Em São Paulo

Agressão, prisão esdrúxula, advogado expulso de DP: ato denuncia delegado na Cracolândia

Neste domingo (6), manifestantes foram até o 77º Distrito Policial em SP contra abusos do delegado Severino Vasconcelos

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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O delegado Severino Vasconcelos, no momento em que abordou e, em seguida, deteve 21 pessoas por "perturbação do sossego" em setembro - João Leoci

A lista de denúncias sobre a atuação do delegado Severino Vasconcelos na área conhecida como Cracolândia, no centro de São Paulo, só cresce. Agressões, detenções arbitrárias, apreensão de cobertores de pessoas em situação de rua, retenção de objetos de trabalho, 'enquadros' obrigando pessoas a ficar deitadas no chão sob chuva e a expulsão, aos empurrões, de advogados e defensores de dentro da delegacia. Esses são alguns dos abusos atribuídos ao titular do 77º Distrito Policial (DP) por frequentadores da Cracolândia, trabalhadores e ativistas que, por isso, organizaram um protesto neste domingo (6).  

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Sob o mote "Basta de atrocidades – vidas na Craco importam", manifestantes se encontraram durante a tarde no viaduto conhecido como "Minhocão", fizeram uma roda de capoeira e caminharam em passeata até o 77º DP pela desoneração do delegado. Mais que isso, reivindicam o desmonte da política repressiva implementada pela "Operação Caronte" desde junho de 2021 e que, segundo os organizadores do ato, Vasconcelos apenas encarna de forma espetacularizada. 

"Inicialmente apresentada à sociedade como uma suposta ação de combate ao tráfico de drogas no centro de São Paulo, as ações escancaram o que realmente a Operação Caronte sempre foi", expõe Daniel Mello, membro do coletivo A Craco Resiste, que atua contra a violência policial na região desde 2012 e convocou o protesto. "É a perseguição às pessoas pobres do centro".


Sob o mote "Vidas na Craco importam", manifestantes fazem roda de capoeira antes de sair em passeata / A Craco Resiste

"Elas são arrastadas pelo braço - literalmente - para serem levadas para a delegacia, onde as opções são: 'ou você vai para uma cela, ou vai para uma clínica, ser preso num manicômio'", denuncia Mello.  

Perseguição à sociedade civil organizada   

Além disso, o protesto busca visibilizar a escalada da perseguição policial à sociedade civil organizada que atua na Cracolândia. No último 26 de outubro, o advogado Flávio Campos e uma defensora pública, que questionavam a prisão violenta de uma mulher que foi arrastada por Vasconcelos até a delegacia por possuir um cachimbo, foram expulsos do DP aos berros e empurrões.    

"Você é melhor do que nós, senhor?" A pergunta foi feita por um homem em situação de rua ao delegado Vasconcelos, que empreendia, com uma espingarda em punho, um enquadro coletivo no começo de setembro. Naquele dia, 21 pessoas foram detidas por "perturbação do sossego".  

Entre elas, estavam Flávio Falcone, palhaço e psiquiatra vinculado ao Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Unifesp, e o fotógrafo João Leoci, impedido de fazer o registro. Desde então, a polícia não devolveu uma bicicleta com autofalante, equipamento de trabalho das ações culturais feitas na região. 

:: Polícia prende ativistas, trabalhadores e usuários na Cracolândia por "perturbação do sossego" ::

"Xerife do centro"

"Com a anuência e sob as ordens do prefeito e do governador, o delegado do 77º DP se tornou o 'grande xerife do centro de São Paulo', que faz o que quer, arrasta as pessoas pelo braço, empurra e prende sob argumentos esdrúxulos", critica Daniel. 


Manifestação saiu do Minhocão e caminhou até a porta do 77º Distrito Policial / A Craco Resiste

O Brasil de Fato buscou contato com o delegado Severino Vasconcelos e o 77º DP, mas não teve resposta. Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informou que "a Corregedoria da Polícia Civil obtém o conhecimento dos fatos, que são apurados por meio de procedimentos para esclarecer os possíveis conflitos entre agentes e usuários de drogas na região central de São Paulo".  

Para Mello, é evidente que ações de repressão policial e internação compulsória não resolvem a situação de pessoas que vivem nas ruas ou que fazem uso abusivo de drogas. "A gente sabe que os problemas são solucionados com moradia, assistência social, saúde, redução de danos, renda mínima. São políticas que já foram aplicadas em vários lugares do mundo", defende.  

Edição: Thalita Pires