Coluna

O que esperar do triunfo de Milei na Argentina

Imagem de perfil do Colunistaesd
Milei, que viajou para os Estados Unidos antes mesmo da posse, sempre deixou claro que blocos multilaterais como o Brics não são prioridade - Juan Mabromata/AFP - 29/11/2023
Presidente eleito já prometeu liberalização, privatizações e ataques a organizações populares

Por Emiliano López*

Continua após publicidade

Quarenta anos após a recuperação da democracia na Argentina, o longo processo eleitoral foi concluído em 19 de novembro com o triunfo da força de extrema direita La Libertad Avanza. Seu candidato, Javier Milei, tomará posse no dia 10 de dezembro como presidente da Argentina. A partir de uma retórica focada na violência, e com uma agenda que inclui a "motosserra" para ajustar gastos públicos, privatizações e retrocessos em termos de direitos humanos, no segundo turno obteve 55,7% dos votos válidos e superou por ampla margem Sergio Massa, candidato da coalizão governista União pela Pátria, que alcançou 44,3%.

A vitória de Milei explica-se fundamentalmente porque conseguiu, no segundo turno das eleições, conquistar a grande maioria dos eleitores que tinham optado pela coligação de direita Juntos pela Mudança no primeiro turno, que tinha como candidata Patricia Bullrich.

Nas últimas semanas de campanha, diversas lideranças desta aliança pediram para que não votassem em Javier Milei, e muitos representantes da sociedade civil (cultura, esporte, ciência e economia) apelaram ao apoio a Massa em defesa da democracia. No entanto, o eleitorado inclinou-se para o candidato de extrema direita, que tinha sido explicitamente apoiado pelo ex-presidente Mauricio Macri e pela ex-candidata Patricia Bullrich.

Como chegamos aqui

Existem diferentes explicações possíveis sobre por que um país com uma longa tradição de luta e de organização popular acaba por assimilar os discursos e posições de uma extrema direita exacerbada, de certa forma plebeia e com um elevado nível de incorreção política e violência simbólica.

Em primeiro lugar, há um processo que parece oculto, surdo à maioria das leituras progressistas e de esquerda: as sociedades ocidentais estão quebradas. Quebradas no sentido geral, que se organizavam em torno das metanarrativas clássicas do século XX: trabalho estável como organizador da vida, solidariedade de classe mediada por instituições da sociedade civil, reconhecimento do Estado como narrador da vida e dos projetos de nação. Qual é a profundidade desse processo de ruptura? Não podemos saber com certeza, mas a verdade é que a imposição de uma cultura neoliberal excessivamente individualista e, ao mesmo tempo, a incapacidade de projetos neoliberais e progressistas de responder às expectativas das novas gerações, são o terreno fértil para novas experiências de adesão política que permitem expressar raiva e frustração.

A esta tendência de longo prazo soma-se uma situação de vários anos de crise econômica que se arrasta desde meados do governo de Mauricio Macri e que, devido à pandemia, o governo da Frente de Todos não superou. A situação econômica de relativo empobrecimento das classes trabalhadoras, a inflação que atingiu 130% em 2023, constituem o aspecto central de uma crise econômica marcada pela incerteza e pela perda sistemática do poder de compra da classe trabalhadora. Depois do primeiro lugar alcançado por Milei nas primárias de agosto, Sergio Massa apelou a uma grande unidade nacional em defesa da democracia e promoveu uma série de medidas redistributivas a diferentes setores sociais, anunciadas como compensatórias à desvalorização forçada pelo FMI.

A reação às políticas públicas do governo de Alberto Fernández, junto ao discurso político da oposição, deixou o ministro da Economia novamente em um lugar de mero expectador. As medidas foram insuficientes e tardias, já que a insatisfação popular estava muito acumulada por conta do contexto econômico e social da Argentina. A raiva, a ruptura e a frustração pela qual o governo parecia ser o principal responsável pesaram mais do que qualquer outra consideração.

Em terceiro lugar, a capacidade de unidade alcançada pela direita e pela extrema direita não parecia representar um risco significativo para todas as forças progressistas e de esquerda. No entanto, poucas horas depois do resultado do primeiro turno, Patricia Bullrich reforçou seu apoio ao ultradireitista Javier Milei. Esta estratégia eleitoral baseada na polarização entre populismo/antipopulismo, liderada pelo ex-presidente Macri, conseguiu vencer o segundo turno. Contudo, este triunfo explica-se muito mais pela ruptura profunda das dinâmicas de representação da sociedade civil, do Estado ampliado ou da comunidade organizada do que por uma simples adesão anti-peronista.

Algo foi irremediavelmente quebrado na nossa sociedade e as eleições de 19 de novembro são um sintoma desta profunda fratura.

O que esperar

1. Ajuste na economia, crise na sociedade

Apesar de algumas intervenções de campanha destinadas a suavizar sua imagem, o presidente eleito deixou claras nas primeiras horas as linhas centrais da sua ação política: liberalização financeira, privatizações de empresas públicas (como ARSAT, Aerolíneas, TV pública, ENARSA e YPF), ataques às organizações populares, paralisação do investimento público e cortes em todos os orçamentos de órgãos públicos. Certamente, o programa governamental que é anunciado abertamente resultará em demissões e no aumento dos níveis de pobreza e violência social.

A primeira questão que circula no debate jornalístico e político é a respeito das possibilidades que Milei tem de concretizar suas propostas, considerando a fragilidade institucional de seu partido político, que existe há apenas dois anos e não possui governo ou prefeitura. Embora seja fato que contará com o apoio de governadores e deputados ligados a Mauricio Macri, mesmo assim é insuficiente e precisará construir pontes com outros setores, como alguns governadores peronistas e outros mais radicais, assustados com o corte nas verbas.

2. Retrocessos nos direitos humanos

Ao lado de Javier Milei, no dia 10 de dezembro também tomará posse a vice-presidenta Victoria Villarruel, filha de um militar que construiu sua carreira política justificando a ditadura argentina, minimizando o terrorismo de Estado e igualando-o às ações de grupos armados de esquerda durante a década de 1970.

Como se verifica facilmente nas redes sociais, grande parte de sua militância digital mais ativa professa discursos de ódio e celebram os crimes da ditadura. O feminismo e a agenda dos direitos das mulheres e da diversidade sexual são também objeto de ataques sistemáticos e constituem uma parte central da identidade política dos diferentes setores que integram a aliança de extrema direita, entre os quais se encontram grupos ligados às igrejas católicas, evangélicos neopentecostais, forças militares e de segurança, além de jovens de diversas correntes liberais.

No seu primeiro discurso público após conhecer o resultado, na mesma noite de domingo, 19 de novembro, o presidente eleito leu um texto em tom mais ameno do que em outros momentos, embora isso não o tenha impedido de fazer considerações radicais. Ele prometeu agir rapidamente com "mudanças drásticas". "Não há espaço para gradualismo. Não há espaço para meio termo. Não há espaço para meias medidas", assegurou. E ameaçou de forma pouco velada os setores que serão atacados: "Dentro da lei, tudo. Fora da lei, nada", alertou Milei, em clara referência às mobilizações de movimentos populares e sindicais. "Nesta Argentina não há lugar para quem pratica violência e para aqueles que usam a força para defender seus privilégios." Neste sentido, é fato que o novo governo promoverá uma legislação e uma ação policial mais repressiva, junto a tentativas de retroceder avanços, como a legalização do aborto. Fica a dúvida de até onde irá esta ofensiva contra os direitos civis.

3. Um governo alinhado "com o mundo livre"

Outro ponto central da nova governança argentina é seu alinhamento subordinado aos EUA, Grã-Bretanha e Israel.

Com uma narrativa que funciona como ponte entre a velha e a nova Guerra Fria, Milei se destacou na campanha ao declarar repetidamente que não manterá relações com o Brasil e a China, que são os principais parceiros comerciais do país. Ele também havia antecipado sua recusa de adesão ao BRICS+, que deveria entrar em vigor a partir de janeiro de 2024.

Após sua eleição, Milei reafirmou sua estratégia e anunciou que viajaria aos Estados Unidos e a Israel antes de sua posse, marcada para 10 de dezembro, "mais por uma questão espiritual", como afirmou. Dito e feito. O mais relevante é o fato de que seu governo trabalhará contra a integração regional. O âmbito da sua política externa é incerto, mas a princípio não há boas notícias sobre o impulso da Argentina para espaços estratégicos como o Mercosul, a Unasul ou a CELAC.

A partir de seus vínculos com diferentes formações de extrema-direita em todo o "mundo ocidental", espera receber o apoio do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e do ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, com quem já conversou amigavelmente num clima de alegria e apoio mútuo. O governo brasileiro já informou que Lula não participará de sua posse.

No meio do furacão

Embora o panorama seja preocupante e certamente perigoso, é preciso também notar que o resultado desta grande ofensiva de direita não está pré-definida, mas deverá enfrentar a realidade, que parece mais complexa. Entre essa nebulosidade está a própria base eleitoral que tornou possível a vitória de Milei, que buscará respostas materiais às suas demandas, o que suscita algumas dúvidas.

A partir de agora, o que acontecerá com metade da população que não tem outro direito senão morrer de fome? O que acontecerá diante de uma possível frustação coletiva das expectativas por conta de uma deterioração econômica ainda mais grave? Quais serão as táticas do novo governo para tentar impor seu programa com o menor custo político possível? Quais serão as estratégias e dinâmicas do amplo e diversificado movimento popular para tentar resistir, ou pelo menos, moderar os efeitos das políticas que virão? Que expressões, construções, representações políticas se revelarão mais adequadas nos próximos meses e anos?

O fato é que o futuro da Argentina está relacionado com um mundo dinâmico e extremamente complexo, numa interação que trará novos desafios não apenas para a Argentina.
Em um contexto em que começam a surgir diversas análises, notícias e informações no período que antecede a posse de 10 de dezembro, essas são algumas questões interessantes para se pensar.

* Emiliano López é co-coordenador do escritório da Argentina do Instituto Tricontinental. É integrante do Laboratório de Estudos Sociológicos e Econômicos do Trabalho (LESET) na Universidade Nacional de La Plata. É Economista, doutor em Ciências Sociais pela Universidade de La Plata (UNLP) e professor na Faculdade de Humanidades.
 

Edição: Thalita Pires