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Eleições EUA 2024: o complicado dilema de Ron DeSantis para vencer Trump entre os Republicanos

Atacando o ex-presidente, ele afasta uma base eleitoral importante; sem atacar, não se diferencia

Brasil de Fato | Nova York (EUA) |
A diferença entre Trump e DeSantis era de 2% no início do ano. Hoje, de acordo com a média das pesquisa, chega a 37%. - AFP

No ano que vem, os estadunidenses escolhem quem será o próximo presidente do país. Antes disso, porém, as prévias decidirão quem serão os candidatos dos dois grandes partidos. 

As prévias do Partido Republicano começam oficialmente em menos de seis meses. No dia 15 de janeiro de 2024, eleitores do estado de Iowa serão os primeiros a escolher quem querem representando o partido na eleição presidencial.

O nome escolhido deve disputar contra Joe Biden, que concorre à reeleição. Ron DeSantis, governador da Flórida, tenta se apresentar como uma alternativa ao ex-presidente Donald Trump, mas por enquanto sem muito sucesso.

De acordo com a média das pesquisas organizada pelo portal FiveThirtyEight, DeSantis tinha tinha uma diferença de 2 pontos percentuais a menos que Trump em 6 de janeiro. Hoje, a diferença é de 37 pontos percentuais. O ex-presidente é o grande favorito na disputa interna, mas o governador ainda não desistiu.

Os motivos para o aumento na diferença entre os dois principais candidatos são muitos. Para alguns analistas, os indiciamentos contra Trump favoreceram o ex-presidente, que afirma ser alvo de uma caça às bruxas. Para outros, a linha política de extrema direita de DeSantis o atrapalha.

Uma opinião, porém, é quase consenso: o governador da Flórida está em uma sinuca de bico, um dilema muito complicado nesta disputa. Joe Lowndes, cientista político da Universidade de Oregon, e especialista em direita e extrema direita, falou com o Brasil de Fato sobre o assunto.

"DeSantis está em uma situação na qual se ele criticasse Trump com base nos indiciamentos, ele teria uma base eleitoral mais ampla no futuro, na eleição nacional. Mas isso enfurece a base do Trump, ter o candidato deles criticado”, disse Lowndes, “então ele está preso. Ele não pode contra-atacar Trump, mas contra-atacá-lo é a única forma de se diferenciar”.

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DeSantis fez do governo uma campanha

Por mais que ainda faltem alguns meses para o início oficial das prévias, a campanha de Ron DeSantis já começou há muito tempo, ainda que de forma não oficial.

Ganhando com larga margem de vitória a reeleição de 2020, algo raro em um estado que até então era considerado muito dividido, o republicano fez da Flórida uma vitrine para os eleitores mais conservadores do partido.

“Tudo o que tem sido feito na Flórida, tem sido feito mirando no nacional, no sentido da eleição de 2024, sem dúvidas”, afirmou Lowndes, “DeSantis ganhou com uma grande margem na última eleição para o governo, e acho que o que eles pensaram foi, bem, esse é o único lugar do país onde essa política de guerra cultural realmente funcionou nas eleições de meio de mandato de 2020”.

O cientista político disse ainda que acha que “o que eles viram, sabendo disso, foi que se eles começassem a governar na Flórida da mesma forma com que a campanha tratou desses temas, então o próprio governo seria uma forma de campanha nacional”.

Desde então, DeSantis sancionou leis extremamente controversas. Uma delas proíbe qualquer discussão de temática LGBTQIA+ nas salas de aula. Outra legislação, apelidada de Lei Anti-Imigração, é a mais dura do país sobre o tema. O governo sofre hoje múltiplos processos que afirmam que a lei é inconstitucional.

Glória Souza de Oliveira, ativista do Defend Democracy in Brazil Flórida, moradora de Boca Raton, na região de Miami, falou sobre o impacto dessa lei na comunidade latina:

“O que a gente vê são casos de pessoas, na comunidade brasileira mesmo, o número de pessoas, de conhecidos, ou de conhecidos de conhecidos, que se mudaram da Flórida. Tentaram ou estão tentando sair daqui com medo das retaliações, dessas perseguições. Tem aumentado e aumentou muito. A gente realmente conhece muita gente que realmente quer sair da Flórida em função da lei anti-imigrante”, disse Glória.

Um tiro que saiu pela culatra

No último dia 19, oficiais do governo aprovaram o novo currículo a ser seguido pelas escolas da Flórida. Dentre os pontos mais polêmicos, um deles afirmava que as aulas de história afro-americanas deveriam ensinar às crianças que a escravidão também foi benéfica aos escravizados, uma vez que teria ensinado a eles habilidades importantes.

O intuito desses projetos é exatamente disputar o eleitorado mais conservador do partido republicano, que hoje apoia Trump. No entanto, a cientista política Candice Nelson, da American University, discorda da eficácia do método.

“Eu acho que isso vai ser negativo para o governador DeSantis”, disse Candice ao Brasil de Fato. “Eu não acho que vai ajudá-lo a longo prazo. E se ele acha que isso vai ajudá-lo com a base republicana, isso provavelmente também não vai acontecer. Porque a base republicana, ou pelo menos 30% ou 40% dela, é muito ligada a Donald Trump, e apoia ele independentemente do que esteja acontecendo”.

A mudança de currículo, de fato, não pegou bem. DeSantis chegou chamar a vice-presidente Kamala Harris, que criticou a proposta, de mentirosa. Mesmo republicanos, como o também candidato Tim Scott, se opuseram publicamente à mudança.

Essa não é a primeira vez que DeSantis se envolve em polêmicas envolvendo o racismo. Manifestações de grupos neonazistas com bandeiras de apoio ao governador se tornaram comuns na Flórida e, mais recentemente, um assessor de comunicação da campanha compartilhou um vídeo no qual uma imagem de DeSantis se sobrepunha ao Sol Negro nazista.

Joe Lowndes explica que essa ligação entre grupos de extrema direita e a campanha de DeSantis são mais profundos do que um mero apoio: “O que temos aqui, na verdade, não é simplesmente a campanha do DeSantis focando em questões de raça e sexualidade e esses grupos nazistas externos tentando se somar a isso. Existe essa faixa no meio, de voluntários, trabalhadores e até assessores próximos a DeSantis que, eu acho, se tornaram meio que um meio de troca entre essas ideias de extrema direita, fascistas, supremacistas brancos, e a própria campanha.”

O assessor que compartilhou o vídeo com a imagem nazista foi demitido, mas a campanha não afirmou o motivo. Ele saiu com uma leva de assessores que foram dispensados, em princípio para cortar gastos.

Glória, porém, a brasileira que vive no sul da Flórida, não tem dúvidas em como caracterizar o republicano:

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“Não é à toa que essa política machista, misógina, anti-imigrante, é o que rege, dá suporte à política e à ideologia neonazista. Então, ainda que o Ron DeSantis não se intitule um nazista, ele com certeza apoia e essa gente se sente super confortável com ele. É claro isso”.

Edição: Rodrigo Durão Coelho