualitário. Um lugar onde eu possa fazer a diferença.

Continua após publicidade

Para salvar a Amazônia, meu pequeno gesto se unirá a milhões de outros pequenos gestos ao redor do mundo. Uma grande união de esforços entre pessoas, empresas, governos e organizações da sociedade civil.

Continua após publicidade

Nessa jornada, juntos, vamos “enfrentar” as mudanças climáticas, “combater” o desmatamento, “proteger” nossos rios, “garantir” vida digna aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

Continua após publicidade

2022 e clima: “Não precisamos esperar o futuro, o clima já está mudando”, diz pesquisador

Para isso, temos que fazer a nossa parte. Cada um faz a sua parte.

E vamos perdendo as contas de quantos campos de futebol são desmatados por hora. Nos atrapalhamos na contagem de quantas vezes Portugal cabe nas áreas desmatadas. Ou seria a Itália?

Governos dos países ricos se escandalizam com os índices de desmatamento. Esquecem de mencionar que estão nesses mesmos países as sedes das empresas que financiam a estrutura de derrubada de florestas. Esquecem de nominar os donos do dinheiro. Os que bancam o desmatamento são os que bancam também as campanhas políticas.

:: Ativista Txai Suruí vira alvo de bolsonaristas após criticar política ambiental do governo ::

Da minha parte, também me escandalizo. Dentre as minhas atividades profissionais, está a de rastrear os donos do dinheiro que financiam crimes ambientais e violações de direitos humanos. Então, me escandalizo ao ver que o dono do dinheiro que banca o desmatamento é o mesmo que banca o político que faz a política pública.

O dono do dinheiro é o mesmo que banca as organizações que deveriam denunciar crimes ambientais praticados por este mesmo dono do dinheiro.

Então, tudo fica nebuloso. Deliberadamente nebuloso. A natureza se torna mercadoria. A ecologia se torna espetáculo. Tudo se torna autoengano.

O consumo, não importa as consequências, é nosso verdadeiro dever cívico. Nos dedicamos a ele em tempo integral. As alterações nos rumos da tragédia amazônica são meramente cosméticas.

Mas... o autoengano é uma delícia.

Matopiba: crescimento do agronegócio é um dos responsáveis por enchentes que assolam Nordeste

Eu mesmo faço questão de reciclar meu lixo e assinar todas as petições que chegam na minha caixa de e-mail, de modo a integrar a grande corrente global para salvar a Amazônia e fazer do mundo um lugar melhor e mais justo.

Só não desisto de integrar, assim como você, essa grande sociedade de consumo em que nos transformamos.

Minha ética é minimalista. Indolor. Quero salvar a Amazônia e, de preferência, o planeta todo, mas rejeito tudo o que prescreve renúncia ou ameaça de mudança das minhas crenças.

O consumo é meu sentido de vida. Consumo informações, mercadorias, imagens, signos, símbolos, corpos, discursos.

O shopping center – físico e das redes sociais - é meu templo. A mercadoria é o milagre que aplaca o meu vazio. Eu sou a mercadoria.

Sou o dono do dinheiro que banca o desmatamento. Sigo comprando, comprando, comprando... das empresas que bancam o desmatamento.

Meu conselho é o seguinte: mantenha o otimismo, faça a sua parte.

O seu pequeno gesto se integrará a outros pequenos gestos e vamos salvar o mundo.

Só não olhe pra cima.

*Marques Casara é jornalista especializado em investigação de cadeias produtivas. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Leia outras colunas.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Leandro Melito