O controle chinês sobre 90% dos minerais de terras raras e a adoção de uma política de “reciprocidade estrita” por Pequim estão entre os elementos decisivos que levaram o governo Trump a aceitar suspensões mútuas de tarifas e controles de exportação no encontro entre Xi Jinping e Donald Trump em Busan, na Coreia do Sul, nesta quinta-feira (30). Os acordos técnicos, negociados previamente em Kuala Lumpur pelas equipes diplomáticas, revelam tanto uma distensão tática nas relações sino-estadunidenses quanto uma corrida contra o tempo por Washington para reduzir sua dependência de minerais críticos chineses.
“Este é o ás na manga da China. Isso pode prejudicar imediatamente”, afirma Li Bo, presidente do Instituto Chunqiu de Desenvolvimento e Estudos Estratégicos de Xangai, em entrevista ao Brasil de Fato, referindo-se ao controle de exportação de tecnologias referentes a terras raras, anunciado por Pequim em 9 de outubro em resposta a sanções estadunidenses. Os minerais de terras raras são essenciais para a indústria militar e de semicondutores, e a China domina não apenas a extração, mas sobretudo as tecnologias de processamento desses materiais.
“[Os controles de exportação de tecnologias referentes a terras raras] realmente forçaram [os EUA] a sentar à mesa, conversar e suspender as tarifas. Dentro de um ano eles podem fazer algum progresso. E aí podem começar novamente a apertar a China”, analisa Li Bo
“Ao lidar com questões comerciais com os EUA, o princípio orientador central do governo chinês é a reciprocidade estrita”, explica Shen Yi, professor do Centro de Estudos Brics da Universidade de Fudan. “Isso significa que se você impõe uma tarifa de 10% sobre mim, eu certamente retaliarei com 10%. Não vou fazer um gesto ou ceder”.
Essa estratégia de “olho por olho” ou reciprocidade estrita funcionou. “O que você fizer, eu farei também. Se você cooperar, eu cooperarei; se você trair ou fazer algumas manobras, eu também tomarei medidas de retaliação equivalentes”, detalha Shen Yi.
“Você sanciona meus chips, eu sanciono suas terras raras; você sanciona minha indústria de chips, eu imponho sanções completas na cadeia de suprimentos de terras raras”, continuou Shen Yi sobre a abordagem de Pequim.
Após meses de escalada tarifária que chegou a impor até 145% sobre produtos chineses no início do ano, Trump aceitou três suspensões temporárias que entram em vigor imediatamente.
A busca pela estabilidade
Consultado sobre o tom triunfalista de Trump após a reunião, o professor Shen Yi diz: “Não estamos particularmente preocupados com isso, porque nosso foco está nas ações reais entre China e EUA e nessa relação estável”.
Sobre os objetivos estratégicos da China, Li Bo contextualiza: “Xi já disse que a Terra é grande o suficiente. Então podemos ter ambos os países coexistindo, portanto a coexistência pacífica é o objetivo da China”.
No entanto, ele ressalta que há duas prioridades a gerenciar: “Uma é o relacionamento pacífico com os Estados Unidos, porque eles ainda são a superpotência. Então não estamos buscando sucesso em uma guerra quente como essa. Isso vai destruir o mundo. Mas ao mesmo tempo, a outra prioridade é que vamos defender nossos interesses fundamentais”.
O consenso é apenas o começo
Shen Yi aponta a diferença entre consenso e implementação: “Ele tende a apresentar consensos alcançados como planos já resolvidos e em execução. Há uma diferença muito grande entre os dois [Xi e Trump]. Alcançar um consenso é apenas o início”.
O professor explica que Trump precisa dessa narrativa de vitória por duas razões: “Primeiro, ele precisa aliviar substancialmente as relações com a China, porque isso é muito importante para o mercado de capitais americano e para a confiança desses setores nos EUA hoje; ao mesmo tempo, ele precisa transmitir ao exterior, especialmente aos seus apoiadores, que ele ainda é um Trump muito firme”.
Para Li, não há razões para confiar no atual mandatário estadunidense. “Como você pode levar suas palavras a sério? Um dia ele disse que vai acabar com a guerra na Ucrânia, e que a Ucrânia ficou sem cartas para jogar. E no outro dia ele diz que a economia da Rússia está prestes a quebrar”.
“O que quer que acontecesse, ele precisava comemorar”, diz Li.
Pausa na linha dura?
Apesar disso, a possibilidade de visitas recíprocas entre os líderes pode sinalizar uma mudança considerável, aponta Shen Yi. “Na diplomacia chinesa, os principais líderes visitarem alternadamente o país um do outro representa um nível muito alto de protocolo diplomático, significando que a relação entre ambos os lados entrou em uma trajetória de desenvolvimento estável e saudável”.
O professor lembra que a visita de Trump à China em 2017 foi a última de um presidente estadunidense. Joe Biden não visitou o país asiático durante seu mandato. Se Trump reiniciar essas visitas, “Trump encerrará pessoalmente o período linha-dura de dez anos em relação à China que ele mesmo iniciou”.
Essa linha de ação pode trazer benefícios para o mandatário norte-americano, segundo o professor da Universidade de Fudan. “Se essa distensão se desenvolver, já que foi o próprio Trump que impulsionou essa distensão, ela também será considerada parte de suas realizações políticas”.
Tensa calma
Apesar das perspectivas de distensão, a cautela permanece. “Se não houver a influência de fatores imprevistos, no restante do mandato de Trump, é possível ser cautelosamente otimista”, avalia Shen Yi.
“Mas como disse um estudioso estadunidense de forma bastante realista: China e EUA anteriormente apontaram todos os tipos de armas um para o outro e começaram a disparar. Agora pararam de disparar, deixaram de mirar as armas um no outro, mas as armas não foram desmontadas, na verdade estão apenas ali, em um estado que pode ser reiniciado a qualquer momento”, diz o professor.
“É preciso olhar para esta cúpula com uma atitude bastante lúcida, racional e pragmática”, conclui Shen Yi, sintetizando a postura chinesa diante dos acordos de Kuala Lumpur e do encontro de Busan.
Os acordos concretos
O primeiro resultado concreto elimina a tarifa de 10% sobre importações chinesas relacionadas ao fentanil, enquanto a chamada tarifa de retaliação de 24% permanece suspensa por um ano para ambos os lados. “A China concordou em aumentar os esforços para reprimir o chamado fluxo de fentanil para os EUA. E por isso, os EUA vão reduzir 10 por cento de tarifas sobre as importações da China”, resume Li Bo. A China, em contrapartida, cancela suas medidas de retaliação tarifária sobre produtos estadunidenses na mesma categoria.
O segundo acordo, considerado o mais estratégico, suspende por um ano a regra de “50% de penetração” anunciada por Washington em 29 de setembro, que determinava que subsidiárias com mais de 50% de controle acionário estadunidense fossem automaticamente incluídas na lista de sanções de exportação. Em resposta, Pequim suspende pelo mesmo período as medidas de controle de exportação de terras raras anunciadas em 9 de outubro.
“As medidas de controle de terras raras que anunciamos em 9 de outubro foram uma resposta à regra de ‘50% de penetração’ de controle de exportação que vocês anunciaram em 29 de setembro. Agora que vocês suspenderam a regra de penetração de controle acionário para controle de exportação, nós suspendemos a implementação do controle de terras raras por um ano”, explica Shen Yi sobre a reciprocidade do acordo.
O terceiro acordo suspende a implementação das medidas da Seção 301 contra a indústria marítima, logística e de construção naval chinesa, incluindo as tarifas sobre navios de carga chineses que Trump havia anunciado. “Os EUA suspenderam a medida anunciada de taxas punitivas para navios chineses atracando em portos dos EUA, certo? E então a China disse: ‘Ok, também vamos esperar com nossas medidas'”, detalha Li Bo.
