Poucos dias atrás, mais de 120 pessoas foram assassinadas. A violência em tempo real nas redes e mídia e dimensionou o crime no Brasil; o terror foi ao vivo. Com o derrame de informações (verdadeiras e falsas) criou-se o posicionamento simplista, do “contra ou a favor”, confundindo justiça com vingança, sem espaço para argumentos e dados sérios capazes de gerar propostas.
Trabalhadores sofrem os efeitos da concentração de riquezas e terras, enquanto o crime organizado avança sobre a máquina pública. Sem credibilidade, setores do parlamento, negam taxar das bets e super ricos, e ainda tentam aprovar uma PEC que torna o Congresso imune à lei.. A mídia faz alarde das facções, mas não mostra a concentração de riquezas e terras, mascarando a violência do capital. Desmatamento e grilagem de terras não agradam ao agronegócio, lucros gigantescos da especulação financeira improdutiva não agradam aos bancos, regulamentação das drogas não agrada aos grandes traficantes da Faria Lima, Leblon e Congresso. Não se fala.
Parte dos cristãos seguem seus dirigentes, que se valem da religião para impor até seus votos, apesar da lei proibir. A ameaça do comunismo deu vez ao novo inimigo: O narcoterrorismo, que só pode ser derrotado com violência, a lei não resolve.
Assim nascem o medo e o ódio. Mas cristãos, o nome diz, são seguidores da doutrina de Jesus Cristo. Cumprem o código moral dos Dez Mandamentos. E o 5° mandamento? “Não Matarás”, só concordarás? Explicação para a chacina: Êxodo 21: 23-25. “…vida por vida, olho por olho, dente por dente…” ou usam Levítico 24: 19-21 “se alguém fizer fratura ao seu próximo, far-se-á o mesmo a ele, fratura por fratura…”
Êxodo e Levítico são livros do Antigo Testamento. Os ensinamentos de Cristo estão no Novo Testamento. São os quatro Evangelhos. Em uma das passagens mais significativas, o Sermão da Montanha, Mateus 5: 38-39, Cristo diz: “Ouviste o que foi dito – olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra”. Ainda em Mateus, 5: 17, “Não penseis que vim abolir a lei ou os profetas, não vim aboli-los, mas cumpri-los” E completa em Mateus 22: 37-40 “Amarás, pois, ao senhor teu Deus…” Este é o primeiro mandamento… O segundo é semelhante a este. Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas,”
E então, no que acreditar? Simples. Cristo compila os Dez Mandamentos em dois. Uma a uma, as dez leis do A.T. Estão contidos nas duas novas, e “esta é a lei”. O que houver, na lei abraâmica, contraditório à nova lei, deve ser descartado. As guerras, a escravização, as agressões, tudo o que ofender a Deus e ao próximo, serão substituídas pelo amor a Deus e ao próximo. Para Cristo, o outro (irmão) era merecedor de respeito, fosse doutor da lei, leproso, prostituta ou rico negociante. Amar ao outro, seguramente, começa por garantir o primeiro direito de homens e mulheres: O direito à VIDA.
Você segue os ensinamentos de Cristo? Então não comemore a morte de 130 pessoas que eram ou não traficantes. Não foram julgados, não tiveram direito à defesa. Seguramente, entre os executados havia traficantes, assassinos. Mas também inocentes, e toda uma comunidade massacrada pelo tráfico, extorquida por milícias, cansada, com medo e sem esperança. E desassistidas pelo Estado que teria por obrigação atender.
Segundo o pastor Otoni de Paula, deputado federal do MDB do RJ, quatro rapazes de sua igreja, sem nenhum envolvimento com o crime, foram mortos pela polícia. Caso haja dúvidas sobre a inocência destes quatro evangélicos, adolescentes, estudantes, é bom lembrar que os mortos não tiveram direito à dúvida.
Condenar a violência e a ilegalidade policial nesta ação é bem diferente de apoiar ou defender o tráfico. O maniqueísmo que tomou o Brasil não permite sequer que pessoas decidam, aceitam a opinião de seu círculo. Lutadores pelo direito de embriões à vida, mesmo em gestações decorrentes de estupro, risco de morte para a mãe ou anencefalia, comemorando 130 mortes é tão confuso quanto pedidos de anistia para criminosos condenados, que antes diziam que “bandido bom é bandido morto”.
É óbvio que precisamos derrotar o crime organizado, facções, milícias, policiais envolvidos, parlamentares eleitos com dinheiro do crime, governantes que facilitam a impunidade e grandes bandidos bilionários, enriquecidos pelo dinheiro do crime. São estes os verdadeiros líderes. O que aparece é só a ponta descartável, os jovens dispostos a morrer por meio mês de ostentação e poder. Morrem cedo ou cumprem penas nas cadeias onde não aprendem nada que traga perspectiva de futuro digno.
É preciso atacar o que move toda esta engrenagem, o lucro, expulsando as facções e levando o Estado para ocupar o espaço. É preciso vencer o medo e o ódio que causa medo. É preciso entender a diferença entre justiça e vingança. E, aos cristãos, é imperativo decidir se segue o Cristo da solidariedade e amor ou o Abraão da intolerância e cólera e violência.
*Regina Abrahão é feminista, acadêmica de Ciências Humanas, educadora social, integrante de Coletivo Pão com Ovo e Fórum Interreligioso e do Ecumênico do RS.
* Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
