ENTREVISTA

Mundo ainda está no início da curva de adoção de inteligência artificial (IA), aponta presidente da Dataprev

Rodrigo Assumpção diz que salto tecnológico depende de investimento significativo e envolve governo, Estado e sociedade

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O tema da inteligência artificial foi amplamente debatido no Fórum Mundial de Seguridade Social promovido pela Associação Internacional de Seguridade Social (AISS), que ocorreu em Kuala Lumpur, na Malásia, de 29 de setembro a 03 de outubro. O Fórum contou com a participação de  representantes de instituições de seguridade social de diferentes países, que compartilharam experiências diversas e perspectivas complementares sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) nos sistemas de proteção social no mundo. Um dos países que teve destaque no debate sobre IA foi o Brasil através da participação do presidente da Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social (Dataprev), Rodrigo Assumpção.

Como pano de fundo para os debates, o relatório “La inteligencia artificial en las instituciones de seguridad social”, elaborado pela AISS, serviu como referência técnica e conceitual. O documento destaca o papel estratégico da IA na modernização das instituições de previdência social, especialmente diante de crescentes demandas e limitações operacionais. Ao integrar tecnologias como aprendizado automático, visão computacional e processamento de linguagem natural, as instituições podem ampliar sua capacidade de resposta, identificar lacunas de cobertura e promover inclusão social com base em evidências. O relatório também alerta para os riscos da adoção descontextualizada da IA e reforça a importância de dados de qualidade, modelos adaptados e diretrizes de segurança robustas para garantir uma transformação digital ética e eficaz.

Durante o Fórum da AISS Rodrigo Assumpção conversou com exclusividade com Brasil de Fato RS sobre IA, Brics, COP30 entre outros assuntos.

O CEO da Dataprev tem mais  de 30 anos de atuação no tema da transformação digital e melhores práticas de inovações tecnológicas para gestão pública, Rodrigo é bacharel em História, com mestrado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Foi consultor especializado em gestão de TIC e modernização digital junto a organismos internacionais como Banco Mundial e a Associação Internacional de Seguridade Social (AISS). Também atuou como especialista em Sistemas de Informação de Gestão da Proteção Social na Organização Internacional do Trabalho (OIT). Esteve à frente da Dataprev de 2008 a 2017 e voltou à presidência da estatal em 2023.

A Dataprev tem 50 anos de atuação e está presente na vida do cidadão brasileiro, provendo a tecnologia necessária para os programas estratégicos e sociais do governo tais  como os serviços da Previdência Social e a Carteira de Trabalho Digital desenvolvida para o Ministério do Trabalho e Emprego entre outros servicos.

Brasil de Fato: Rodrigo, a pesquisa feita e que gerou o relatório publicado pela AISS aponta que há muita experimentação na área de inteligência artificial. Como você avalia esse momento?

Rodrigo Assumpção:  Sim, há muita iniciativa acontecendo na área de IA, mas, como foi falado no Fórum, ainda estamos no início da curva de adoção. É um momento de estruturação da base, organização dos dados, preparação da infraestrutura e experimentação — com aplicações mais óbvias, como chatbots para intermediação da relação com o cidadão.

É uma realidade nascente, inicial, e acredito que muita coisa ainda vai acontecer. O uso da IA cresce e começa a aparecer em quase todas as atividades. Aquele mapa que mostramos hoje, com os diferentes tipos já identificados, aponta apenas o começo. Muita novidade ainda virá nessa área.

E qual é o maior desafio do sistema de seguridade social diante dessa transformação?

O maior desafio é compreender que esse salto tecnológico exige um investimento muito significativo — e não é algo que será feito apenas pela área de seguridade social. É uma transformação mais ampla, que envolve todo o governo, o Estado e a sociedade.

Dependendo de como essa sociedade está organizada tecnologicamente, ela precisa montar sua infraestrutura tecnológica, sua infraestrutura de dados, e entender as aplicações na política pública — incluindo a política de seguridade social.

E no Brasil, como está a implantação da inteligência artificial dentro da previdência social?

Na Dataprev, temos um investimento bastante forte na infraestrutura de IA. Estamos oferecendo essa capacidade para áreas do governo que querem trabalhar com inteligência artificial — uma espécie de IA como serviço, colocando a infraestrutura à disposição do governo.

Especificamente, aplicamos IA para nossos clientes diretos, principalmente o INSS. Usamos, por exemplo, chatbots genéricos para aprimorar a orientação ao cidadão sobre os serviços. Também temos iniciativas como recomendação de vagas de emprego para quem está procurando trabalho, combate à fraude e melhoria da qualidade dos dados.

Além disso, há usos internos na própria Dataprev que aumentam nossa capacidade e qualidade, refletindo diretamente na qualidade dos serviços que prestamos. Esse conjunto de ações já está em pleno andamento.

O Brasil está na presidência dos Brics. Existe uma discussão sobre inteligência artificial nesse contexto? A Dataprev participa?

Sim, houve discussão. O ciclo do Brasil está quase acabando — vamos entregar a presidência em dezembro. A governança de dados, a centralidade dos dados e a inteligência artificial foram temas bastante importantes.

O Brics é muito interessante porque reúne países com posturas e tecnologias muito diferentes — inclusive distintas da tecnologia americana, usada no Brasil. Isso traz abordagens muito ricas. Foi uma discussão bastante interessante, e acredito que continuará no próximo ciclo.

Estamos nos aproximando da COP30 em Belém. Existe alguma aplicação de IA voltada à proteção do meio ambiente?

Sim. Na Dataprev, estamos trabalhando com a estruturação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Há estudos de aplicação de IA para análise de imagens, com o objetivo de verificar a coerência das informações declaradas pelos proprietários de terra.

Como o CAR é baseado na autodeclaração, usamos IA para comparar essas informações com imagens de satélite e outros bancos de dados. Isso permite aferir a qualidade e a veracidade das declarações. Esse trabalho já está em andamento.

Uma última pergunta. Muito se fala que a IA está avançando rapidamente e que pode atingir um nível onde não apenas igualam, mas superam substancialmente a inteligência humana, iniciando um ciclo de evolução tecnológica autossustentável. A singularidade está próxima?

Eu acho que não. Há dois ou três anos, com a explosão de um tipo específico de IA — as LLMs, ou IA generativa — houve um impacto muito grande que fez as pessoas pensarem que a singularidade estava próxima.

Mas é importante lembrar que a IA, em sentido estrito, antecede até mesmo a computação. Não é uma novidade tão grande. E, como sempre acontece na ciência e na tecnologia, cada avanço revela muito mais sobre o que ainda não sabemos do que sobre o que já sabemos.

Acho que está claro que subestimamos o tamanho da nossa ignorância. Descobrimos que sabemos muito menos sobre essa trajetória da IA do que imaginávamos.

Editado por: Vivian Virissimo

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