São 18h e uma mãe tenta começar a cozinhar com lenha em pleno século 21, sem ter tido eletricidade por pouco mais de 18 horas em cada um dos dias dos últimos meses. Um idoso se aproxima da fila para comprar o pão que não estava pronto para venda na padaria estatal pela manhã porque não havia farinha de Castela. Uma criança desperta em uma cama de hospital, enquanto sua mãe aguarda a chegada de um medicamento que não existe no país; nesse mesmo hospital, um médico faz malabarismos para repartir e fazer render para todo o turno de plantão o escasso material descartável de que dispõe. Na noite anterior, um grupo de vizinhos, em meio ao desespero de muitas horas sem eletricidade e consequentemente sem água, protagonizou um panelaço e um pequeno protesto nas ruas de um povoado do interior.
São as cenas, repetidas dia sim outro também, que revelam um custo humano impossível de ser medido por qualquer sofisticado método de cálculo. São as cenas do genocídio em câmera lenta do bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba e suas devastadoras consequências.
A filosofia desta guerra multidimensional de baixa intensidade está sustentada no infame memorando de um subsecretário de Estado dos EUA, que é preciso recordar sempre, ainda que tenha mais de sessenta anos: “A maioria dos cubanos apoia Castro. É preciso empregar rapidamente todos os meios possíveis para enfraquecer a vida econômica de Cuba uma linha de ação que, sendo a mais habilidosa e discreta possível, alcance os maiores avanços na privação de Cuba de dinheiro e suprimentos, para reduzir seus recursos financeiros e os salários reais, provocar fome, desespero e a derrubada do Governo”.
Mais uma vez, a Assembleia Geral da ONU se dispõe a debater e votar a resolução “Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro dos Estados Unidos contra Cuba”, um texto de menos de uma página que, com pequenas variações e atualizações, é aprovado todos os anos com a oposição apenas dos regimes de Washington e Tel Aviv.
Também todos os anos, a apresentação da resolução cubana é precedida pela publicação de um relatório nacional que atualiza as consequências do bloqueio na vida do país. Não é porque repete os mesmos tópicos todos os anos que seus números deixam de ser impactantes: segundo o Informe, os danos econômicos e materiais do bloqueio foram estimados, no último ano, na considerável cifra de US$ 7,5 milhões. Para se ter ideia do que esses números siderais significam: se contássemos US$ 1 por segundo, levaríamos quase 240 anos fazendo isso.
Os números, convertidos em horas de impacto potencial, revelam — sempre de forma estimada — a magnitude do dano: apenas 17 minutos equivalem ao custo de aquisição do medicamento Nusinersen, para o tratamento da atrofia muscular espinhal infantil; menos de uma semana equivale ao financiamento requerido para importar o material médico descartável e os reagentes necessários para o sistema nacional de saúde durante um ano; cerca de dois meses equivalem ao financiamento necessário para garantir, durante um ano, a entrega da cesta básica normatizada de produtos à população; outros dois meses a mais equivalem ao custo do combustível necessário para satisfazer a demanda normal de eletricidade no país.
No entanto, há um impacto que as cifras astronômicas não conseguem medir: o custo humano do bloqueio. Não se trata apenas da desestruturação sistêmica e sistemática de toda a vida econômica e da organização social de um país dezenas de vezes menor em população e território que seu agressor, nem da perseguição cirúrgica a qualquer tentativa de normalidade econômica, nem das draconianas condições em que Cuba deve desenvolver sua vida.
O impacto fundamental do bloqueio recai sobre a essência humana do ser cubano: ergue-se como um castigo coletivo, indiscriminado, permanente e onipresente sobre toda uma população, independentemente de suas posições políticas e ideológicas individuais.
O bloqueio persegue o sofrimento deliberado e o desespero de milhões de pessoas com o propósito declarado de provocar a queda do governo cubano. Uma análise política o equipara à definição de genocídio: trata-se de um conjunto de atos perpetrados com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, cujas manifestações incluem, entre outras, matar membros do grupo, causar-lhes graves danos físicos ou mentais, impor condições de vida destinadas a destruir o grupo e impedir os nascimentos, em um contexto no qual as vítimas são escolhidas por sua identidade, não ao acaso.
O bloqueio busca a morte dos cubanos, mediante a negação do acesso regular e sistemático a alimentos e medicamentos, provocando danos físicos e mentais na população cubana — constatáveis nos crescentes índices de mortalidade geral, mortalidade infantil, suicídios, entre outros. Ou seja, impõe condições de vida insuportáveis para qualquer população, cujo fim último é a rendição, se antes não houver morte. Por fim, é uma política que vitimiza todos os cubanos, onde quer que estejam, em qualquer lugar do mundo, mas especialmente em Cuba.
Na política, as palavras importam quase tanto quanto os fatos. Não por acaso, uma batalha campal se trava em torno dos conceitos. Ninguém em seu juízo político utilizaria como equivalentes “holocausto” e “solução final” para a matança de judeus na Europa entre 1933 e 1945, ou equipararia a resistência do Gueto de Varsóvia ao extermínio nazista.
O bloqueio se chama bloqueio. Na política cotidiana, particularmente a de nossos movimentos populares, usar subterfúgios linguísticos ou se erguer como supostos puristas do direito internacional chamando esta guerra econômica de “embargo”, “medidas coercitivas unilaterais” ou “sanções”, equiparar ou buscar equidistância entre Cuba e Estados Unidos, é colaboracionismo com o inimigo.
O sofrimento causado ao povo cubano pelo bloqueio tem um propósito final e perverso: provocar seu desespero, a rebelião e a derrubada do governo cubano. Toma como refém toda uma população e a faz pagar com sua vida o custo de uma prolongada resistência e a ousadia de ter protagonizado a única revolução socialista no continente americano: trata-se de um castigo coletivo de consequências inimagináveis.
A resistência também tem seus limites e as políticas do bloqueio atuam sobre eles de maneira contínua: buscam quebrá-la, mediante a destruição deliberada de seus meios e condições de vida. Os mais recentes episódios de protestos em Cuba evidenciam isso.
O bloqueio pode ser uma explicação distante para a mãe que tenta começar a cozinhar com lenha em pleno século 21 porque não teve eletricidade em cada um dos dias dos últimos meses; para o idoso que se aproxima da fila para comprar o pão que não estava pronto porque não havia farinha de Castela; para a criança que desperta na cama de um hospital, enquanto sua mãe aguarda a chegada de um medicamento que não existe no país; para o médico que faz malabarismos para repartir e fazer render para todo o turno de plantão o escasso material descartável de que dispõe; para o grupo de vizinhos que, em meio ao desespero de muitas horas sem eletricidade e consequentemente sem água, protagonizou um panelaço e um pequeno protesto nas ruas de um povoado do interior. Mas o certo é que todos eles são suas vítimas diretas.
Entender a magnitude do drama humano que isso significa, explicar suas causas e consequências a partir da perspectiva dos mais humildes, visibilizar as histórias de resistência cotidiana de um povo que se nega a desaparecer e impedir a tempo, com solidariedade e internacionalismo popular efetivos, que a sorte de Cuba seja a de Numância — antigo assentamento celtibero marcado pela resistência obstinada de seus ocupantes — é tarefa do movimento popular em Nossa América.
*Roque Lazo é doutor em filosofia pelo Instituto de Ciências Pedagógicas de Havana e membro do Centro Memorial Martin Luther King.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
