Hipotermia

Homem em situação de rua morre na calçada de SP em uma das noites mais frias do ano

Prefeitura de São Paulo informou que deu a ele um cobertor; sensação térmica no sábado chegou a -1°C

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Abrigos da prefeitura de São Paulo só tem vagas para pouco mais da metade desta população. - Rovena Rosa/Agência Brasil

Aos 47 anos, Adriano Paulino – um homem em situação de rua – morreu durante a madrugada de inverno mais gelada deste ano na capital paulista. Seu corpo foi encontrado na manhã deste sábado (20) na frente de um supermercado na rua Carneiro da Cunha, no bairro da Saúde, zona sul da cidade. 

A prefeitura de São Paulo, sob gestão de Ricardo Nunes (MDB), informou que pouco depois da meia-noite deste sábado atendeu uma pessoa em situação de rua nesta mesma rua. “O homem não aceitou acolhimento e foi entregue a ele um cobertor”, diz a nota da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS).  

“Inacreditável a explicação burocrática da prefeitura”, lamenta nas redes sociais o Padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo. “Insensibilidade e necropolítica”, classificou.  

O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado na manhã do sábado, quando pessoas que passavam pela rua viram Adriano imóvel na calçada. Quando o socorro chegou, constatou que ele já estava sem vida. Seu corpo, no entanto, só foi retirado por volta das 15h. “Até na morte o povo de rua sofre descaso”, afirma Lancellotti. Ao que tudo indica, Adriano morreu por hipotermia. Seu caso foi encaminhado para o 16º Distrito Policial, na Vila Clementino. 

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O Instituto Nacional de Metereologia (Inmet) registrou que a temperatura mínima média em São Paulo na madrugada de sábado (20) foi de 8,6°C, tendo despencado para 6,4°C em regiões como Parelheiros, no extremo sul da cidade. A sensação térmica chegou a -1°C. 

Abrigos só dão conta de 62% da população vivendo na rua 

A prefeitura de São Paulo anunciou que, por meio da Operação Baixas Temperaturas deste ano, ampliou suas vagas em abrigos. Aos 18 mil lugares existentes em equipamentos como Centros de Acolhida, Centros Esportivos e Núcleos de Convivência, se somam outros 2.044. 

Acontece que a conta não fecha. Segundo os cálculos da própria gestão municipal – por meio de um censo divulgado no início deste ano - são 31.884 pessoas as que estão vivendo nas calçadas de São Paulo. O aumento foi de 31% em dois anos. A pesquisa registrou ainda que, de 2019 para cá, o número de barracas na cidade aumentou 330%.   

Segundo, portanto, os dados oficiais, se a população em situação de rua da capital paulista tentasse se proteger do frio e do risco de morte por hipotermia em abrigos da prefeitura, 11.840 ficariam do lado de fora. As vagas oferecidas pela prefeitura dão conta de 62,86% das pessoas que o próprio órgão calcula ter de atender. 

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Para grupos que atuam com essa população há décadas, no entanto, o cenário é ainda pior. Entidades como a Pastoral do Povo de Rua e o Movimento Nacional da População em Situação de Rua, contestam a metodologia do censo da prefeitura e afirmam que os números estão subnotificados. A Associação Rede Rua, por exemplo, estima que há ao menos 40 mil pessoas vivendo nas ruas da capital paulista.  

“Aporofobia em ação”, descreveu Júlio Lancellotti ao divulgar a morte de Paulino, cujos familiares o pároco está buscando. De origem grega, á-poros (pobres) e fobos (medo), o termo significa aversão aos pobres. 

 

Edição: Lucas Weber