MODO CAMPANHA

Comunicador, presidente da Petrobras aumenta anúncios de queda de combustível antes de eleição

Estatal passou a divulgar cortes em preços de derivados de petróleo quase toda semana nos meses antes do primeiro turno

Brasil de Fato | Curitiba (PR) |
Caio Andrade é formado em Comunicação Social e foi inidicado por Bolsonaro à presidência da Petrobras - divulgação

A Petrobras anunciou nesta segunda-feira (19) mais um corte no preço do diesel. A partir de terça-feira (20), o litro do combustível vendido às distribuidoras custará R$ 4,89, ou seja, 5,8% a menos do que hoje.

Essa é a terceira vez que a estatal reduz o preço do diesel produzido em suas refinarias desde que Caio Mário Paes de Andrade assumiu sua presidência, em 28 de junho. Antes disso, ainda neste ano, a Petrobras havia anunciado quatro altas do combustível.

Paes de Andrade foi indicado pelo governo de Jair Bolsonaro (PL) à chefia da Petrobras cerca de um mês antes de o presidente anunciar sua candidatura à reeleição. Na época, Bolsonaro sofria um desgaste político por conta da alta dos combustíveis causada pela equiparação dos preços da Petrobras aos do mercado internacional por meio do chamado Preço de Paridade de Importação (PPI).

Leia mais: Investidores ganham poder e passam a supervisionar preços dos combustíveis da Petrobras

Segundo economistas e petroleiros, o PPI foi o grande responsável pelo aumento dos combustíveis no Brasil. Paes de Andrade não tomou qualquer ação para encerrá-lo, seguindo os passos dos outros presidentes da Petrobras indicados por Bolsonaro.

Comunicador por formação, o que Paes de Andrade fez até aqui foi aumentar a frequência de anúncios de redução de combustíveis às vésperas da eleição presidencial. Em sua gestão, a Petrobras ainda não tomou medidas para que pudesse vender derivados de petróleo mais baratos no mercado nacional. Na verdade, a estatal aproveitou um alívio internacional do preço desses produtos para criar uma agenda de divulgação quase semanal de pequenas baixas em sua tabela de valores.

Além do diesel, a gasolina já caiu quatro vezes durante a gestão de Paes de Andrade. A maior queda foi de 7%, em setembro. Em março, a Petrobras chegou a anunciar um aumento de mais de 18% no combustível. No mesmo dia, aumentou em 25% o diesel.

:: Eleições de 2022 devem definir privatização ou preservação de estatais ::

Naquele momento, Bolsonaro criticava a estatal por repassar aos consumidores brasileiros a alta do petróleo causada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em fevereiro. Dizia também não ter poder de interferir nos preços da companhia, apesar de a União ser a sócia-controladora da empresa.

Agora, o discurso mudou. Em campanha para reeleição, o presidente e seus ministros divulgam as quedas como feitos de seu governo.

Virou meme

Em agosto, reportagem da Folha de S.Paulo já havia apontado que, sob gestão de Paes de Andrade, a Petrobras passou também a fazer comunicados sobre reduções de preços de asfalto e querosene de aviação. Antes, os valores eram corrigidos mensalmente.

No final daquele mês, aliás, a Petrobras chegou a fazer três comunicados de redução de preços durante o intervalo de cinco dias. O ministro das Minas e Energia, Adolfo Sachsida, que hoje também é cabo eleitoral de Bolsonaro, comemorou uma das baixas com postagem em redes sociais.

Também nas redes, opositores de Bolsonaro já notaram a ligação entre as baixas e os objetivos eleitorais do presidente. Criaram inclusive memes, que relacionam a liderança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em pesquisas de intenção de voto com os anúncios da Petrobras.

"A poucos dias das eleições, aumenta o desespero de Bolsonaro de ter que divulgar uma notícia eleitoreira a cada semana", afirmou Deyvid Bacelar, coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), sobre o anúncio de queda do preço do diesel.

Campeão em aumentos

Desconsiderando as quedas recentes, o governo Bolsonaro é campeão em aumentos da gasolina, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP). O preço do combustível acumulou em seu governo, até junho, uma alta semelhante à registrada durante os mais de 13 anos em que membros do Partido dos Trabalhadores (PT) presidiram o país.

De janeiro de 2019 – quando Bolsonaro assumiu à Presidência – a junho de 2022, a gasolina subiu 69% em postos de combustível, segundo dados da ANP tabulados pelo Observatório Social do Petróleo (OSP).

Leia mais: Em menos de quatro anos com Bolsonaro, combustível sobe quase o mesmo que em 13 de PT

Já de janeiro de 2003 – quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tomou posse – a maio de 2016 – mês em que a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) foi afastada –, o preço subiu 72%.

Em todo 2022, o diesel vendido pela Petrobras a distribuidoras acumula alta de 46%. Já a gasolina subiu mais de 6%.

Preços da Petrobras em 2022

Diesel

01/Jan - R$ 3,34
12/Jan - R$ 3,61 (aumento de 8,08%)
11/Mar - R$ 4,51 (aumento de 24,93%)
10/Mai - R$ 4,91 (aumento de 8,86%)
18/Jun - R$ 5,61 (aumento 14,25%)
05/Ago - R$ 5,41 (queda de 3,56%)
12/Ago - R$ 5,19 (queda de 4,06%)
20/Set - R$ 4,89 (queda de 5,80%)
Variação em 2022 - alta de 46%

Gasolina

01/Jan - R$ 3,09
12/Jan - R$ 3,25 (aumento de 5,17%)
11/Mar - R$ 3,86 (aumento de 18,76%)
18/Jun - R$ 4,06 (aumento de 5,18%)
20/Jul - R$ 3,86 (queda de 4,92%)
29/Jul - R$ 3,71 (queda de 3,88%)
16/Ago - R$ 3,53 (queda de 4,85%)
02/Set - R$ 3,28 (queda de 7.08%)
Variação em 2022 - alta de 6,14%

Edição: Nicolau Soares