Visita de Estado

Lula reaproxima Brasil da China e amplia cooperação ambiental

Marina Silva afirma que há um 'entendimento político e estratégico' nos dois governos sobre o meio ambiente

Pequim (China) |
Xi Jinping e Lula, na cerimônia de boas-vindas ao mandatário brasileiro na na praça fora do Portão Leste do Grande Salão do Povo - Ricardo Stuckert

Lula e Xi Jinping voltaram a se encontrar após 14 anos. Xi, à época vice-presidente da China, se reuniu duas vezes com Lula durante seu segundo mandato, em 2009.

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O mandatário brasileiro foi recebido no Grande Salão do Povo, em Pequim, sede da Assembleia Nacional chinesa, com uma cerimônia que incluiu 21 salvas de tiros de canhão, bandas militares, desfiles de tropas e a saudação de crianças, uma prática na recepção de chefes de Estado que não era realizada desde o início da pandemia.

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Após a cerimônia, os presidentes se reuniram por mais de uma hora. Nela, Xi afirmou que os países têm amplos interesses conjuntos e disse que Lula é um bom amigo de longa data da China. "Foi com sua intenção e apoio que as relações China-Brasil conseguiram dar um grande salto", complementou Xi.

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Tanto Lula, como os altos funcionários brasileiros que participaram da grande delegação que veio à China, enfatizaram que um dos principais objetivos da missão era o de restabelecer as relações entre os dois países. Uma das músicas tocadas na cerimônia foi “Um Novo Tempo” de Ivan Lins, música escolhida pelo governo brasileiro, cuja letra diz: "No novo tempo/Apesar dos castigos/Estamos crescidos/Estamos atentos/Estamos mais vivos".

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No mesmo tom, Xi disse na reunião com Lula que "a China está disposta a trabalhar junto com o Brasil para criar um novo futuro para as relações sino-brasileiras na nova era, para o maior benefício de ambos os povos, e desempenhar um papel positivo e importante para a paz, estabilidade, prosperidade e desenvolvimento regional e global".

O presidente chinês também falou sobre a disposição da China para conversar ativamente sobre "uma articulação estratégica entre a construção conjunta da Nova Rota da Seda e a reindustrialização’ do Brasil'.

Apesar de o Brasil não ter se somado ao megaprojeto de infraestrutura chinês, que completa uma década este ano, a declaração conjunta entre os países destacou que "Brasil e China manifestaram interesse em examinar sinergias entre as políticas de desenvolvimento e os programas de investimento do Brasil, inclusive nos esforços da integração sul-americana, e as políticas de desenvolvimento e as iniciativas internacionais da China, inclusive a Iniciativa do Cinturão e da Rota", como também é chamada a Nova Rota da Seda. 

Mais de 150 países já assinaram acordos de cooperação sob a iniciativa que tem investido trilhões de yuans em infraestrutura ao redor do mundo, e que segue a política de benefício mútuo e estratégias ganha-ganha defendida pela China.

Meio ambiente ganha relevância nas relações Brasil-China

Como parte da ampliação da Parceria Estratégica Global (ou Abragente), foi criada uma Subcomissão de Meio Ambiente e Mudança do Clima dentro da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN).


Xi Jinping e Marina Silva em Pequim / Ricardo Stuckert

"Em 2004, quando foi estabelecida a COSBAN [...] nós tínhamos 10 grupos tratando de diversos assuntos mas até então não havia um subcomitê específico sobre meio ambiente", explicou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.

"Houve um esforço e um entendimento político e estratégico, tanto do governo do presidente Lula, como do governo do presidente Xi Jinping que era necessário colocar a questão da mudança do clima, da proteção do meio ambiente, do desenvolvimento sustentável no mais alto nível das prioridades", disse Marina na coletiva realizada na embaixada brasileira em Pequim nesta sexta-feira (14).

Em outra declaração conjunta, Brasil e China voltaram a cobrar os países do Norte Global sobre sua responsabilidade com a crise climática: "continuamos muito preocupados com que o financiamento climático fornecido pelos países desenvolvidos mantenha-se aquém do compromisso de US$ 100 bilhões por ano, como tem acontecido todos os anos desde que a meta foi estabelecida em 2009, mesmo quando o montante real necessário ultrapassa de longe esse compromisso”. Na COP 27, em novembro do ano passado, tanto Lula como o Enviado Especial da China para as Mudanças Climáticas, Xie Zhenhua, haviam reclamado sobre o incumprimento do compromisso.

A China tem avançado a passos largos em energias renováveis, tanto em geração como em infraestrutura. Em 2021, a China passou a ser um dos 50 países no mundo que têm mais 10% da sua energia provenientes de fontes solar e eólica, segundo a organização Ember. O país também é responsável por mais de 80% dos principais estágios de fabricação de painéis solares, segundo a Agência Internacional de Energia.

Novos empréstimos

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, anunciou um acordo com o Banco de Desenvolvimento da China no valor de R$ 6,5 bilhões. A informação foi divulgada em coletiva de imprensa.

Mercadante afirmou que R$4 bilhões desse valor serão empréstimos de dez anos, "o que dá bastante tempo para o BNDES operar com esses recursos e repassar para investimentos em infraestrutura, transição ecológica, indústria, inovação, ciência e tecnologia". O restante serão empréstimos de 3 anos.

Durante o seminário promovido pela Apex como parte da agenda inicial da visita do presidente Lula, a diretora da área de mercado de capitais e finanças sustentáveis do BNDES, Natalia Dias, havia afirmado que o "hiato" no investimento em infraestrutura do Brasil é de cerca de 2% do PIB. Segundo Dias, o banco calcula que o Brasil precisa investir US$ 460 bilhões nos próximos dez anos para diminuir o hiato. 

Edição: Thales Schmidt