MASSACRE PALESTINO

África do Sul pede à Tribunal da ONU que interrompa operações de Israel em Rafah

Corte analisa se israelenses violam Convenção de Genocídio da ONU; Israel pressiona para que palestinos entrem no Egito

Brasil de Fato | São Paulo (SP) | |
A ONU diz que mais de meio milhão de palestinos já foram obrigados novamente a se deslocar de Rafah - AFP

Advogados da África do Sul vão pedir nesta quinta-feira (16)  à Corte Internacional de Justiça (CIJ), o Tribunal da ONU, o fim imediato das operações militares de Israel na cidade palestina de Rafah, no sul da Faixa de Gaza. Eles alegam que as atividades seriam "genocidas" e ameaçam  "a sobrevivência dos palestinos".

"Como as provas mostram exageradamente, a forma com a qual Israel realiza suas operações militares em Rafah, e no resto de Gaza, é genocida. É preciso ordenar que ele pare", disse Vusimuzi Madonsela, embaixador da África do Sul em Haia, sede da corte.  

"A África do Sul esperava, na última vez que compareceu a este tribunal, que este processo genocida fosse interrompido para preservar a Palestina e seu povo.  Em vez disso, o genocídio de Israel continuou e chegou a uma nova fase horrível", acrescentou o representante sul-africano.

A corte de Haia vai analisar os argumentos contra e a favor da tese de que Israel estaria violando a Convenção de Genocídio da ONU de 1948 até a sexta-feira (17). 

Após a exposição sul-africana na quinta (16), no dia seguinte é a vez dos advogados israelenses. O país argumenta que as acusações são "totalmente infundadas, moralmente repugnantes" e que é comprometido com o direito internacional.

Em janeiro a CIJ já havia ordenado que Israel permitisse a entrada de ajuda humanitária em Gaza e evitasse atos de genocídio, ordem não atendida pelo país. 

Expulsão

Rafah era lar de pouco mais de 200 mil pessoas antes do início do massacre israelense em outubro, mas viu sua população chegar a cerca de 1,5 milhão de pessoas que se refugiaram na cidade, fugidas dos bombardeios em outras partes de Gaza. 

A maior parte dessas pessoas refugiadas é de mulheres e crianças, que lotam a cidade fronteiriça com o Egito. Na quinta, o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, disse meio milhão dessas pessoas foram retirados de Rafah antes da prometida grande ofensiva terrestre na cidade. 

A declaração de Netanyahu ocorreu no dia em que os palestinos lembram a Nakba, "Catástrofe" que a criação do Estado de Israel significou para eles em 1948. Durante a Nakba, cerca de 760 mil palestinos fugiram ou foram expulsos de suas casas. 

"Setenta e seis anos depois da Nakba, os palestinos seguem sendo deslocados à força", apontou a agência da ONU para os refugiados palestinos (UNRWA), que divulgou um balanço superior de pessoas que fugiram de Rafah, de 600 mil.

Muitas dessas pessoas deixaram a Faixa de Gaza, entrando no Egito, país que sofre forte pressão israelense para permitir a entrada em larga escala de palestinos em seu território.

O analista político Mohammed Nadir disse ao Brasil de Fato que "os palestinos sabem que sair de Rafah e cruzar o deserto do Sinai significa o não retorno, é a garantia de que nunca mais verão a Palestina". 

"Curioso que historicamente os judeus fugiram para o deserto do Sinai para escapar da ira do faraó egípcio e, hoje, são os palestinos que veem como alternativa o mesmo deserto para escapar da morte pelas mãos israelenses", concluiu o pesquisador do Observatório de Política Externa da Universidade Federal do ABC.

Edição: Rodrigo Durão Coelho