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A vida é curta

No Festival do Rio desse ano, o diretor Jorge Furtado deu uma aula para iniciantes e toda uma classe

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Ilha das Flores, de Jorge Furtado | Crédito: Reprodução

Tem muita vida nos curtas-metragens. Mesmo que eles não tenham tanto espaços pra circulação ou não se crie com efetividade uma cultura de criação de público para curta. Os curtas-metragens são portas de iniciativas de criação. São canais de expressão da arte cinematográfica que permitem o artista começar a se conhecer como tal e ter contato com seu primeiro público. Ou ter o seu primeiro contato com a realização. Para o público significa muitas vezes se aventurar no desconhecido. Porque quando uma pessoa vai assistir a um filme de longa-metragem, ele considera que irá ver um filme. Ele quer saber o gênero, em primeiro lugar, olhar o ator em segundo, e saber a trama também. E isso vale pra filme brasileiro. Embora filme brasileiro é quase um gênero também. Contudo quando se fala de curta-metragem, praticamente se considera que um curta tem que ser brasileiro. Como se tivesse incluído na modalidade da metragem esse “gênero brasileiro”. Dificilmente se assiste a curtas estrangeiros. Talvez porque seja por excelência um ‘curto’, reconhecimento dos nossos filmes. Mas a vida de cinema também é de curta em qualquer parte do mundo. Tanto que muitos dos nossos curtas são reconhecidos no exterior. Em Festivais e Mostras.

Nessa questão é que está o impasse de saber que o curta-metragem é vida no cinema, tanto pro artista, quanto pro público, mas que poderia ter mais chance de ser visto para além dos festivais e mostras. No Festival do Rio, é ótimo que eles incluam os curtas-metragens juntos com os longas. Algo que poderia acontecer no nosso cinema em geral. Aquela história de sempre um curta-metragem brasileiro antes de qualquer outro filme no cinema. E olha que temos muitos curtas. Muitas produções que competem de igual pra igual, na exigência de qualidade. Até na produção. Se um curta-metragem, que foi feito com 50 mil, quiser usar uma música de Chico Buarque, por exemplo, tem o dever ético, igualmente, de pagar o uso ao artista, tal qual um diretor de longa, que teve 1 milhão pra fazer seu filme.

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Esse ano no Festival do Rio, o diretor Jorge Furtado deu uma aula pra iniciantes e toda uma classe. E nesse dia foi exibido seu curta-metragem Ilha das Flores de 1989, que foi remasterizado. Isso mostra a importância do curta-metragem. Mas principalmente a importância DESSE curta. Ilha das Flores é um marco em todos os sentidos. Contestador, intrigante, denunciador, bem-humorado, bem narrado (falando em narração literalmente, temos Paulo José, magistral) e construído de maneira que brinca com o didático sem sê-lo. Ilha das Flores é um clássico pros estudantes de cinema ou não, pro público da classe ou não. Jorge constrói um universo de dicionário que nos leva a poesia. É um final que sacode a gente da poltrona do cinema, da poltrona da sala, ou da cadeira da escola. O curta voltou aos cinemas com um outro longa dele magnífico. Jorge é magnífico em vários sentidos como artista. Isso mostra o poder do curta. A vida do curta. Que há algum tempo, por exemplo, teve um do Almodóvar que entrava sozinho em cartaz. Um privilégio que nunca um curta nosso teve. Ilha das Flores até mereceria isso!

No Festival, todo ano têm muitos curtas. Um dos curtas, do sempre premiado Leonardo Martinelli, esteve nessa edição. O curta-metragem Samba Infinito que estreou em Cannes tem a marca registrada do diretor. Leonardo, com mais de cinco curtas realizados e bem sucedidos, se firma como cineasta, mostrando ao público que a vida no cinema também pode ser curta. E que os curtas podem fazer uma longa carreira. Martinelli é firme em sua estética. Constrói a mise-en-scène (a ação dentro da imagem) como quadros que muitas vezes são performances. Seja na dança ou na narrativa. Um espaço pode ser, esteticamente, um convite a reflexão, como nesse, onde Gilberto Gil recebe uma personagem no ambiente do Real Gabinete Português de Leitura. A construção da cena sela a estética e porque não dizer, a ética do curta. Quem assiste aos outros curtas de Martinelli, vê o sêlo de autenticidade do cineasta curta-metragista. Por hora.

Mas isso não quer dizer que o curta-metragem seja apenas o começo. Assim como Pedro Almodóvar voltou a ele, depois de uma trajetória enorme no cinema, Wim Wenders também está nessa vibração do curta-metragem, atualmente.

Aliás, a metragem de um filme no cinema é assunto que deveria ser medido apenas pelo artista realizador. Não pelo encaixe prático nos festivais ou mostras, ou exigências de editais ou de mercado. A obra, as imagens artísticas não se devem ser medidas a metro. E sim pela liberdade do artista. Precisamos dar parâmetros a fins de nomenclatura, mas não de cerceamento da arte. O como e o quando do filme, seja ele curta ou longa, quem decide é o artista. E isso não devia ser um critério, nem mesmo de grade de encaixe nos festivais, pois não estamos falando de quantidade. Estamos falando de arte e realização cultural e artística.

Enfim, a vida é curta, ainda que seja longa para um curta.

*Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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