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“Não haverá rendição nem de um lado, nem de outro”, afirma Celso Amorim sobre guerra na Ucrânia

O ex-chanceler e a professora Bárbara Motta analisam o conflito no Leste Europeu e o papel da China nos acordos de paz

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Para o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, “patrocínio internacional” é essencial para o fim da guerra – e China cumpre papel decisivo - Wilson Dias /Agência Brasil
"O que uma organização da Guerra Fria faz fora do contexto da Guerra Fria?”

Passado um mês do início do conflito entre Rússia e Ucrânia, as movimentações de lado a lado indicam que o fim da guerra não está tão próximo. As diversas rodadas de negociação não chegaram a um consenso, e civis ucranianos ainda tentam deixar áreas em conflito em direção a regiões mais seguras. O número de refugiados, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), é de quase 4 milhões de pessoas.
 
No rol de exigências do governo de Vladimir Putin, estão a desmilitarização da Ucrânia e pactos de que o país não irá se alinhar à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Isso tornaria o país neutro, assim como outros países fronteiriços com a Rússia, como a Finlândia e a Suécia, em relação à militarização provocada pelos EUA e seus aliados na região. 

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O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski, ressaltou, nesta segunda-feira (28), que o país está pronto para aceitar a neutralidade proposta pela Rússia. A professora Bárbara Motta, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), aponta que a “expansão da Otan não foi questionada por muitos países do sistema internacional”. 

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Segundo Motta, a possível entrada da Ucrânia na organização “foi adotada como um movimento corriqueiro, como um movimento comum e natural de institucionalização dessa organização. O que uma organização da Guerra Fria faz fora do contexto da Guerra Fria?”, questiona ao se referir ao fato de a Otan ter sido criada em 1949 com o objetivo de conter a expansão soviética pela Europa.
 
Para debater o conflito, o BdF Entrevista desta semana convidou a professora Bárbara Motta e o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. O ministro aponta que “a Otan virou uma aliança em busca de um inimigo e tinha que ser o inimigo credível, um inimigo crível”. 
 
“Não era um país pequeno qualquer, você não ia eleger, sei lá, a Macedônia do Norte. O inimigo era a Rússia. É a única coisa que justificava também – e acho que isso é uma coisa que não pode ser colocada de lado – que o complexo industrial militar de Eisenhower se desenvolvesse”, explica Amorim, em referência ao termo utilizado pelo ex-presidente dos EUA Dwight D. Eisenhower (1953-1961) para descrever o modelo bélico-militar do país.

:: Acompanhe a cobertura especial do Brasil de Fato sobre o conflito na Ucrânia ::

"Acordo de cavalheiros" jamais cumprido

A Otan foi criada em 1949, no pós-Segunda Guerra Mundial, pelos Estados Unidos, com o objetivo de demonstrar força contra um possível ataque da União Soviética. Um acordo, de boca, entre o secretário de defesa dos Estados Unidos, James Baker, e o presidente soviético, Mikhail Gorbachev, tentou delimitar a expansão da organização em direção a países do Leste Europeu.
 
O combinado, no entanto, nunca foi cumprido. “A gente chama isso, no Direito Internacional, de Gentlemen's Agreement. E por mais que não seja um acordo por escrito, é um acordo que tem um lastro do ponto de vista do Direito Internacional. Essas expansões cumulativas da Otan fez com que fosse construída na Rússia essa percepção de que houve um movimento de traição”, explica Motta.

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Fim da Guerra?

Mesmo com conversas em andamento para um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia, os principais atores políticos do planeta – na Europa e nos Estados Unidos – não sentaram à mesa de negociações para tentar mediar o conflito. Até o momento, as conversas aconteceram no território de Belarus, aliado a Putin, e na Turquia, país que, inclusive, já condenou a invasão russa.
 
Para o ministro Celso Amorim, o “patrocínio internacional” é fundamental para o fim da guerra. E, em sua opinião, o ator político que poderia desempenhar esse papel seria o presidente chinês, Xi Jinping. “A China não é pró-Rússia, mas ela não a abandonará”, considera. 

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“Apesar de dizer que ambos teriam uma amizade sem limites, na votação do Conselho de Segurança da ONU, a China se absteve. E por quê? A China não tem interesse na guerra, a China é um país que cresceu, e cresce, com base na estabilidade e na paz. Ela tem o interesse e, ao mesmo tempo, ela tem a confiança da Rússia”, afirma Amorim.
 
“A China é o principal parceiro da Rússia, é o principal parceiro da Ucrânia, compartilha com a Rússia as reticências que ambos têm em relação à consolidação da hegemonia norte-americana. E os dois países são fundamentais para a recente estratégia de desenvolvimento da China, que é o 'One Belt One Road', a 'Cinturão e Rota'", completa Motta. A professora explica, ainda, que a ausência de Putin nas rodadas de negociações é estratégica, “para que não haja um esvaziamento do status que se atribui a ele”. 
 
“A imagem que a gente tem do presidente Putin é da mais alta instância decisória da Rússia, inclusive até do ponto de vista organizacional da Rússia. Aquele que aparece para assinar o acordo, quando ele já está negociado. Aceitar essa proposta seria passar a imagem de que a Rússia estaria se curvando aos interesses ucranianos”. 
 
Amorim considera que “não haverá rendição nem de um lado, nem de outro”. “Não haverá, como alguns no Ocidente pensam, e como talvez o Zelenski pensa, uma derrota humilhante da Rússia, isso não vai ocorrer, porque, se ameaçar ocorrer, ela vai recorrer a outros meios”, complementa.

Edição: Rodrigo Durão Coelho