DESTRUIÇÃO

Matopiba: crescimento do agronegócio é um dos responsáveis por enchentes que assolam Nordeste

Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia estampam noticiários do país devido aos desastres e ao aumento do desmatamento

Brasil de Fato | Imperatriz (MA) |

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Cidade de Mirador, no sertão maranhense, é surpreendida com enchente histórica - Nice Ribeiro / TV Mirante

A região do Matopiba, última fronteira agrícola do Brasil, que compreende os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, estampa atualmente os principais noticiários do pais com desastres naturais que incluem enchentes históricas, famílias desabrigadas e territórios em situações de calamidade pública. Para especialistas, não resta dúvida que os eventos têm relação estreita com o desmatamento na área, que bate recordes e altera o regime de chuvas em diversos municípios.

O professor do Departamento de Geociências do Curso de Geografia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Juarez Mota, aponta que a conversão de mata nativa em agropecuária é um dos principais fatores responsáveis pelas enchentes. 

“Na região do Matopiba a expansão do agronegócio é bastante significativa. É uma fronteira onde ocorre a supressão da vegetação primária para atividade agrícola, que pode ser principalmente a soja, carro chefe dessa expansão. Toda essa supressão da vegetação original causa alterações significativas na biodiversidade do lugar, principalmente do solo”, alerta Mota, que é doutor em Geografia Física pela Universidade de São Paulo (USP).

O Matopiba bateu recorde de concentração de desmatamento do Cerrado e, entre julho de 2020 e agosto de 2021, teve 8.523,44 km² desmatados, o equivalente a seis cidades de São Paulo, segundo análise é de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), feita a partir de dados do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

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Abertura de safra de soja em Balsas (MA), um dos maiores produtores do país, atingido pelas enchentes / Reprodução

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Como a vegetação cumpre papel fundamental para a retenção das águas das chuvas, o professor explica que a destruição da mata nativa ou sua substituição pode causar concentração de grandes volumes de água em pouco espaço de tempo, intensificando as enchentes.

Ele alerta que o último ano é considerado atípico, em razão do fenômeno La Nina, que naturalmente já aumenta a pluviosidade em todo o Norte e Nordeste brasileiro, mas a junção desse fator com as ações humanas foram decisivas para que ocorressem desastres naturais na região.

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“A conjugação desses fatos acabou por promover os desastres que temos acompanhado nos noticiários, em várias cidades do nordeste brasileiro, com enchentes. As cidades estão à margem de rios e esses rios estão sofrendo assoreamento, desmatamento e ocupação desordenada dos seus leitos. A maneira como estamos nos apropriando do espaço geográfico está trazendo consequências. Como não temos uma política de fiscalização dessas ações, as consequências estão se mostrando”, alerta.

Se, de um lado, pesquisadores alertam para a necessidade de políticas de gestão do uso da terra, de outro ocorre um desmonte estrutural de órgãos de fiscalização e institutos de pesquisa. Um exemplo é a interrupção do programa de monitoramento do desmatamento do Cerrado, realizado pelo Inpe, que deixará de divulgar dados sobre desmatamento no Cerrado a partir de abril.

Leia mais em: Cada vez mais devastado, Cerrado ficará sem dados de desmatamento a partir de abril

Quem vê na prática os efeito desse desmonte é o agricultor familiar e técnico agrícola José da Luz Costa Filho, conhecido como Zé Filho. Ele acompanha famílias afetadas pelas enchentes como agente da Cáritas Dioceana de Balsas (MA), município no topo da lista de desmatamento do Cerrado e um dos maiores produtores de soja do país. 

“A cidade de Mirador (MA), banhada pelo rio Itapecuru, esteve inundada entre o 31 de dezembro e os primeiros dias de janeiro de 2022. Várias famílias foram desabrigadas, chegando a um total de 140 famílias desabrigadas, 27 casas que desabaram e mais de 10 comunidades rurais isoladas e inundadas, situação essa que nunca tinha ocorrido”, lamenta.

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Produtor rural lamenta perda total de produção que serviria para consumo da família e venda local / Reprodução / TV Anhanguera TO

Zé Fiho, que também foi vítima das enchentes no Maranhão e perdeu parte da sua produção, destaca que o problema se repete sem a atenção necessária dos órgãos responsáveis.

“Quem são impactados por essas enchentes são os pequenos agricultores, os trabalhadores rurais, são os ribeirinhos, os extrativistas, as comunidades tradicionais e as famílias que moram às margens dos rios, no caso das cidades. São famílias humildes, são os pobres que são afetados. Quem implanta esse modelo de produção [do agronegócio] não é afetado, são só os pequenos”.


Reunião na Reserva Bacuri (MA), caso emblemático onde famílias são ameaçadas por fazendeiros / Diogo Cabral

O agricultor alerta que, além das enchentes, o modelo de produção adotado pelo agronegócio no Matopiba tem provocado tensão e conflitos violentos, em especial no estado do Maranhão, que registra inclusive assassinato de lideranças camponesas.

"Essas foram enxurradas que destruíram muitas casas, roças e sonhos, mas há também uma enxurrada que às vezes não é vista. É uma enxurrada de sangue que se instalou no Maranhão desde 2020 até os dias atuais, que é a ameaça de agricultores. É uma matança para dar lugar à soja, para dar lugar ao boi. Não podem dar lugar a esse grande modelo de desenvolvimento que exclui, que mata e destrói a vida”, denuncia Zé Filho.

O Maranhão se destaca como o estado com mais assassinatos em conflitos no campo em 2021, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Panorama registrado no livro: “Conflitos e Lutas dos Trabalhadores Rurais no Maranhão em 2020”, que contabiliza 79 situações de conflitos, abrangendo 165 comunidades em 33 municípios.

Leia mais em: Maranhão é o estado com mais assassinatos no campo em 2021, aponta relatório da CPT

Agente da CPT e uma das articuladoras da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, Valéria Santos relembra avaliações do Relatório Especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e alerta para o risco de naturalizar tragédias ambientais, como os incêndios e as enchentes ocorridas no país.

“O discurso de que isso é natural é para negar quem são os responsáveis. É importante a gente resgatar os dados do IPCC, que mostram que as mudanças climáticas tem relação direta com a ação humana, relacionada com o avanço do agronegócio no campo e nas fronteiras agrícolas, onde se concentra toda essa devastação ambiental.


Na Bahia, campos agrícolas de soja e gado avançam sobre mata nativa de Formosa do Rio Preto / AFP

Valéria reforça que a fronteira agrícola é ocupada por empreendimentos vindos de outras regiões, em busca de terras de valor mais baixo e mão de obra mais barata, para aumentar o lucro.

“A gente percebe essa relação quando começamos a mapear os desastres ambientais, como por exemplo os incêndios no período de estiagem, e agora a questão das enchentes se concentrando nessa região. Os efeitos são sofridos pelas populações mais pobres, porque o agronegócio que se concentra nessa região, não é dessa região. Quem produz soja e cria gado em grandes quantidades no Matopiba, não é da região”.

O que é o Matopiba

Constituída pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a região é considerada a última fronteira agrícola do país e a galinha dos ovos de ouro do agronegócio brasileiro, que avança velozmente na área com produção agropecuária em larga escala, em especial de monoculturas de soja e eucalipto.

Com um território calculado em cerca de 414.381km², a região abriga as últimas áreas de cerrado nativas, que ocupa 90% do território, com áreas de transição entre diferentes tipos de vegetação. Por essa riqueza, o Matopiba é o foco do capital financeiro e agroindustrial, para produção de commodities agrícolas e minerais para exportação.

A destruição ambiental e as violações dos direitos humanos na região estão diretamente relacionadas aos altos investimentos que envolvem não apenas agropecuários nacionais, mas também empresas dos Estados Unidos e países europeus. É o que denuncia o relatório Os Custos Ambientais e Humanos do Negócio de Terras: o caso Matopiba, publicado pela FIAN International, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Edição: Sarah Fernandes e Vivian Virissimo