A eleição do senador Fabiano Contarato (PT-ES) para a presidência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado é vista como uma contenção à ofensiva da extrema direita sobre a agenda da segurança pública pelo cientista político, pesquisador e professor Paulo Roberto Souza. Segundo ele, a oposição vinha tentando transformar o tema em uma bandeira eleitoral para 2026, especialmente após a chacina promovida pela polícia do governador Cláudio Castro (PL) no Rio de Janeiro.
“Essa escolha implica, no primeiro momento, em uma contenção da apropriação da direita, da extrema direita, principalmente da oposição contra o governo, de um tema que provavelmente vai centralizar ou vai ser um dos principais temas das eleições do ano que vem”, afirmou.
Souza avalia que a extrema direita tenta rotular o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como “contra a Segurança Pública”, enquanto aposta em um discurso de endurecimento. Com Contarato, porém, abre-se espaço para um embate político mais equilibrado. “É uma grande vitória do governo, da base aliada, de um debate da segurança pública orientada também por direitos humanos, e não só por esse punitivismo vulgar dessa extrema direita, que está fazendo campanha política sobre um monte de cadáveres”, disse.
Para ele, se o resultado tivesse sido outro e o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) tivesse assumido a presidência, o cenário mudaria significativamente. General e vice-presidente no governo de Jair Bolsonaro (PL), ele foi eleito vice-presidente na CPI. “Aí seria uma espetacularização da morte, da tragédia”, imagina. Para o cientista político, a comissão tende a ser marcada por tensão. “Se preparem, tomem bastante remédio para o estômago, porque essa CPI vai ser muito feia, muito horrorosa”, projeta.
A relatoria ficará com o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), também oriundo das forças de segurança. Souza considera provável uma atuação conjunta entre Vieira e Contarato. “É muito possível de que haja uma articulação razoável entre os dois senadores nesse processo”, indicou.
Entre os nomes previstos para serem ouvidos estão 11 governadores, entre eles Cláudio Castro e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Para Souza, Castro pode usar a CPI como um palanque nacional. “Cláudio Castro apareceu, a partir dessa chacina cometida pela polícia dele na semana passada, como uma possibilidade de azarão para as eleições presidenciais do ano que vem”, apontou. Já Tarcísio tenta se consolidar como uma liderança da agenda punitivista. “Ele vai fazer todo um discurso de endurecimento em São Paulo”, prevê.
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