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Por que o autoconsumo da produção agroecológica deve ser visto como geração de renda?

Com Comida de Verdade, famílias e comunidades superam desafios territoriais e garantem qualidade de vida

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Movimento populares, organizações sociais e centros de pesquisa defendem a agroecologia como um caminho para a segurança alimentar e nutricional - Foto: Divulgação/MST
Quando a gente produz, a gente sabe que está comendo e sabe da onde veio

Plantar, colher e compartilhar alimentos agroecológicos é uma forma de combater a fome e a insegurança alimentar. Além dos nutrientes, a comida de verdade produzida em sistemas agroflorestais garante relações justas e solidárias entre as pessoas e a preservação da natureza. 

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Por isso, além da comercialização, as famílias levam em conta o autoconsumo de uma produção diversa e saudável. Essa perspectiva supera o entendimento de "agricultura de subsistência", em que a ideia é "sobreviver" no campo. 

"É fundamental não só garantir o autoconsumo, mas garantir alimentos livres de agrotóxicos, com uma produção em base agroecológica, onde tem o respeito com a família que está produzindo, que seja valorizado o trabalho da mulher, que está ali no quintal e casa, que esteja valorizado o trabalho da juventude, que sempre se envolve nessa produção também", explica Risoneide Lima, coordenadora territorial da Diaconia.

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Essa valorização e reconhecimento do trabalho de toda a família parte de um planejamento que considera os gostos e as necessidades de cada pessoa. Assim, as famílias traçam uma organização em que nada se perde, com o excedente comercializado nas feiras agroecológicas.

Uma das formas de melhorar esse trabalho é feito com as atividades de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) que valorizam o saber das famílias. Neste sentido, por exemplo, a família do agricultor Francisco de Assis mudou radicalmente o cardápio do dia a dia a partir do acompanhamento da organização Diaconia. Ele troca conhecimentos para valorizar o autoconsumo da produção agroecológica desde 2002, principalmente com frutas e hortaliças livres de veneno. 

"De lá [de 2002] para cá eu não compro produtos em supermercados convencionais. Já tive problema na família por conta de veneno. Já perdi uma ente querida da família. Então a gente tenta passar para os vizinhos, aos nossos filhos, a importância de você trabalhar com produtos orgânicos e você zelar pela sua terra", conta o agricultor de Umarizal (RN), que mora com mais cinco pessoas. 

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O agricultor Francisco de Assis produz de forma agroecológica no oeste potiguar / Arquivo pessoal

Na comunidade 

Na perspectiva da agroecologia, as famílias resgatam o valor de uma produção que garante sabores e saberes de uma vida ancestral e camponesa Além do autoconsumo e comercialização em feiras, muitos alimentos são compartilhados na própria comunidade, favorecendo a diversidade alimentar no território. Um exemplo dessa consciência coletiva está no assentamento Dandara dos Palmares, no Baixo Sul da Bahia.

Até a década de 1990, o monocultivo de cacau no território resultou em baixa diversidade de alimentos e desnutrição das crianças. A luta pela terra no local está diretamente ligada a criação do Grupo de Mulheres Dandara, que através da agroecologia mudou o cenário das famílias. A diversidade da produção passou a ser distribuída coletivamente e a desnutrição infantil foi um dos desafios superados. 
 
Além do trabalho delas, toda a comunidade permanece garantido o autoconsumo saudável e solidário. A experiência foi registrada na série de vídeos “Territórios da Agroecologia”, realizada pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

"Tem uns produtos que a gente vai [produzir] em larga escala, que é mais para comercializar, mas a gente deixa a nossa parte da gente consumir. Tem produto que a gente não produz muito, que a gente só faz só para o consumo, para doação, para troca. Na grande maioria das vezes, o produto que a gente não vende, a gente não bota em conta. Precisamos valorizar esses produtos. Isso é renda", defende Maria Andrelice, uma das entrevistadas na série.

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Como renda

O autoconsumo da produção agroecológica propõe um olhar sobre uma renda que gera e preserva a vida, mas que muitas vezes passa despercebida. 

"Então colocar no orçamento familiar, no trabalho familiar, essa produção de alimentos do autoconsumo é extremamente importante, porque muitas vezes nos despertamos mais para a questão econômica do que para a questão da qualidade. Então como é que a gente vai equilibrando esse procedimento, esse planejamento, para que a família de fato consiga garantir seu alimento", afirma Risoneide.

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Além do autoconsumo, a agricultura familiar e agroecológica é essencial na alimentação do país. Ao invés do olhar exclusivo para superávit ou produção de commodities, as comunidades dão exemplo de sustentabilidade social, ambiental, econômica e cultural. Suas práticas e saberes naturalmente se chocam com outros modelos de produção, como o agronegócio. 

"Quando a gente produz, a gente sabe que está comendo e sabe da onde veio. Quando a gente vai no mercado a gente não sabe nem como aquele produto foi produzido", questiona Maria Andrelice.  

Confira a série Territórios da Agroecologia:


Edição: Vivian Virissimo