Cultura

Venezuela: da salsa ao punk, vida noturna de Caracas se mostra efervescente e diversa

Após crise econômica e pandemia, capital venezuelana vive efervescência de espaços noturnos para todos os públicos

Caracas (Venezuela) |

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Vida noturna de Caracas ganhou novo fôlego nos últimos anos - Lucas Estanislau

A fama de uma cidade que dorme cedo ficou no passado, garantem os próprios caraquenhos. Do jazz ao tango, da salsa ao punk rock, a cada final de semana, a vida noturna de Caracas, capital da Venezuela, dá constantes mostras de que cultiva a diversidade e de que, apesar dos anos de crise econômica, ainda está viva.

Em diferentes pontos da cidade, bares, cafés e até lojas de discos recebem centenas de caraquenhos que querem ouvir música ao vivo, dançar, comer e beber. "Antes, Caracas era dos fantasmas a partir das 7h da noite", conta Adriana Laú. Poeta, cantora e atriz, ela dirige o Café Rajatabla, casa que tem 52 anos de história e se converteu em um dos lugares de referência para a contracultura da cidade.

"Com a crise e com a pandemia, as pessoas não queriam e não podiam sair. Hoje, o que temos, por um lado, é um monte de gente querendo empreender e realizar projetos e, por outro, um monte de gente querendo se encontrar, se divertir, se apaixonar, conhecer, provar, foi isso que mudou", diz.

Após entrar em recessão em 2014 e em um ciclo de hiperinflação que só terminou em 2022, a Venezuela atualmente passa por uma leve recuperação econômica, apesar de ainda sofrer com as sanções impostas pelos EUA. No ano passado, segundo o Banco Central, o país cresceu 17% entre janeiro e setembro e, de acordo com previsões da Cepal, deve crescer 5% em 2023.

"A vida noturna reflete esse movimento", afirma Adriana, ao contar que o Rajatabla ficou fechado entre 2010 e 2019. "Quando reabrimos, as noites sempre eram cheias porque as pessoas sentiram falta desse espaço e nem com a pandemia nós fechamos as portas de novo porque sabíamos da importância desse lugar", diz ao Brasil de Fato.

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Na última sexta-feira (25), o Rajatabla recebeu a primeira edição do festival "El Punk Venezolano Rompe el Silencio", noite dedicada à cena punk rock caraquenha. Sete bandas se apresentaram e arrastaram dezenas de fãs e entusiastas do movimento. "O punk não morreu e Caracas também não", disse o jovem estudante Fernando, que saiu de Caricuao, extremo oeste da cidade, para ver sua banda preferida, os Zikoticos Armados.

Com Hector Briceño, o HB, nos vocais, e Luiz Valência, o Nitro, na guitarra, os Zikoticos têm certa fama na cena punk da cidade e chegaram a abrir o show da lendária banda brasileira Ratos de Porão na última vez que eles tocaram em Caracas, em 2015.


Cena punk se reúne no café Rajatabla, no centro de Caracas / Lucas Estanislau

"O punk venezuelano é resistência, estamos unidos para manter a cena ativa e o Rajatabla é um dos espaços que temos para apresentar nosso movimento", diz HB. Nitro, o guitarrista, explica que os estilos musicais convivem na noite de Caracas e que apesar de estar ligado ao hardcore e ao punk, "os artistas que tocam na noite são como uma família".

E a salsa domina

Ainda que exista vida e movimento nos redutos de contracultura e música alternativa, a trilha sonora predominante da noite caraquenha em todas as regiões da cidade é a salsa. "Desde os bairros mais populares até os mais ricos, os caraquenhos gostam mesmo é de ouvir salsa", conta Cesar Núñez, que na última sexta-feira saiu pela primeira vez com a namorada Lidsay Segovia para dançar.

"É a nossa primeira vez dançando juntos e eu adorei", conta Lidsay. "Ainda estamos passando por momentos difíceis na economia, no dia a dia, mas a gente encontra uma maneira de se divertir um pouco e criar momentos para desfrutar", diz.

Para a estreia no salão de dança, Cesar e Lidsay escolheram a Patana Cultural, espaço que fica na região leste da cidade. Fundada em 1995 na cidade de Mérida pelo cantor e compositor venezuelano Victor Moreno, a casa se estabeleceu em Caracas em 2013 e busca ser uma vitrine para artistas do país.

"A essência da Patana é ser um espaço criador", afirma Tirwin Poz, gerente da sede na capital. "Aqui você encontra pessoas que vêm se divertir, mas também pode encontrar grupos que vêm fazer debates, pessoas que vêm ler um livro, pessoas que vêm se reunir para elaborar projetos, essa é a nossa ideia", diz.

Ao longo dos anos, a casa foi entendendo a demanda dos clientes e elaborando a agenda de apresentações de acordo com o gosto do público e com o objetivo da Patana de dar visibilidade a novos artistas e realizadores culturais. "Caracas é salsa, por isso que às sextas-feiras trazemos grupos 'salseros' para tocar, é a nossa principal atração", explica Tirwin.


Cesar e Lidsay saíram para dançar juntos pela 1ª vez na Patana Cultural / Lucas Estanislau

No entanto, há diversidade de estilos. As noites de quarta-feira são reservadas para o tango e, em parceria com um estúdio de dança, a casa oferece aulas para os frequentadores. Quinta-feira é dia de karaokê, um programa amado pela população da capital, enquanto os sábados são reservados para tributos a artistas já consagrados. Nas últimas semanas, o compositor cubano Silvio Rodríguez e a banda de rock argentina Soda Stereo foram os homenageados da vez.

"Demoramos algum tempo para chegar nessa programação diversa, estivemos em reformas por alguns meses no começo do ano e enfrentamos todo os tipos de dificuldades durante a crise e a pandemia, mas por essas razões que só existem na Venezuela e que ninguém sabe explicar, demos a volta por cima e as coisas parecem estar melhores na cidade toda", conta Tirwin.

Além de sentir os impactos gerais da situação econômica e das restrições impostas pela covid-19, a Patana Cultural passou por um dos períodos mais turbulentos da Venezuela de maneira muito particular. A casa fica a duas quadras da Praça Altamira, o epicentro das manifestações opositoras de 2017, conhecidas como "guarimbas".

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As marchas ficaram marcadas pelo alto nível de violência das práticas utilizadas pelos "guarimberos", como atear incêndios em prédios públicos, sedes de partidos de esquerda e até o assassinato de pessoas que se diziam chavistas (como o caso de Orlando Figuera, jovem de 22 anos que foi esfaqueado e teve seu corpo incendiado durante um ato opositor no leste de Caracas após ser acusado de apoiar o governo).

"Nós passamos dias assustadores aqui", conta Tirwin. "As pessoas voltando do trabalho vinham se refugiar dentro da Patana, porque apesar de todas as marchas, nós ficamos abertos porque entendíamos que era importante para nossos clientes e para o país", diz. 

Entretanto, apesar de ter uma identificação com pautas de esquerda, por sua tradição cultural e artística, a casa nunca foi alvo de ataques durante as marchas. "Aqui eu já vi atores de diversos campos políticos que vêm conhecer, vêm se divertir, vêm se reunir e isso é bom, somos um espaço democrático. Temos uma posição clara, mas respeitamos as outras", afirma o gerente.

O 'lado B' de Caracas

No centro da cidade, no bairro de San Bernardino, o projeto El Marchante, inaugurado em junho do ano passado, é o mais novo espaço noturno de Caracas, mas já começou a construir seu lugar entre os amantes da música. Em horário comercial, funciona como uma loja de discos com milhares de LP's à disposição dos clientes, com títulos que vão desde clássicos da salsa venezuelana até joias brasileiras como Baden Powel, Tim Maia e Tom Jobim.

Quando acaba o expediente, a festa começa “até que haja fôlego para dançar”, como disse um dos seguranças do evento que ocorreu no último sábado (25). Vladimir Quintero e sua Orquestra apresentaram uma fusão de música caribenha com jazz no espaço ao ar livre que fica nos fundos da loja para cerca de 80 pessoas reunidas.


Discos de vinil e música ao vivo fazem as noites do El Marchante / Lucas Estanislau

Enquanto dançam, comem e bebem, os frequentadores também podem seguir garimpando discos nas três grandes salas da casa, como fazia Vladimir Sosa Sarabia, cineasta e presidente da Cinemateca da Venezuela, que além de querer aumentar sua coleção de vinis, apreciava o show ao vivo.

"Eu sou dos que acreditam que, no Caribe, a festa é importante, não somente para espairecer e para se divertir. A noite caraquenha é um espaço onde projetos ganham vida, onde coisas acontecem, teatro, filmes, essas coisas se discutem nesses espaços", diz.

Edição: Thales Schmidt