FESTIVAL DO RIO

Além da verdade

'Depois da Caçada' é o filme que abriu o Festival do Rio em 2025

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Em Depois da Caçada, uma professora universitária se vê envolvida em uma crise ética e profissional | Crédito: Reprodução

Onde estará a verdade nos tempos de hoje em que somos tão induzidos a não pensarmos individualmente, sob a pena de um julgamento feroz e radical dos outros. O medo nos rege e também nos confunde quando não sabemos se somos vítimas ou algozes um dos outros. A verdade chega a ficar confusa no meio de tantas certezas absolutas e incertezas tão ideológicas. Esse é o tema que perpassa pelo filme que abriu o Festival do Rio esse ano e que já teve sua estreia nacional logo depois do final do Festival. Depois da Caçada mostra essa verdadeira caçada a verdade, a investigação pelos fatos e todos os envolvimentos emocionais, burocráticos e sociais que se pode ter enquanto não se apura uma verdade concreta sobre uma denúncia.

O filme caminha por cima da máscara que se estende em cada rosto, como se todo mundo tivesse algo a esconder ou uma emoção oculta. Há quem diga que é um filme sobre paixões também. E aquela paixão que nasce a partir da admiração intelectual e humana. Uma personagem chega a deixar isso bem claro quando diz que não sabe se queria ter ou ser a pessoa que a atrai.

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O filme parece que vai falar de um episódio de violência sexual entre uma aluna e um professor, mas a verdade é que a caçada já começa antes do suposto acontecido, quando vaidades intelectuais viram disputas e queixas. A história levanta o assunto de cara, da vaidade e incômodo do branco em por em cheque os seus méritos e capacidades nos dias de hoje. Pode-se até dizer que é um roteiro que discute o que hoje o mundo está discutindo: o certo e o errado pelo viés da política social. Todos queremos ser politicamente corretos, mas a verdade é que ficamos confusos com toda essa prisão da lógica porque não somos só razão. Podemos até arriscar a dizer que a razão cai por terra quando a emoção nos domina. E a verdade é que somos muito mais emoção durante todo nosso tempo.

Depois da Caçada entorna todo esse caldo de discussões e reflexões. Uma aluna é considerada um prodígio intelectual na faculdade, despertando inveja e admiração. Dois elementos que, se intensos, podem desencadear conflitos em quem a cerca. Mas depois nos é revelado que ela também tem uma admiração e inveja na mesma medida pela sua professora de filosofia. Levamos a crer que essa aluna, rica e apaixonada pela professora, é apenas uma vítima da sua emoção, assim como a própria professora foi quando era adolescente. Mas isso tudo no nível de uma crença nada absoluto. Aliás, nada no filme é absoluto. Porque o filme fala dos dias de hoje, que estamos vivendo verdades que estão em construção, mas que são leituras de comportamento completamente indiscutíveis. Ou seja, como se o desenvolvimento tivesse que ter posturas absolutamente concretas e indissolúveis. Por isso quando o professor é banido da faculdade pela acusação dessa menina, de estupro, todos já o condenamos. Enquanto a professora também o condena, mas assumindo a não certeza, por pura força de seu passado.

O tempo se entrelaça na trama e talvez por isso que o tempo passa na história do filme. Para que lá na frente a gente reveja essas personagens envolvidas nesse imbróglio, e então percebemos que as posturas já se modificam, mas que também não se fecham.

Não existe a verdade total em Depois da Caçada. Nem em nossos sentimentos. Somos como diz Guimarães Rosa, uma obra em processo, inacabados. Talvez por isso, precisamos e precisaremos do tempo pra chegar a conclusões, soluções e decisões. A vida é muito mais complexa do que essa que queremos simplificar. ‘Muitos mais mistérios entre o céu e a terra’, não é assim que nos revelou o grande dramaturgo, com todas as suas razões e incertezas.

Então, se vocês estiverem dispostos a assistir a um filme que te convide a pensar sobre todas essas questões do coração e da razão, do nosso tempo e dos nossos espaços, se preparem pra essa caçada. E, se depois da caçada, vocês insistirem em fechar o assunto, já que nós, seres humanos, temos por hábito, encerrar uma conversa, lembrem-se que ainda estamos vivos, e que muitas vezes mudamos de ponto de vista e opinião durante a vida. Dessa forma, porque diabos vamos tentar fechar a discussão desse filme. Podemos ficar por um bom tempo refletindo sobre ele. Até mesmo depois de irmos atrás da caçada pela verdade.

Mas falando de verdades do filme: uma trilha magnífica, cheia de pérolas da música brasileira; um roteiro inspiradíssimo a la Bergman e Woody Allen; interpretações de grande nível de Julia Roberts, Ayo Edebiri, Andrew Garfield e Michael Stuhlbarg; diálogos hábeis e inteligentes, inclusive sobre filosofia; e uma direção de Luca Guadagnino que provoca nossa calmaria intelectual, fazendo valer a pena essa experiência cinematográfica, que faz a gente pensar em nossas responsabilidades humanas politicamente corretas.

*Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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