Eleições Argentina

A uma semana das eleições, Sergio Massa vence Milei no último debate presidencial da Argentina

Lutando contra o voto indeciso, Massa consegue expor as ideias mais polêmicas de Milei

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Debate presidencial - Telam

Neste domingo (12), foi realizado o terceiro e último debate presidencial da Argentina. Os dois candidatos mais votados nas eleições gerais, o candidato de extrema-direita Javier Milei (A Liberdade Avança) e o pró-governo Sergio Massa (União pela Pátria), debateram pela última vez antes da votação que, no próximo domingo, determinará quem ocupará a cadeira de Rivadavia.  

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O debate ocorreu em um clima marcado por fortes incertezas políticas. Na última semana, as diferentes pesquisas de opinião começaram a detectar um cenário de grande paridade. Algumas pesquisas até começaram a mostrar o candidato do A Liberdade Avança como o favorito na disputa. Uma importante recuperação depois que o partido governista liderado por Massa alcançou 37% dos votos, obtendo uma vitória surpreendente nas eleições gerais. 

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Esse é o caso da Proyección Consultora, uma das empresas de pesquisa que mais se aproximou do resultado no primeiro turno, que em seu último estudo publicado mostrou uma intenção de voto de 47,7% para Milei, pouco acima dos 45,9% projetados para o candidato do partido governista.

No entanto, a incerteza permanece no alto nível de votos indecisos. Os candidatos tentaram lidar com eles. Como em qualquer cenário de segundo turno eleitoral, o objetivo não é tanto convencer com propostas, mas persuadir que a força oponente representa a pior opção.  

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A transmissão do evento alcançou recordes de audiência. Por trás das telas, milhões de argentinos acompanharam o acalorado debate minuto a minuto. Os dados são importantes se levarmos em conta que os picos de audiência contrastam com os altos níveis de imagem negativa que ambos candidatos mantêm.

Economia 

O primeiro foco do debate foi a economia. Um terreno lamacento que representa o principal ponto de questionamento da administração do governo e que é particularmente espinhoso para Sergio Massa, que não é apenas um candidato, mas também o atual ministro da economia. 

Há mais de uma década, a Argentina vem passando por uma longa crise econômica. No primeiro semestre deste ano, a pobreza atingiu mais de 40% da população. De acordo com dados oficiais publicados nesta segunda-feira (13), a inflação do país disparou para 142% no último ano.

Uma nova coordenada política 

O "bloco de direitos humanos e coexistência democrática" era o ponto mais fraco de Milei. Uma oportunidade para Massa expor os vínculos do Liberdade Avança com setores que promovem a anistia aos genocidas da última ditadura civil-militar da Argentina. 

A Argentina é um dos países que mais avançou em direitos humanos ao julgar os responsáveis pela ditadura militar. Entretanto, Massa intencionalmente deixou passar a oportunidade, voltando o foco do debate para o sistema previdenciário. 

Ao contrário do Kirchnerismo, Massa nunca fez dos direitos humanos uma bandeira de luta.  

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Diante das acusações de Milei de que Massa está ligado ao kirchnerismo, o candidato da União pela Pátria resumiu sua estratégia política: "Isso não é entre [Mauricio] Macri ou Cristina [Kirchner], Javier; isso é entre você ou eu. Eles já tiveram sua chance, e os argentinos decidirão sobre isso".

Apesar de contar com uma vantagem inestimável devido ao próprio contexto, Milei não só não conseguiu tirar proveito da fraqueza do ministro-candidato, mas também foi cercado por Massa durante todo o debate.  

Valendo-se de suas habilidades como polemista, Massa surpreendentemente conseguiu colocar Milei nas cordas com uma bateria de perguntas. "Javier, sim ou não", disparou Massa incessantemente contra o candidato de extrema direita, encurralando-o em uma posição defensiva.

"Javier, sim ou não, quero lhe perguntar: no programa de Feinmann, você disse que removeria os subsídios. Você vai acabar com eles, sim ou não? Vai privatizar Vaca Muerta, como disse no programa de Chiche Gelblung, sim ou não? Vai dolarizar a economia, como disse na carta que apresentou aos tribunais? Vai privatizar rios e mares, como disse na carta que apresentou aos tribunais em seu programa de governo? Sim ou não? Vai eliminar o Banco Central (BCRA)?", disparou Massa. 

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As respostas de Milei foram deslocadas. Ele repetiu várias vezes que não iria responder sim ou não, como seu oponente exigiu. Entretanto, diante da insistência de Massa, ele expôs algumas das ideias mais polêmicas de seu programa, que tentava esconder. Foi assim que ele acabou aceitando que sua intenção é efetivamente dolarizar a economia e eliminar o Banco Central, entre outras coisas.

"Somos a fórmula para acabar com os problemas que afligem a Argentina hoje", defendeu-se o candidato de extrema direita, acrescentando em um momento de lucidez que "é impossível mudar a realidade fazendo as mesmas coisas, porque uma Argentina diferente é impossível com as mesmas pessoas de sempre".

Soberania 

Um dos momentos mais acalorados do debate aconteceu quando Sergió Massa relembrou que Milei havia dito que "as Malvinas tinham o direito de autodeterminação por parte dos Kelpers". Uma declaração que rompe com a reivindicação histórica da Argentina de soberania sobre o território das Ilhas Malvinas, ocupado pelos britânicos. 

Massa repreendeu Milei por sua admiração por Margaret Thatcher. Defendendo-se, o candidato do A Liberdade Avança disse: "Na história da humanidade, houve grandes líderes. A senhora Thatcher foi, assim como Reagan , assim como Churchill, assim como De Gaulle. Thatcher desempenhou um papel importante na queda do muro de Berlim, e você parece se ressentir do fato de que ele caiu e esmagou a esquerda".

Thatcher foi a primeira-ministra da Grã-Bretanha de 1979 a 1990. Apelidada de Dama de Ferro, ela foi uma das grandes líderes na construção do neoliberalismo internacional. Na Inglaterra, privatizou empresas públicas e entrou em conflito com os sindicatos, lutando contra os trabalhadores das minas.

Ela foi politicamente responsável pelo afundamento do cruzador argentino General Belgrano na Guerra das Malvinas (1982). O evento é lembrado pelo fato de que o General Belgrano estava fora da zona de guerra quando foi afundado, o que é considerado um crime de guerra. Nesse episódio, 323 tripulantes argentinos foram mortos. 

Diante da resposta de Milei, Massa redobrou a aposta. "Thatcher é uma inimiga da Argentina. Ontem, hoje e sempre. Nossos heróis não são absolutamente negociáveis, mesmo que Thatcher seja uma figura de destaque para vocês. Eu defendo a soberania das Malvinas e acho que seria importante que você dissesse se os Kelpers têm o direito à autodeterminação ou não", disse ele.

Em seu último minuto, Massa disse querer ser presidente "para superar" a crise porque "agora vem o crescimento". Mantendo uma clara distância da atual administração. 

Por sua vez, Milei tentou recapturar o espírito com o qual fez uma surpreendente aparição no cenário político argentino. Olhando para a câmera, ele disse: "Pergunto a vocês se querem continuar apoiando essa casta política corrupta, parasitária e corruptora. Pergunto se querem escolher entre o populismo que está nos afundando ou a república. É por isso que oferecemos a vocês o modelo de liberdade, que é aplicado nos países ricos".

 

Edição: Leandro Melito