Pandemia

Qual será o futuro da política de covid-zero na China?

Pequim sinaliza a possibilidade de flexibilização após reunião com funcionários da Comissão Nacional de Saúde

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
A China voltou a confinar cerca de 20 milhões de habitantes e realizar testagens massivas como parte da política "covid zero" - STR / AFP

Nesta semana, a vice-primeira-ministra e líder da política de covid-zero da China, Sun Chunlan, declarou que o país está enfrentando uma situação nova frente à covid-19, que requer a revisão das medidas de prevenção e controle da pandemia, ressaltando a importância da identificação das variantes do vírus, o avanço da vacinação e a experiência acumulada desde o começo da pandemia até então. No cerne da questão encontra-se a onda de protestos que tem se espalhado por todo o país, motivados pela falta de clareza das medidas adotadas para a prevenção e controle da pandemia. Mas Pequim tem realmente um novo plano?

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A política de covid-zero na China

As frustrações com a política de covid-zero começaram a surgir na medida em que o mundo começou a retomar a vida normal, com o início e avanço das campanhas de vacinação, a flexibilização das medidas de controle e de lockdown, a abertura das fronteiras nacionais, além da retomada do trabalho, da atividade industrial e do setor de serviços. 

Passaram-se quase três anos do início da pandemia, mas a China ainda segue uma política rígida de contenção da covid-19. Apesar de o número de casos ter reduzido drasticamente até o presente, a população do país ainda está sujeita a bloqueios repentinos e intenso controle. 

A política de covid-zero tem duas vertentes: prevenção e contenção. A prevenção se concentra na detecção precoce das contaminações por meio de testes regulares de PCR, que após os resultados são transferidos digitalmente para um aplicativo de celular que classifica o nível de risco da população em três cores para a contenção: i) verde, que significa resultado negativo e a não exposição pública recente em algum lugar onde tenha sido registrado algum caso positivo, como escritórios ou lojas; ii) amarelo, de risco médio, que justifica lockdowns mais amplos em lugares como prédios comerciais e bairros inteiros; iii) o vermelho, de maior risco, justifica o lockdown de cidades e províncias inteiras. 

A política de covid-zero garante agilidade e rapidez na prevenção, o que pode ser considerado um sucesso. Mas na mesma rapidez são acionadas as medidas de contenção, que colocam a sociedade chinesa em estado de permanente incerteza na vida cotidiana. 

Controle e vigilância da sociedade na China

O milagre que transformou a China nas últimas quatro décadas deveu-se em grande ao avanço do capitalismo e a flexibilização das leis trabalhistas no país, tendo como prioridade o crescimento econômico. Mas a ascensão de Xi Jinping em 2012 mudou isso. Xi tem como prioridade fortalecer a posição do partido e do regime, dentro de uma perspectiva de controle e vigilância. Exemplo disso foi a promoção de regulamentação mais rígida, desde 2020, em torno das empresas privadas do país, como o cancelamento da abertura ao mercado de capitais de ações (IPOs). Com o advento da pandemia, esse controle se intensificou também para a população.   
 
As declarações da vice-primeira-ministra, Sun Chunlan, emitem sinais de que o governo chinês pretende implementar mudanças na abordagem da covid-19. De notória atenção foi a falta da palavra “política de Covid Zero”, tanto na declaração de Sun, como em diversos veículos da mídia chinesa.

Isso significa que o país está atento às demandas da população insatisfeita com a falta de clareza da política de Covid 0. Ainda é cedo para falar do sucesso da política de Covid 0 ou se, de fato, as flexibilizações vão ocorrer, mas há algo simbólico nesses movimentos: Se a China pretende retomar o crescimento econômico, superar os reflexos negativos da pandemia, garantir a estabilidade e legitimidade do regime político do país, atender às demandas de seu povo faz sentido. 
 
Filipe Porto é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC e pós-graduado em Jornalismo Internacional pela FAAP. É pesquisador associado do Observatório de Política Externa Brasileira (OPEB/UFABC), do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (EGN/Marinha do Brasil), e do Grupo Economia do Mar (GEM/DGP/CNPq), com ênfase nas relações da China com o mundo. 

Edição: Flávia Chacon