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Atuação política de Janja motiva ataques misóginos da imprensa

Casada com Lula desde maio deste ano, Janja teve importante atuação na campanha, e vem recebendo críticas por isso

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Janja está presente em momentos importantes da trajetória de Lula desde sua saída da prisão, em novembro de 2019 - Ricardo Stuckert

O nome da futura primeira-dama Rosângela Lula da Silva, mais conhecida pelo apelido Janja, tem sido assunto frequente nas redes sociais do país nos últimos quatro dias. O motivo é a série de ataques misóginos que, desde sábado (12), a socióloga vem recebendo de veículos empresariais de comunicação e de seus comentaristas.

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O primeiro ataque veio da jornalista Eliane Cantanhêde, comentarista política e colunista. Na sexta-feira (11), no programa Em Pauta, da GloboNews, Cantanhêde afirmou que existe um "incômodo" com a participação política de Janja. O comentário, no entanto, não informou quem estaria incomodado com a atuação da primeira-dama.

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"O presidente é o Lula. Tudo tem limite, tudo o que excede pode dar problema. E há um incômodo com o excesso de espaço que a Janja vem ocupando. Ontem (10), por exemplo, quando o Lula fez aquele discurso em que ele chorou quando falou da fome, (...) ela estava ali sentada. Mas ela não é presidente do PT, ela não é líder política, ela não é presidente de partido, enfim, por que ela estava ali? Qual é o papel da primeira-dama?", questionou a jornalista.

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Em seguida, ela enumerou as mulheres que estiveram nesse papel desde a ditadura militar, para concluir que Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) (1994 a 2002), foi a primeira-dama exemplar. "Acho que um bom exemplo de primeira-dama foi a Ruth Cardoso, que, como a Janja, tinha brilho próprio, era uma professora universitária, uma mulher super respeitada na área dela e cuidou da Comunidade Solidária. Mas ela não tinha protagonismo, ela não tinha voz nas decisões políticas. Se tinha, era a quatro chaves, dentro do quarto do casal", disse a comentarista.

Por fim, Cantanhêde fez um exercício de futurologia sobre a atuação de Janja no governo Lula. "Ou seja, já incomoda sim, porque ela vai começar a participar de reunião, já vai dar palpite e daqui a pouco ela vai dizer 'Ah, esse pode ser ministro, esse aqui não pode'. Isso dá confusão".

No mesmo programa, o jornalista André Trigueiro chegou a defender Janja dos comentários de Cantanhêde. "Acho importante demolir esse termo. (...) Eu acho que a gente tem que reinventar palavras e expectativas em relação ao papel da mulher do homem mais poderoso do Brasil. Já ficou muito claro que, nesse governo, não será propriamente alguém que vai cumprir o papel de dona de casa subserviente ao marido", disse.

Mas o estrago já estava feito. A repercussão nas redes sociais ao longo dos dias seguintes foi intensa. 

No domingo (13), Janja voltou a ser o centro das atenções. Ela concedeu uma entrevista exclusiva ao Fantástico, da TV Globo. Sua participação no programa teve um tom positivo, mas a misoginia voltou a aparecer na repercussão nas redes e no próprio grupo de comunicação carioca. Nesta terça-feira (15), o jornal O Globo publicou um editorial que, em linhas gerais, repete a opinião externada por Eliane Cantanhêde alguns dias antes. 

No texto Nova primeira-dama precisará achar papel compatível com sua experiência, o jornal afirma que, em comparação com Michelle Bolsonaro e os cônjuges de outros candidatos, o papel de Janja na campanha se sobressaiu. "[Ela] escalou quem entrava em reuniões ou voos com o marido, participou de encontros reservados e nunca deixou de dar sua opinião quando quis. Recentemente, ganhou espaço na transição, com a missão de organizar a festa da posse", diz o texto.

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A peça de opinião não considerou como importante ou decisiva a participação da primeira-dama Michelle Bolsonaro na campanha com o marido, apesar do papel importante que teve na tentativa de diminuir a rejeição de Bolsonaro entre o eleitorado feminino.

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O editorial continua: "Embora seja filiada ao PT desde 1983, não tem histórico de cargos eletivos nem de altos postos no partido. Seu currículo não parece justificar a influência que adquiriu na campanha", avalia. O texto, por fim, afirma que é desafiador encontrar um papel a cumprir como cônjuge de um mandatário, mas que "o mais importante é sempre lembrar quem foi eleito para tomar decisões".

Nesta segunda (14), mais manchetes com tom de fofoca voltaram a colocar Janja sob os holofotes. O assunto? O preço da camisa utilizada pela futura primeira-dama na entrevista ao Fantástico.

No entanto, o que os ataques ocultam é que Rosangela Lula da Silva é socióloga formada pela UFPR, com MBA em Gestão Social e Sustentabilidade e filiada ao Partido dos Trabalhadores desde aos anos 1980. A paranaense participou ativamente da Vigília Lula Livre, enquanto o recém-eleito presidente Lula estava preso em Curitiba, durante 580 dias.

Edição: Arturo Hartmann