Criminalização

O que é a 'Craco Resiste', alvo de CPI em São Paulo que mira ONGs e padre Julio Lancellotti

Pela 2ª vez em ano eleitoral, vereador fundador do MBL ataca coletivo que combate violência policial na Cracolândia

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Criada no fim de 2016, a Craco Resiste não é ONG, não recebe financiamento, denuncia a violência de Estado e faz ações de cultura no fluxo - A Craco Resiste

Como de costume em ano de eleições municipais, a região conhecida como Cracolândia, em São Paulo (SP), volta com força ao debate público. Desta vez, por iniciativa do vereador Rubinho Nunes (União), que propôs a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar organizações não governamentais (ONGs) que atuam na região. O foco é, segundo declaração do próprio parlamentar, o padre Julio Lancellotti, o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto e o coletivo A Craco Resiste.  

Lancellotti, padre da paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, integra a Pastoral do Povo de Rua e é bastante conhecido por sua atuação em defesa da população em situação de rua. O Bom Parto é uma entidade católica sem fins lucrativos que, em parceria com a prefeitura de São Paulo, mantém 52 unidades de atendimento para diferentes fins, em especial serviços direcionados a crianças e adolescentes.  

Já a Craco Resiste, que não é ONG e nem CNPJ tem, reúne ativistas que atuam no combate à violência policial e em defesa de práticas de redução de danos para as pessoas que frequentam a Cracolândia. Não é a primeira vez que o coletivo é alvo de Rubinho Nunes em ano eleitoral.  

A chamada CPI das ONGs ganhou grande repercussão depois de o vereador dizer que, contra a “máfia da miséria”, colocaria padre Julio “no banco dos réus”. Manifestações em defesa do pároco pipocaram pelas redes, do presidente Lula (PT), passando pela ministra Simone Tebet, pelo cardeal arcebispo de São Paulo dom Odilo Scherer até artistas como Bruno Gagliasso e Daniela Mercury, bem como movimentos populares.  

Com a pressão, sete vereadores quiseram voltar atrás na assinatura do requerimento da CPI das ONGs, mas a proposta foi protocolada e precisa de 28 votos para ser instalada na Câmara Municipal de São Paulo.  

“Respeito os vereadores que decidiram retirar seus nomes de apoio à CPI, entendo a preocupação causada pela pressão da militância esquerdista nas redes”, afirmou o mandato de Nunes em nota. “Porém, ressalto, temos número suficiente de assinaturas”, complementa. Nas suas falas, o parlamentar passou a focar menos no pároco e mais no que ele chama de “ONGs”  – em especial, na Craco Resiste.  

O que é a Craco Resiste  

O coletivo surgiu no fim de 2016 quando, recém-eleito prefeito de São Paulo pelo PSDB, João Doria prometeu que acabaria com a Cracolândia. Meses depois, sua gestão emplacaria uma ação cinematográfica com 500 policiais, tiros e bombas e, depois, a desastrada demolição de um muro que feriu três pessoas. 

“O discurso era parecido com o de Gilberto Kassab [PSD] quando era prefeito em 2012, com a ‘Operação Dor e Sofrimento’. Foi uma operação de tortura em massa, não deixavam as pessoas dormir, comer. A gente tinha medo de que algo parecido acontecesse, o que infelizmente se concretizou, mas nos organizamos para estar presentes”, conta Daniel Mello, integrante da Craco Resiste e da Associação Birico. 

Tendo a denúncia da violência estatal como atuação principal, o coletivo também organiza ações de cultura, lazer e formação na região. Em 2023, o grupo realizou o “Seminário Cracolândia em Emergência: Caminhos e Ações”. Atualmente, faz exibições de filmes às quartas e atividades de futebol às quintas.  

“Sempre fizemos tudo sem financiamento  nem público, nem privado. O único financiamento que temos sai do bolso dos próprios militantes”, salienta Mello, que é também autor do livro Gargalhando vitória - poemas da Cracolândia (Editora Elefante).  

Em uma de suas ações mais emblemáticas, a Craco Resiste lançou em 2021 um dossiê com imagens de câmeras escondidas no fluxo, flagrando cenas de violência praticadas pela Guarda Civil Metropolitana (GCM). O material embasou uma Ação Civil Pública do Ministério Público Estadual contra a prefeitura de São Paulo por violação de direitos humanos.  

No ano anterior, em campanha como candidato a prefeito, Arthur do Val (União), mais conhecido como Mamãe Falei, fazia lives criticando a Craco Resiste. Um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), Rubinho Nunes também usou o tema para alavancar os votos conservadores que lhe elegeriam vereador, então pelo PSL.  

Foi nessa época que Nunes entrou com uma representação contra a Craco Resiste que, acatada, se tornou um inquérito que fez ativistas do grupo serem investigados pela Polícia Civil por seis meses. Em janeiro de 2022 a Justiça arquivou o inquérito depois de nenhuma ilegalidade ser encontrada.  

Agora, a dez meses de mais um pleito, o político traz o tema à tona novamente. “Nossa reação tem sido aproveitar que se joga a luz sobre a Cracolândia para fazer uma discussão qualificada, mostrar que a política repressiva que está sendo adotada desde 2017 não tem trazido nenhum resultado bom”, avalia Daniel Mello.  

“A repressão policial e a política de internações isso, sim, têm gastado dinheiro público. Vemos verba pública sendo transferida para comunidades terapêuticas com denúncias de tortura”, descreve Mello. Ele pontua ainda a carência de serviços públicos voltados à população da região: "os serviços públicos que têm lá são a GCM e a Polícia Civil", conclui.  

Edição: Geisa Marques