opinião

No aniversário de Curitiba, campanha questiona a capital que não aparece nos cartões postais

Moradia é um dos principais desafios para famílias; ocupações são encobertas pelo mito da cidade modelo

Brasil de Fato | Curitiba (PR) |
A articulação Despejo Zero tem um desejo para o aniversário de Curitiba - Comunicação Despejo Zero

Nos cartões postais, Curitiba é conhecida como a cidade modelo, sustentável, capital europeia, mas não escapa de problemas sociais como qualquer outra. Famosa pelo planejamento urbano de vanguarda, a capital se esforça para esconder mais de 413 ocupações irregulares de moradia e mais de 84 mil pessoas vivendo em extrema pobreza - ou seja, com menos de R$ 89 por mês.

Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia (2020) e revelam a Curitiba fora do que é mostrado em publicidade. No aniversário de 330 anos da cidade, a campanha “Curitiba além do cartão postal” quer denunciar a invisibilidade das comunidades da periferia, dos problemas na saúde, saneamento básico, energia e alto preço da passagem de ônibus. A iniciativa vai mostrar as famílias que vivem encobertas por prédios e parques.

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Vila União, Ocupação Tiradentes, Dona Cida, Formosa, Primavera, Caximba, 29 de março, 1º de maio, Britanite, Moradias Iguaçu, Parolin, entre tantas outras ocupações de moradia, compõem a articulação Despejo Zero.

A campanha luta pela suspensão de qualquer atividade ou violação de direitos, sejam elas fruto da iniciativa privada ou pública, respaldada em decisão judicial ou administrativa, que tenha como finalidade desabrigar famílias e comunidades.

De acordo com a Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab), o déficit habitacional de Curitiba é de 50 mil moradias, e mais de 22 mil moradias em condições impróprias, sem saneamento básico e energia, em locais isolados sem acesso à cidade. Mesmo com todas essas dificuldades, nas ocupações de moradia, os moradores conseguem fazer melhorias nos locais - na maioria das vezes, espaços abandonados por anos e sem manutenção. São os próprios moradores que abrem ruas, fazem fossas sépticas, compram postes, fazem terraplenagem lutam para melhoria do bairro e cuidam dos territórios.

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Pelo direito à vida e moradia


A Curitiba que encobre sua realidade oculta atrás do planejamento urbano, dos parques e do mito da cidade modelo. / Gustavo Soares/MST

A articulação Despejo Zero tem um desejo para o aniversário de Curitiba: o fim dos despejos e regularização das moradias em Curitiba. Moradia é a principal porta de entrada para todas as políticas públicas. A população que vive em Curitiba merece acesso à cidade e ter seus direitos garantidos.

Em janeiro de 2023, a comunidade Povo Sem Medo, localizada no bairro Campo do Santana, região Sul de Curitiba, foi despejada e centenas de pessoas ficaram sem ter para onde ir.

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Crianças, idosos, homens e mulheres trabalhadores sofreram a brutalidade de um despejo, e a área voltou a ficar vazia, sem cumprir a função social da propriedade. Advogados, jornalistas e até mesmo moradores foram impedidos de entrar no local durante a ação. A comunidade existia desde 2021, formada por pessoas que não podiam mais pagar aluguéis caros, em tempos de crise econômica e aumento da fome - problemas que ainda assolam milhões de brasileiros e brasileiras.

A articulação Despejo Zero reúne movimentos sociais da cidade e do campo pela defesa da moradia, um direito que está na Constituição do Brasil, além de ser uma necessidade humana básica. Desde 2022, diversas marchas foram realizadas em Curitiba com trabalhadores(as) urbanos, povos indígenas e camponeses(as). Em 7 de Março, como atividade referente ao 8 de Março (Dia Internacional da Mulher), mais de 1500 mulheres marcharam na capital paranaense por Terra, Teto, Trabalho e Democracia Sem Anistia. As mulheres tiveram uma reunião com representantes do poder público e leram uma carta apresentando diversas pautas, como garantia da moradia, saneamento básico e educação, entre outros.

* As opiniões expressas nesse texto não representam necessariamente a posição do jornal Brasil de Fato.

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Fonte: BdF Paraná

Edição: Pedro Carrano