Urnas

Eleição nos EUA coloca em jogo futuro do governo Biden e direito ao aborto

Votação incide sobre disputa do Legislativo, definição de governadores e consulta sobre direitos reprodutivos

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Local de votação em Ohio, nos EUA - Drew Angerer / Getty Images via AFP

A população dos Estados Unidos decide nesta terça-feira (8) em suas eleições do meio de mandato a composição do Congresso e também é convocada a decidir em alguns estados sobre o direito ao aborto. A votação termina na noite desta terça e os primeiros resultados consolidados devem sair a partir das 21h. 

Todas as 435 cadeiras na Câmara dos Representantes, a Câmara baixa do Congresso dos EUA, estão em disputa. No Senado, um terço de sua composição está em jogo. Há, também, eleições para governador em 36 estados.

O professor Roberto Goulart Menezes, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), destaca que a disputa pelo Senado deve ser a mais intensa e que, apesar das pesquisas indicarem um favoritismo dos republicanos, o pleito está longe de estar decidido.

"A disputa mais acirrada se dá nas 35 vagas do Senado. E o objetivo de ambos os partidos é não perder nenhuma das atuais posições e, claro, tentar avançar nos redutos [eleitorais] do opositor. É importante destacar que [Joe] Biden foi muito atuante na pandemia tendo acelerado a vacinação nos EUA bem como aprovado projetos robustos como o de infraestrutura no valor de U$ 1,2 trilhão. E o desemprego está em queda. Então embora o cenário não seja favorável a gestão Biden, pode ser que o resultado não seja tão desastroso assim", diz o professor da UnB ao Brasil de Fato.

Além dos votos para escolher representantes, o aborto está nas urnas. Após a Suprema Corte dos EUA reverter um precedente legislativo (Roe X Wade) que garantia o direito à interrupção voluntária da gravidez e deixava essa decisão na mão de governos estaduais, eleitores de quatro estados decidirão sobre o tema.

California, Michigan e Vermont perguntam nas urnas se a população concorda com a manutenção do direito ao aborto, enquanto no Kentucky a pergunta é se os eleitores rejeitam o direito ao aborto. Em agosto, os eleitores do Kansas rejeitaram em votação uma emenda constitucional que retiraria o direito ao aborto da Constituição estadual.

"Se você se preocupa com o direito de escolha, então você tem que votar", disse o presidente Joe Biden em evento em outubro desse ano. "Se os republicanos conseguirem uma proibição nacional, não importa onde você mora nos Estados Unidos".

Biden e o Partido Democrata têm ressaltado o direito ao aborto na campanha eleitoral. O presidente dos EUA prometeu aprovar uma lei para garantir o direito à interrupção voluntária da gravidez se os democratas garantirem maioria no Congresso.

De acordo com o The New York Times, a maioria dos casos de aborto é proibido em pelo menos 14 estados dos EUA e a Casa Branca estima que cerca de 30 milhões de mulheres vivem em locais em que não podem interromper sua gravidez se assim desejarem.

O direito ao aborto, contudo, não é o assunto que mais preocupa os eleitores dos EUA. De acordo com pesquisa publicada pelo New York Times, o assunto que mais preocupa os eleitores é a economia (44%), enquanto o aborto é a principal preocupação de 5%.

Os Estados Unidos assistem a uma disparada da inflação, a mais alta em décadas, e um derrocada do poder de compra da população.

Menezes, da UnB, afirma que há uma disputa pelo controle do Partido Republicano desde a derrota de Donald Trump nas eleições de 2020 e o tamanho da extrema direita em seus quadros.

"Há uma ala que quer reposicionar as bandeiras do Partido no campo conservador e com isso tenta diminuir a influência da extrema direita e da direita radical. Nesses dois anos de Biden, alguns republicanos votaram com o governo e isso foi fundamental."

O pesquisador dá alguns exemplos da atual disputa entre os republicanos. "O senador Mitch McConnell está em disputa direta pelo controle do Partido. O candidato na Geórgia, Herschel Walker, está sendo questionado acerca do pagamento de um aborto há treze anos e, como esta é uma das bandeiras dos republicanos, abala sua chance de vencer por lá. Assim, os republicanos estão travando uma dura batalha para tentar conquistar a maioria no Senado e isso não está garantido. Caso McConnell consiga eleger os republicanos aliados seus então isso pode tirar prestígio de Trump no partido", avalia o pesquisador.

Edição: Arturo Hartmann