Estatal sob ataque

Governo quer criar CPI da Petrobras para justificar privatização

Investigação sobre empresa deve recomendar sua venda caso seja mesmo realizada pelo Congresso

Motoristas arcam com mais de 50% de alta nos combustíveis para garantir polpudos dividendos aos acionistas | Crédito: Agência Petrobras

O Congresso Nacional começou a coletar nesta terça-feira (21) as assinaturas necessárias para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a Petrobras. Anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) como uma tentativa de apurar a conduta da chefia da estatal frente aos altos preços dos combustíveis, a investigação deve servir como argumento para privatização da empresa, segundo deputados de oposição e até da base do governo.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do presidente da República, afirmou na segunda-feira (20) ser favorável à investigação sobre chefes da Petrobras indicados pelo seu próprio pai. Segundo ele, se isso realmente ocorrer, a CPI deve recomendar a venda do controle da estatal.

"Eu tenho certeza de que essa CPI muito provavelmente vai culminar pedindo a privatização da Petrobras. Não faz sentido manter uma estatal se ela não tem um olhar social para com a população brasileira", disse o deputado, de acordo com a Agência Câmara.

Por conta desse viés privatista, deputados de oposição têm sido contrários à criação da CPI. Nilto Tatto (PT-SP) disse que a comissão de inquérito não é oportuna e não pretende discutir as causas do preços dos combustíveis. Isso, segundo ele, já é sabido, inclusive: a política de preços da Petrobras, que atrela o valor da gasolina e diesel ao custo do petróleo no exterior.

Para Tatto, se quisesse, o governo poderia alterar tal política já que é sócio-controlador da Petrobras. Não o faz para manter o lucro de acionistas. Agora, ainda quer usar a CPI como justificativa para colocar a estatal definitivamente sob gestão de investidores, principalmente os estrangeiros.

"O que Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes [da Economia] querem com a CPI é criar uma narrativa para avançar na privatização da Petrobras. Eles não estão preocupados com os preços", afirmou Tatto ao Brasil de Fato.

O deputado petista disse que a CPI também tende a desviar o foco do debate político do país durante a campanha eleitoral. Para ele, o governo trabalha pela instalação da comissão para não precisar de posicionar sobre a fome e o desemprego que assolam o país.

O economista Eric Gil Dantas, do Observatório Social do Petróleo (OSP), também vê na CPI uma manobra diversionista e eleitoreira do governo. Dantas crê que, caso ela seja mesmo instalada, é grande a chance de acabar servindo como argumento para venda da Petrobras, algo que já é defendido abertamente por Guedes e seus subordinados no governo.

Ministro fala em venda 

O economista Adolfo Sachsida foi secretário de Guedes no Ministério da Economia. Em maio, assumiu o Ministério das Minas e Energia por indicação do antigo chefe. Assim que assumiu o posto, anunciou o início de estudos para privatizar a Petrobras. Esses estudos ainda estão em andamento.

Sachsida participou nesta terça-feira (21) de uma audiência pública na Câmara dos Deputados para falar sobre preços de combustíveis. Lá, ele afirmou que o governo não tem competência para intervir em preços da Petrobras, apesar de a empresa ser uma estatal com chefia indicada pela União. Segundo Sachsida, leis em vigor atualmente fazem com que a Petrobras tenha que agir como uma empresa de mercado, como se fosse privada.

O ministro, aliás, reforçou ser favorável à privatização da companhia. "A privatização tem efeitos maravilhosos sobre a competição se for bem desenhada", disse. "Um processo de privatização que traga competição ao setor, mais empresas, isso vai gerar um tremendo ganho de bem-estar aos consumidores e à sociedade. Acredito eu que esse é o caminho de longo prazo."

Durante a gestão de Bolsonaro, a Petrobras já vendeu "pedaços" da Petrobras sob justificativa de que isso reduziria preços – o que não aconteceu. A antiga Refinaria Landulpho Alves (Rlam), na Bahia, foi privatizada. A Acelen, empresa que comprou a planta, vende combustíveis mais caros que a própria estatal.

Lula promete 'abrasileirar' preços

Enquanto o presidente Bolsonaro trabalha pela privatização da Petrobras, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) refuta essa hipótese. A pré-candidatura dele à Presidência divulgou um documento no qual declara ser contrária à venda da estatal e de sua atual política de preços de combustíveis.

"O país precisa de uma transição para uma nova política de preços dos combustíveis e do gás, que considere os custos nacionais e que seja adequada à ampliação dos investimentos em refino e distribuição e à redução da carestia", diz o documento. "É preciso abrasileirar o preço dos combustíveis e aumentar a produção nacional de derivados."

Editado por: Felipe Mendes

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