ABRIL DE LUTA

Acampamento Marielle Vive celebra cinco anos com luta por justiça e contra despejos

Área que já foi improdutiva hoje é lar de 400 famílias e referência em produção agroecológica

Brasil de Fato | Lábrea (AM) |

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Acampamento Marielle Vive: horta coletiva em formato de mandala produz alimentos para ações humanitárias - Julio Matos

Lideranças de movimentos populares, parlamentares, ativistas, artistas e educadores se reúnem nesta sexta-feira (14) no acampamento Marielle Vive, em Valinhos (SP), para celebrar cinco anos da ocupação da área.

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Maior acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no estado de São Paulo, a área que já foi improdutiva virou referência em produção de alimentos saudáveis, alfabetização, cultura e convivência para as famílias e o entorno.

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Tassi Barreto, da coordenação do MST e do acampamento Marielle Vive, explica que a data é também um momento de luta. Desde o fim da validade de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que proibia remoções forçadas, acampamentos rurais e urbanos em todo o país sofrem risco de despejo.

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"Já fomos vítimas de uma série de situações muito difíceis. Houve a dificuldade de as crianças terem acesso à escola, ao transporte escolar e à saúde pública. Ficamos mais de um ano no acampamento sem acesso à água potável, que é o mínimo necessário para qualquer pessoa sobreviver", relata Tassi Barreto. 

Durante uma manifestação pelo abastecimento de água em 2019, o pedreiro Luis Ferreira, morador do Marielle Vive, foi assassinado. Aos 72 anos, ele foi atropelado por uma caminhonete que invadiu o protesto. Em 2022, o acampamento foi alvo de três ataques a tiros

"O assassino do seu Luis estava empoderado pelo crescimento do neofascismo na sociedade brasileira. Além da luta por justiça pela Marielle Franco, pelo Anderson e pelos mártires do Massacre de Eldorado do Carajás, também lutamos por justiça por Luis", diz a coordenadora do acampamento. 

Propriedade não cumpria função social

A propriedade é reivindicada pela Fazenda Eldorado Empreendimentos Imobiliários. A área estava ociosa antes da ocupação pelo MST. O município de Valinhos (SP) fica perto de Campinas, a maior cidade do interior paulista, e é conhecido pelos condomínios de luxo.

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A fazenda estava ociosa e seria destinada à construção de um condomínio horizontal luxuoso. Segundo o MST, o projeto envolvia problemas ambientais e também de segregação espacial, com a substituição das áreas agrícolas pela privatização que beneficiaria a parcela mais rica da região. 

"A luta se iniciou com o enfrentamento direto à especulação imobiliária e improdutividade que reinava na fazenda, que não cumpria sua função social. Através da ocupação, a área passou a cumpri-la. Tornou-se um espaço de moradia, de vivência das crianças, da agroecologia e da produção de alimentos para consumo interno e destinados à venda e à doação", narra Tassi Barreto. 

O simbólico Marielle Vive

O acampamento Marielle Vive é carregado de elementos simbólicos. A Fazenda Eldorado começou a se transformar em acampamento sem-terra no dia 14 de abril de 2018, exatamente um mês após o assassinato da vereadora carioca.

Há cinco anos, a ocupação da fazenda improdutiva foi parte do período conhecido como Abril Vermelho, quando o MST rememora, anualmente, o Massacre de Eldorado do Carajás por meio da intensificação das lutas no campo. 

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A área antes esvaziada pela especulação imobiliária agora é lar de famílias que vieram das periferias de cidades ricas, mas com intensa segregação social: Valinhos, Vinhedo, Limeira, Campinas, Hortolândia, Sumaré e Americana. 

Assim como a vereadora carioca, centenas de acampadas do Marielle Vive são negras, mães e moradoras de favelas. São, como se autodenominam, as "Marielles" do acampamento. 

"A atividade dos cinco anos é para a gente festejar, celebrar a luta e lutar por justiça aos nossos mortos. Mas também denunciar o risco de despejo e fortalecer a nossa pauta, para que a gente conquiste o assentamento agroecológico Marielle Vive", projeta Tassi Barreto. 

Edição: Thalita Pires