O presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, disse ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, que busca “restaurar e redefinir os laços” com Moscou na sua primeira visita oficial após desde que assumiu o poder após a derrubada de Bashar Al-Assad, ocorrida nesta quarta-feira (15) .
A visita do líder sírio a Moscou tem um importante peso simbólico, pois a queda do regime de Bashar Al-Assad, no final de 2024, e a tomada do poder pelos rebeldes islamistas na Síria deixaram a Rússia em alerta. O Kremlin mantinha uma aliança histórica com o governo de Bashar Al-Assad, que garantia uma influência geopolítica e uma presença militar no Oriente Médio.
Após a deposição de Assad, o presidente russo, Vladimir Putin, concedeu asilo ao ex-presidente sírio, que vive em exílio em Moscou há 10 meses.
“Estamos tentando restaurar e redefinir de uma nova maneira a natureza dessas relações para que haja independência para a Síria, uma Síria soberana, e também sua unidade e integridade territorial e sua estabilidade de segurança”, disse al-Sharaa a Putin no Kremlin.
O líder sírio garantiu que Damasco honraria todos os acordos anteriores com Moscou. “Existem relações bilaterais e interesses compartilhados que nos unem à Rússia, e respeitamos todos os acordos firmados com ela”, acrescentou.
Já o presidente russo, em seu discurso de boas-vindas ao líder sírio, lembrou ao convidado que os dois países cooperam há mais de 80 anos, destacando que os laços diplomáticos entre Moscou e Damasco foram estabelecidos durante um período difícil para a Rússia, ainda na Segunda Guerra Mundial.
“Nossos países desenvolveram um relacionamento especial ao longo de muitas décadas”, disse Vladimir Putin, acrescentando que a Síria está atualmente “passando por momentos difíceis”, mas as recentes eleições parlamentares fortalecerão “a cooperação entre todas as forças políticas”.
Anteriormente, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, observou que a agenda bilateral com a Síria abrange uma ampla gama de questões.
“O tópico da nossa presença militar na República Árabe Síria também está sendo discutida, inclusive no contexto de uma possível reformatação da funcionalidade das instalações militares russas”, completou.
Mais cedo, um funcionário do governo sírio, que pediu anonimato, disse à AFP que al-Sharaa pedirá a Putin que “entregue todos os indivíduos que cometeram crimes de guerra e estão na Rússia, em especial Bashar al-Assad”. Durante as falas dos dois líderes, que haviam se reunindo às portas fechadas, não houve menção ao assunto.
Aliança histórica
A presença de bases militares russas na Síria – uma aérea e uma naval – está inserida no contexto da histórica relação que Moscou tem com Damasco desde os tempos da Guerra Fria, durante o governo de Hafez Al-Assad, pai de Bashar Al-Assad, quando foi estabelecida a base naval de Tartus, se mantendo até hoje sob controle de Moscou e consolidando um ponto estratégico no Mar Mediterrâneo para a Rússia.
A herança desta relação teve importância crucial para o apoio russo à Bashar Al-Assad durante a Primavera Árabe e a Guerra Civil na Síria, que levou à criação de Base Aérea de Hmeimim, em 2015, quando a Síria convidou a Rússia para participar das operações militares contra rebeldes e grupos fundamentalistas.
Em um contexto mais amplo, esta presença militar russa durante os últimos anos na Síria faz parte de uma estratégia geopolítica mais ampla que une a consolidação da influência russa no Oriente Médio e o seu prestígio de potência global – o que ganhou mais importância após a guerra da Ucrânia e o isolamento provocado pelo Ocidente.
Esta relação permitiu a manutenção de Assad no poder e exerceu a função de um contrapeso da Rússia aos avanços da influência ocidental no Oriente Médio. Agora, no contexto da reviravolta do poder na Síria, os esforços da Rússia em manter as pontes com a Síria, em meio à consolidação do novo governo, estão ligados à prioridade russa de manter a estrutura destas bases operando.
