Análise

Nakba: 2024 é o ano da nova tragédia palestina?

O Brasil de Fato pediu a opinião de três especialistas o tema para entender o futuro do conflito árabe-israelense

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Mulheres e crianças são a grande maioria dos mortos por Israel no massacre de 2023/24 na Faixa de Gaza - Yasser Qudih/AFP

Nesta quarta-feira, 15 de maio, se completam 76 anos do evento chamado no mundo árabe de Nakba – ou tragédia – palestina, a criação de Israel em 1948. O evento expulsou por volta de 750 mil palestinos que moravam na região, dando início ao conflito árabe-israelense. 

Por décadas, a Nakba foi considerada o evento mais traumático e violento nessa longa história de disputa por espaço, metro por metro, da chamada "Terra Santa". Até o atual massacre na Faixa de Gaza iniciado em outubro. 

Para entender melhor suas ramificações, para além da frieza – ou horror – dos números do massacre, o Brasil de Fato ouviu as opiniões de três especialistas na questão. O historiador marroquino Mohammed Nadir, do Observatório de Política Externa da Universidade Federal do ABC (UFABC), o doutor em relações internacionais e pesquisador da questão palestina Arturo Hartmann e a jornalista palestino-brasileira, mestre e doutoranda em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP), Soraya Misleh.

BdF: 2024 será a nova Nakba palestina?

Mohammed Nadir: Este ano vai ficar na História como sendo uma nova catástrofe humanitária. Desde o genocídio de Ruanda (1994) não tínhamos tanta gente sendo morta, e isso diante dos olhos e do silêncio do Ocidente, que durante décadas usou a retórica da democracia e da defesa dos direitos humanos. Mas isso agora cai por terra. 

Depois da Segunda Guerra Mundial se acreditou em valores universais e que eles seriam respeitados, mas vemos eles sendo rasgados diariamente lá, pelo próprio Ocidente. E isso explica seu silêncio. Porque o Ocidente se expandiu, construiu sua riqueza e garantiu seu bem estar com base na exploração do outro. Existe um elemento racista de se considerar raça superior que cumpre um destino, uma missão civilizatória que se identifica com os brancos israelenses, mas não com os palestinos. 

Soraya Mesleh: Na verdade, é uma nova fase da catástrofe palestina, iniciada em 48. Nesta fase, Israel busca a solução final, o extermínio. E o país se sente avalizado por bilhões de dólares do imperialismo europeu e dos Estados Unidos. 

Por isso, assistimos a esse genocídio que entrou em seu sétimo mês, matou mais de 35 mil e vem deslocando milhões de pessoas para o Sul, fronteira do Egito, uma situação terrivelmente dramática na qual pessoas vêm morrendo de fome, sede e doenças infecciosas. Do outro lado, há limpeza étnica na Cisjordânia, com pogrons [linchamentos] feitos por colonos judeus contra palestinos, em terras palestinas, para expulsá-los. Há ainda uma solidariedade internacional gigantesca. 

Arturo Hartmann: Se definirmos a Nakba como a quase completa destruição da população entre dezembro de 1947 e julho de 1949, então a reposta é sim, com algumas diferenças. Com o fim do mandato britânico, houve uma guerra na Palestina. O lado sionista tinha o desejo, transformado em estratégia político-militar, de garantir um Estado exclusivamente judaico. Foram expulsos ¾ dos palestinos [750 mil]. Dos que permaneceram,  150 mil se tornaram árabes-israelenses, que receberam autorização para morar lá, ainda que submetidos a leis racistas. Cerca de 550 mil habitavam as regiões que vieram a ser Faixa de Gaza e Cisjordânia, que eram da Palestina e só foram conquistadas/expropriadas por Israel vinte anos depois, na Guerra de 1967

Podemos pular agora para 2023-2024. Quem hoje controla todo o território do que foi a Palestina histórica (Gaza, Israel e Cisjordânia) é de fato Israel. Focando em Gaza, a população é de cerca de 2,2 milhões de pessoas. Podemos olhar para algumas categorias da Nakba de 1947-1949 para fazer esses paralelos: conquista de território, destruição do tecido social (possibilidades de agir e produzir o espaço, plantar, se alimentar, educar os filhos, manifestar sua cultura) e expulsão de população.


Palestinos deslocados da área próxima ao hospital al-Shifa, chegam ao campo de refugiados de Nuseirat no centro de Gaza / AFP

Deve ocorrer um grande deslocamento e expulsão de palestinos após essa fase do massacre israelense?

Mohammed Nadir: Espero que não, mas temo que aconteça, que o governo de extrema direita de Netanyahu consiga vencer a resiliência palestina pelo cansaço. Os palestinos sabem que sair de Rafah e cruzar o deserto do Sinai significa o não retorno, é a garantia de que nunca mais verão a Palestina. 

Curioso que historicamente os judeus fugiram para o deserto do Sinai para escapar da ira do faraó egípcio e, hoje, são os palestinos que veem como alternativa o mesmo deserto para escapar da morte pelas mãos israelenses. Ainda assim, acredito que eles vão resistir, porque sair da terra é, para muitos palestinos, a morte. E se for para morrer, que seja na sua terra, não da dos outros. 

Soraya Mesleh: Esse é o objetivo de Israel e para que isso não aconteça é preciso aumentar o isolamento internacional israelense, a pressão e a solidariedade para com os palestinos. Já deixaram a Palestina aproximadamente 350 mil pessoas. Temos que interromper esse processo, estabelecer cessar-fogo imediato. 

A única forma de conter os planos israelenses é muita pressão do exterior: desinvestimento e romper relações militares e diplomáticas com esse país. 

Arturo Hartmann: Se vai ocorrer ou não, depende de uma correlação de fatores que via ter que ocorrer em sequência. Primeiro, Israel levar ou não adiante a operação com o objetivo de expulsar os palestinos. Para isso, em segundo, o Egito vai ter que estar disposto, mesmo a contragosto, de abrir suas fronteiras. Se não houver abertura da fronteira, o resultado é que os israelenses vão exterminar a população encurralada.

Isso tem que entrar no cálculo israelense: qual a consequência de outros países e populações, especialmente dos países árabes e nos EUA. A "vitória" militar na sua perspectiva, que seria apagar de vez a população palestina de refugiados em Gaza, poderia ser derrota política. Por fim, diante das notícias de um genocídio, haveria intervenção militar da comunidade internacional? O deslocamento depende dessas 3 dimensões.


Infância perdida: as crianças palestinas da Faixa de Gaza vêm enfrentando sofrimentos inimagináveis / AFP

Qual era o objetivo do Hamas ao realizar os ataques de 7 de outubro?

Mohammed Nadir: Recolocar a questão palestina no debate internacional, especialmente sob a luz do quase acordo entre Israel e Arábia Saudita [que poderia ter sido ser assinado ainda em 2023]. O que deveria ser uma oportunidade de ouro para Israel mostrar grandeza e chegar a um acordo com os palestinos, foi o oposto: humilhou os árabes e negou seu direito de existir, levando-os à insurgência. Os palestinos haviam entendido que não havia nada para eles a não ser expulsão e extermínio. 

Parte da elite política israelense fala que quer causar um sofrimento nos palestinos que será lembrado daqui a 100 anos. Para que as crianças contem a seus filhos. É um castigo sendo aplicado em uma magnitude nunca antes vista. A banalidade do mal.

Soraya Mesleh: O Hamas soltou, logo depois do ataque de outubro, um documento de 16 páginas explicando que via um processo de esquecimento da causa palestina com a normalização das relações entre Israel e países árabes. O objetivo da ação militar era atingir estações militares israelenses e trocar prisioneiros. Havia mais de cinco mil prisioneiros políticos palestinos submetidos a torturas sistemáticas, incluindo mulheres e crianças. 

Foi uma ação coordenada de resistência de um povo cada vez mais desesperado e submetido a um bloqueio criminoso de 17 anos. Em 2015, a ONU havia dito que Gaza se tornaria inabitável, as pessoas viviam com apenas 8 horas por dia de energia elétrica e a maior parte da água consumida era imprópria. Na Cisjordânia, antes de outubro, aldeias eram incendiadas, palestinos assassinados pela ocupação. Esse era o contexto de panela de pressão, sob omissão e cumplicidade do mundo. 

Arturo Hartmann: o Hamas tinha objetivos estratégicos em 3 dimensões: a local palestina, a regional, com apoiadores ou países árabes vizinhos, e no confronto com a estrutura colonial israelense. Na primeira, o Hamas havia se tornado uma força de governo em contradição com a sua característica de resistência. Ou seja, em alguma medida, ele estava preso a um papel de policiamento da população palestina e de opositores, quase um espelho do que a Autoridade Nacional Palestina havia se tornado na Cisjordânia.

A operação seria uma demonstração de que o Hamas ainda era uma força de resistência, uma tentativa de relegitimação interna a partir de uma visão própria. Na segunda dimensão, quis sabotar qualquer aproximação e normalização dos países árabes com Israel, o que seria um passo no enterramento da questão palestina. Ou seja, quis mandar um sinal de que os palestinos não aceitaram viver sob qualquer tipo de colonização.

No confronto com Israel, quis mandar um sinal de que Israel não deveria se sentir confortável diante do controle extremo que exercem sobre todo o território e população de Gaza, Israel e Cisjordânia.


Foto de outubro, dias depois do início do massacre atual de Israel em Gaza / wikiCommons

Qual o futuro do Hamas?

Mohammed Nadir:  O Hamas é mais que um grupo político, é uma ideia. Por mais que discordemos do 7 de outubro, temos que entender que foi um grito de socorro e o Hamas carrega um ideal de libertação. Até agora, Netanyahu não chegou perto de acabar com eles porque todos os palestinos comungam destes ideais. Se houver uma eleição, o Hamas ganharia com maioria absoluta. O atual massacre apenas estimula o ódio e o ressentimento. 

Soraya Mesleh: Até os Estados Unidos sabem que é impossível acabar com o Hamas. Isso sempre foi uma desculpa para Israel buscasse a solução final. Nunca foi contra o Hamas, sempre foi a continuação da Nakba.

Arturo Hartmann: o Hamas, junto com o Fatah [partido que governa a Cisjordânia]  é um dos maiores partidos/movimentos/grupos políticos da Palestina. A Irmandade Muçulmana (de onde surge o Hamas) manteve políticas de assistência desde os anos 1970, políticas que nem a força ocupante – Israel – nem o maior grupo de resistência – OLP/Fatah – queriam/conseguiam oferecer. 

O Hamas é uma forma de a Irmandade Muçulmana de Gaza se postar dentro do universo da resistência à colonização israelense (para além de políticas assistenciais). O futuro do grupo, numa primeira dimensão interna de sua manutenção em Gaza, vai se dar pelo que ele conseguir reconstruir de suas redes de assistência/administração da população no caso de Israel se retirar e não retomar as colônias presenciais de Gaza, ou seja, no caso de Israel não mudar seu controle à distância para um controle militar em campo, como era até 2005. 

A segunda dimensão é como o Hamas reenquadra suas políticas de resistência tanto justificando a sua ação de 7 de outubro diante das consequências desastrosas ao mesmo tempo que reformula as possibilidades de resistência em um cenário pós-genocídio. Uma última observação de análise é pensarmos que Israel já tentou em algum momento destruir o maior movimento de resistência palestino. Na década de 1980, um dos objetivos estratégicos da invasão do Líbano em 1982 era destruir a OLP, de Yasser Arafat. De fato, Israel consegue dar um duro golpe, enfraquece a OLP (que teve que ser transferida para a Tunísia), mas ela ainda era a maior força política palestina nos anos 1980. 

A conclusão que podemos tirar é que Israel não destrói o Hamas se não mudar o caráter opressor da ocupação, que é o que mantém vivo o grupo. 


Pôr do sol na praia de Gaza, em tempos menos terríveis / m.z.gaza

Antes de 7 de outubro, Israel ensaiava normalizar relações com a Arábia Saudita, acordo que poderia esvaziar a causa palestina no médio prazo. Agora, vários países romperam com Israel e ainda acusam o país de genocídio. A proposta de Dois Estados – que andava moribunda – voltou a ser amplamente defendida. Por outro lado, dentro de Israel se fala abertamente em deportações em massa para o Egito. Hoje, estaríamos mais perto de uma avanço para os palestinos ou de retrocesso?

Mohammed Nadir: A História é uma incógnita, não? Mas podemos dizer que os colonizadores nunca vencem. Basta olhar para as guerras mais recentes no Afeganistão, Iraque, Vietnã, Coreia, da França na Argélia, os portugueses na África. Eles sempre são derrotados, porque você pode esmagar milhões de pessoas, mas não uma ideia. 

Liberdade é a ideia chave, a vida vencendo a morte. Quando os nazistas tentaram concretizar seu plano hediondo de extermínio judaico, eles perderam e os judeus conseguiram sua recuperação, após séculos de perseguição. Acredito que os palestinos vão pagar com o sangue o preço de sua liberdade. Sei que é chocante pensar que isso ocorra nos dias de hoje, mas parece ser o destino dos palestinos. Por isso acredito que eles estejam mais próximos de alcançar a vida digna que desejam. 

Soraya Mesleh: A situação desesperadora, dolorosa, terrível dessa brutalidade contínua faz parecer que não há saída, mas acho que estamos perto de um avanço, o começo do fim do regime sionista. Nunca estimemos tão perto de justiça como agora, o fim do regime colonial de apartheid.  É contraditório em função imenso sacrifício e sofrimento palestino, mas há iniciativas de boicotes, desinvestimentos e sanções nos moldes do que causou a queda do regime racista da África do Sul nos anos 1990. 

É preciso lembrar das palavras de Malcolm X: "não confunda a reação do oprimido com  a violência do opressor". A ONU aprova o direito a autodeterminação dos povos quando um povo é subjugado por outro, o direito de resistência, inclusive, armada. É parte do direito internacional. Os palestinos resistem porque essa é a única possibilidade de eles evitarem o apagamento do mapa.

A solução dos dois estados está morta, segundo inclusive muitos palestinos, por causa da política agressiva de expansão colonial na Cisjordânia. Criar um estado palestino lá equivaleria a um batustão [bolsões semiautônomos sul-africanos, onde imperava a pobreza e a falsa sensação de liberdade] e é uma solução injusta porque não contempla todo o povo palestino. São seis milhões de refugiados, metade da diáspora, os que ficaram, sofrem com a ocupação, vivendo sob 65 leis racistas israelenses. Dezenas de aldeias que não têm nem sequer serviço básico. Temos que buscar um estado laico, livre e democrático, com direitos iguais para todos. 

Eu falo com bastante tranquilidade sobre essa questão porque meu pai nasceu na Palestina em 1935 e foi uma das vítimas da Nakba de 48, expulso de sua aldeia. Ele contava que lá não havia trancas nas portas, não havia convites para casamentos, todos viviam em paz e as crianças não perguntavam para as outras se eram muçulmanos, judeus ou cristãos. O sionismo acabou com isso. Acredito que os movimentos universitários pelo mundo podem ajudar a derrotar o sionismo.

Arturo HartmannNo cenário regional, a Arábia Saudita tem um transparente desejo de normalizar as relações com Israel, inclusive dentro de uma aliança mais ampla de décadas com os EUA, desde a década de 1940. Parte relevante da população saudita, ou mesmo de populações da região, por seu lado, podem ser contra, ainda mais no contexto de um ataque genocida contra Gaza. Isso explica a Arábia Saudita, mesmo desejosa de ter relações com Israel, condicione essas relações a uma solução para a Palestina.

Já o Egito se juntou oficialmente ao caso levado adiante pela África do Sul de crime de genocídio cometido por Israel na Corte Internacional de Justiça. O Egito havia sido o primeiro país árabe a assinar acordo com Israel, em 1979 e foi o primeiro também a o acusar de genocídio, é vizinho, mediador e não quer receber os mais de meio milhão de palestinos que viriam de Rafah.

Outro ponto é se a questão vai atrair a China e como fica a posição dos EUA, como aliado e fornecedor de armas. Isso desencadeou um debate interno nos EUA nunca visto, com setores da sociedade estadunidense se opondo de forma radical às ações de Israel e ao apoio dos EUA (estudantes universitários, setores da sociedade judaica dos EUA, uma maior mobilização árabe ou mesmo de constituintes democratas). Os protestos vemos agora, oposição inédita e vocal a Israel. Se isso vai deixar legados e impactos mais duradouros na política dos EUA, vamos observar. A eleição nos EUA podem ser uma chance para isso.

É nesse contexto que os palestinos vão ter que reconstruir seu movimento de resistência e pensar em uma agenda para o futuro.


A ONU diz que a cada dia 37 mães palestinas são assassinadas em Gaza / AFP

Israel parece decidido a atacar Rafah. Um eventual ataque lá deve representar algum ponto de inflexão na operação militar?

Mohammed Nadir: Netanyahu joga suas últimas cartadas para reverter uma derrota que ele não pode evitar. Ele foi derrotado militar e politicamente. Tudo o que ele conseguiu foi aumentar o antissemitismo. O consenso que havia de que Israel seria uma democracia acabou, foi destruído por ele e é sempre bom lembrar: os judeus foram exterminados por europeus, não por árabes.

O Egito também não tem outra opção a não ser resistir aos planos de Netanyahu. Os dois países têm um acordo de paz que reza o respeito às fronteiras. Abrir as fronteiras de Rafah com o Sinai, forçando um êxodo palestino, seria o equivalente a uma declaração de guerra. 

Netanyahu tenta uma sobrevida porque sabe que é um cadáver político e, quando acabar a guerra, terá que enfrentar as consequências legais dos seus atos. 

Soraya Mesleh: As máscaras caíram e a cara feia do sionismo de Israel ficou explicitada. Até os EUA se veem obrigados a pressionar. Acho que é o momento de fazer ecoar as vozes palestinas rumo a libertação nacional. 

Arturo Hartmann: O ataque a Rafah seria mais que uma inflexão na operação militar, pois poderia ser a última fase do genocídio e da limpeza étnica de Gaza. Para Israel, o pós-operação seria lidar com as consequências de ter realizado um genocídio, com um caso correndo na Corte Internacional de Justiça, e uma possível mudança de posição de países apoiadores de Israel.


A ajuda humanitária entra a conta-gotas pelo Sul de Gaza e a fome no norte é generalizada / AFP

Edição: Thalita Pires