Austeridade?

Reino Unido reverte corte de impostos para mais ricos, mas diminui subsídio à energia

Liz Truss troca de ministro das Finanças após tentar cortar impostos durante período de inflação alta

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A premiê Liz Truss - Daniel Leal / Pool / AFP

Os mercados financeiros reagiram positivamente nesta segunda-feira (17/10) após o novo ministro das Finanças do Reino Unido, Jeremy Hunt, reverter o polêmico pacote de medidas fiscais anunciado pela primeira-ministra britânica, Liz Truss.

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Hunt, nomeado para o cargo na última sexta-feira (14/10), disse que estava descartando "quase todas" as propostas de cortes, e afirmou que a "estabilidade" agora é o foco número 1 do governo.

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Desde que foi anunciado, há três semanas, o pacote de cortes provocou o caos nos mercados financeiros, causando uma corrida à libra e levando os fundos de pensão britânicos à beira da insolvência. A crise exigiu a intervenção do Banco da Inglaterra (o banco central do Reino Unido).

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Cortes de impostos com inflação alta

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"Foi um erro gritante de julgamento do governo britânico querer implementar tal política fiscal financiada em déficit num ambiente de alta inflação", disse David Kohl, economista-chefe do banco privado suíço Julius Baer, ​​em entrevista à DW.

Kohl disse que o Reino Unido estava sozinho na tentativa de cortar impostos tendo acabado de gastar dezenas de bilhões em subsídios com a pandemia e oferecendo bilhões a mais para compensar o aumento vertiginoso no custo de energia.

Antes do anúncio de Hunt, Truss já havia rejeitado a parte mais controversa da proposta – um plano para abolir a alíquota máxima de 45% para aqueles que ganham mais de 150 mil libras por ano – o que beneficiaria os mais ricos durante a pior crise do Reino Unido em décadas.

Além de eliminar outros cortes de impostos, incluindo uma economia de 1% para todos os contribuintes e prosseguir com um plano para aumentar o imposto corporativo para 25%, Hunt também restringiu o principal congelamento de preços de energia do governo. A medida que limita as contas de energia a uma média anual de 2.500 libras por família agora será válida até abril do ano que vem, e não mais até o final de 2024. A mudança custará ao contribuinte significativamente menos do que os 100 bilhões de libras esperados.

O mini-orçamento do Reino Unido foi descrito como o pior erro de política fiscal em décadas, forçando Truss a demitir seu ministro das Finanças, Kwasi Kwarteng, com apenas um mês no cargo. A perda de confiança dos investidores e da opinião pública provocou especulações de que a primeira-ministra, que assumiu o cargo no início de setembro, seria a próxima a sair.

"Praticamente tudo o que Truss fez nos últimos 42 dias foi revertido por Hunt em um longo final de semana", afirma Paul Dales, economista-chefe do centro de pesquisas econômicas Capital Economics, com sede em Londres.

De acordo com Dales, a decisão de Hunt reduziria o buraco fiscal de 72 bilhões para 40 bilhões de libras. E o alívio no mercado de títulos do governo britânico como resultado da reviravolta poderia reduzir os custos de empréstimos do governo entre 7 e 16 bilhões de libras.

Libra sobe, rendimentos de títulos caem

A moeda do Reino Unido subiu até 1,4% – uma recuperação de quase um décimo de seu valor desde que quase atingiu a paridade com o dólar após a divulgação do mini-orçamento. Os rendimentos nos títulos de 30 anos do Reino Unido despencaram para 4,37%, após ultrapassar 5% na semana passada.

Na avaliação da chefe de investimentos da Interactive Investor, Victoria Scholar, os mercados estão "respondendo positivamente" à decisão do novo ministro. Scholar acrescentou que o foco de Hunt em tranquilizar os mercados e restabelecer a confiança parece ter funcionado até agora.

Segundo Chris Beauchamp, analista-chefe do instituto de finanças IG, os investidores veem Hunt como um "porto seguro" e "por enquanto o mercado parece feliz em dar tempo e espaço para o novo ministro colocar a casa em ordem".

Outros analistas, no entanto, alertam que o alívio pode ser apenas temporário em meio a uma inflação bastante alta e uma recessão iminente. "A Trussenomics pode ter sido rasgada e jogada no triturador, mas o autor da grande aposta permanece no poder e tem a palavra final sobre o rumo da viagem", disse Susannah Streeter, analista de investimentos e mercados sênior da Hargreaves Lansdown.

"Os investidores desejam mais estabilidade, mas, dada a reviravolta que tivemos até agora neste curto mandato, a incerteza da política econômica permanece e esse provavelmente será o principal fator nos mercados de títulos e nas casas de câmbio", explica Streeter.

O diretor de investimentos da Abrdn, James Athey, contou que sua empresa ainda aposta contra a libra esterlina. "A libra ainda está em terreno muito instável dada a extensão do nosso déficit na balança corrente. Muitas das preocupações econômicas e políticas que tivemos um mês atrás, antes de tudo isso explodir, ainda permanecem."

O analista de consumo da Shore Capital, Clive Black, disse à Bloomberg News que a redução do limite de energia afetaria os rendimentos disponíveis, cortando os lucros da empresa em meio à queda do crescimento econômico. "Se os preços de energia permanecerem próximos de onde estão agora, espere uma carnificina nas finanças domésticas e empresariais a partir da primavera do ano que vem", acrescentou.

A austeridade 2.0 está nos planos?

Hunt ainda deve entregar até 31 de outubro um plano fiscal de médio prazo mais completo, com o qual muitos analistas dizem que provavelmente virá uma nova era de profunda austeridade. "Temo que haverá decisões mais difíceis, tanto em relação aos impostos quanto aos gastos, à medida que entregarmos nosso compromisso de diminuir a dívida no médio prazo", alertou Hunt.

Há especulações de que áreas críticas como defesa, saúde e educação enfrentarão cortes dolorosos.

O governo conservador do ex-primeiro-ministro David Cameron foi amplamente criticado por sua primeira rodada de medidas de austeridade após a crise financeira de 2008. Seu programa foi alvo de críticas por desfazer o progresso no combate à pobreza infantil, e um estudo de 2017 do British Medical Journal vinculou as medidas a 120 mil mortes.

O economista político e ativista judicial Richard Murphy escreveu no Twitter que a declaração de Hunt era "toda sobre transferir o custo da incerteza econômica do governo para as famílias do Reino Unido". "Hunt pode salvar as finanças do governo. O custo será a crise de dívida pessoal mais assombrosa, com milhões de vítimas. Insensibilidade em escala assombrosa", finalizou Murphy.