CRISE AMBIENTAL

Para Stedile, soluções para combater mudanças climáticas visam, de fato, salvar o capitalismo

Medidas de 'mitigação' vem ajudando empresas a manter a liquidez

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Seca histórica: El Niño, mudanças climáticas e queimadas criminosas levam território amazônico a desastre sem precedentes - ©Michael Dantas / AFP
O que está hoje estabelecido nas mudanças climáticas é a salvação do capitalismo

“Essas conferências internacionais não servem para nada”, afirma João Pedro Stedile. Ao podcast Três por Quatro, do Brasil de Fato, o economista e liderança do MST, aponta para a ineficácia dos esforços mundiais para conter as mudanças climáticas: “Só discurso e retórica”.

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Enquanto líderes internacionais debatem medidas para impedir o avanço do aquecimento global, vários países enfrentam diariamente as consequências de eventos climáticos extremos. “Não esperemos nada das conferências, das COPs, dos acordos, porque os governos não têm mais o poder real”, comenta Stedile. 

O convidado deste episódio do Três por Quatro, Diosmar Filho, geógrafo, pesquisador e coordenador científico da associação de pesquisa Yaleta, avalia que tudo passou a ser política do capital. “A gente já adotou, são ‘recursos’ naturais, já não são mais ‘bens’ naturais.”

Segundo ele, a chamada “mitigação” estabelecida pelas lideranças mundiais é o que conseguiu recuperar o capitalismo. “O que está hoje estabelecido nas mudanças climáticas é a salvação do capitalismo. Quem mais avançou foi a indústria automotiva, a indústria tecnológica que está explorando o minério no Brasil, na América Latina, e explorando o minério na África para produzir a nova tecnologia.”

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Na avaliação de Stedile, o agravamento dos eventos climáticos extremos é fruto da ofensiva que o grande capital internacional, em tempos de crise do capitalismo, está fazendo contra os bens da natureza.

A liderança do MST explica que ao se apropriar da natureza de forma privada, o capital gera desequilíbrios.

“Nunca antes nós tínhamos visto tantos empreendimentos na mineração, na destruição de florestas, na exportação de madeira, na difusão no garimpo ilegal, na agressão a população indígena e quilombola”, avalia. Ele completa: “Tudo isso tem por trás grandes empresas transnacionais, inclusive os bancos."

E Gaza?

Diosmar Filho classifica o papel dos países ricos para conter a emergência climática como “uma vergonha”. O geógrafo, inclusive, cita o impacto dos conflitos atuais no aquecimento global. “Eu quero saber quanto Israel emitiu de gases efeito estufa há 15 dias jogando bomba na Faixa de Gaza”.

“Porque como é que vai estar o compromisso de Israel na UNICC sobre as metas dele de reduzir gases e efeitos de estufa?”, indaga. A questão, segundo o especialista, “envolve também o governo americano, isso envolve o governo francês, isso envolve a União Europeia”.

Créditos de carbono

No podcast Três por Quatro, Stedile critica também a nova saída levantada pelo mercado internacional, o crédito de carbono, que “surgiu como uma forma de compensar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e mercantilizar o oxigênio produzido pelas florestas”, afirma.

Stedile explica: “eles transformam aquele oxigênio, medem por volume métrico, atribuem um valor a esse oxigênio, transformam num título como se fosse propriedade privada, registram em cartório e vão no mercado mundial vender esses títulos para as empresas poluidoras”. Dessa forma, segundo ele, “continua a poluição, gente ganhando dinheiro com as florestas e nada muda”.

No foco do noticiário internacional, a população brasileira também sofre com os eventos climáticos extremos. Entre as últimas notícias está a seca no Rio Negro, no Amazonas. Pela primeira vez, em 121 anos de medição, o nível das águas do rio chegaram à casa dos 12 metros.

Para o geógrafo Diosmar Filho, o governo federal precisa estudar práticas econômicas e sociais para lidar com essa realidade de cheias e de seca. “Como é que a gente faz agora estudos e ações para prevenção climática diante de um reconhecimento de emergência? Porque em menos de dois anos o Rio Negro estava cheio”, questiona.

O pesquisador e coordenador científico da associação de pesquisa Iyaleta lembra do empenho do país para monitorar os seus biomas naturais e, ainda assim, esses eventos extremos parecem acontecer inesperadamente.

“Parece surpresa essa seca, parece surpresa os alertas dizendo hora de evacuar. E aí, você deixa a população ser impactada por tufão, tempestade. Então assim, os dados são produzidos e esses dados precisam se tornar uma política pública de cuidados das populações”. 

Ao Três por Quatro, a liderança do MST ainda alerta: “A análise é de que estamos vendo uma crise ambiental profunda, grave e coloca em risco, não só a vida de seres vegetais e animais, mas que coloca em risco a vida do ser humano”.

Neste ponto de vista, Diosmar Filho afirma que é preciso abrir um debate para uma transição de política climática ambiental que abranja toda a população mundial.

“Os sindicatos internacionais estão lutando por esse processo. Agora que transição justa a gente vai fazer nesse mundo onde três quartos da população global está sem Direitos Humanos? Então, a transição justa não é mudar a parte de fábrica, a transição justa é o modelo que nós vamos criar”, avalia.

No início de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou a retomada do compromisso de reflorestar 12 milhões de hectares de vegetação nativa no país. Assim, o governo federal honraria o acordo assumido no Acordo de Paris, em 2015, mas nunca de fato implementado. 

Stédile declara que o Brasil precisa urgentemente reflorestar seus biomas, se não chegará ao ponto de não retorno. “Nós precisamos implementar um plano nacional de reflorestamento, que vale para a agricultura familiar e vale para o agronegócio”. 

O podcast Três por Quatro é apresentado por Nara Lacerda e Igor Carvalho, agora em temporada fixa no Brasil de Fato. Nesta nova fase, além dos comentários do João Pedro Stédile, liderança do MST, a equipe também conta com a presença do ex-presidente do PT, José Genoíno.

Novos episódios do Três por Quatro são lançados toda sexta-feira pela manhã, discutindo os principais acontecimentos e a conjuntura política do país. 

 

Edição: Rodrigo Durão Coelho