A embaixadora Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe do Itamaraty, disse ser “óbvio” que a presença militar dos Estados Unidos na região e as ameaças de agressão à Venezuela sejam temas centrais na Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e União Europeia (UE), que acontece no próximo domingo (9), em Santa Marta (Colômbia). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu de última hora comparecer ao evento.
“Você vai reunir a região, se tem um país que tá sob ameaça externa, você finge que não vê? Eu acho que é meio óbvio”, disse Padovan, em conversa com jornalistas nesta quinta-feira (6), em Brasília.
Por outro lado, a diplomata afirmou que não há confirmação de que o tema conste na declaração final do encontro. Padovan também não confirmou se há previsão de encontros bilaterais do presidente Lula com outros chefes de Estado em Santa Marta.
Na última terça-feira (4), em entrevista coletiva a agências internacionais, Lula falou sobre a reunião em Santa Marta e disse que “só teria sentido a reunião da Celac, neste momento, se for para discutir a questão dos navios de guerra americanos nos mares da América Latina”.
“Ela não foi convocada por isso, porque ela tá convocada há dois anos. De outro, é natural que um tema que preocupa os países da região seja tratado”, pontou a embaixadora. “Isso reflete exatamente os princípios mais antigos, caros e constitucionais, inclusive da política externa brasileira, que são: a solução pacífica de controvérsias, a não intervenção nos assuntos internos de outros países e a defesa da paz”, ponderou Padovan.
Posse na Bolívia
A diplomata ponderou que a coincidência da posse do novo presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, marcada para o sábado (8), deve fazer com que alguns chefes de Estado da região não compareçam à cúpula em Santa Marta, mas descartou que essa escolha seja guiada por razões ideológicas.
“Por exemplo, Argentina é um vizinho importantíssimo. A Bolívia tem uma comunidade gigantesca na Argentina, uma fronteira cheia de desafios. Eu acho que é um balanço natural, a gente não pode olhar tudo pelo prisma da polarização”, declarou a embaixadora, informando ainda que o Brasil será representado na posse do novo mandatário boliviano pelo vice-presidente da República, Geraldo Alckmin.
Ainda que não enviem seus chefes de Estado ou governo, a Cúpula Celac-UE deve reunir delegações de alto nível de 33 países da América Latina e Caribe e 27 da União Europeia. Na última cúpula em Bruxelas, todos os países estavam representados, sendo 50 deles representados por seus chefes de Estado e governo.
Celac-UE
A embaixadora Gisela Padovan lembrou que essa será a 4ª cúpula bi-regional desde a criação da Celac, sem contar outras seis reuniões realizadas antes da criação do organismo, com a participação de países europeus. No entanto, destacou a diplomata, houve um hiato de oito anos sem diálogo entre as duas regiões, interrompido pela reunião de 2023, em Bruxelas (Bélgica), em que o presidente Lula esteve presente.
“Agora Colômbia faz, dois anos depois, em 2025, a edição latino-americana e caribenha e espera-se que já se marque a seguinte. Então, quero dizer, essa reunião está marcada há dois anos e ela é parte desse longo processo. A participação do presidente Lula é absolutamente natural”, disse Padovan.
A diplomata informou ainda que, como produto da reunião, haverá três documentos que serão apresentados no final da cúpula.
O primeiro, e mais importante, será a Declaração de Santa Marta, que versará sobre temas gerais de cooperação, entre os quais, comércio, investimentos, clima, meio ambiente, transição energética, segurança cidadã, combate ao crime organizado transnacional, evidentemente, segurança alimentar e nutricional, autossuficiência sanitária, inclusão social, cuidados, educação e pesquisa, migração e mobilidade, relações culturais, transição digital.
Os demais documentos são duas declarações de livre adesão, uma sobre segurança cidadã e outra sobre política de cuidados, informou a Padovan, sem, contudo, detalhar seus conteúdos.
“Há duas dimensões muito claras para essa aproximação. A primeira é que nós estamos tratando de um grupo de cerca de 1 bilhão de pessoas. A população da América Latina e Caribe em torno de 600 milhões, mais 400 [milhões] da União Europeia. Um grupo de países que representam 1 bilhão de pessoas com conhecidos vínculos entre as sociedades. Todos os países da América Latina e do Caribe praticamente foram colônias europeias e têm vínculos”, declarou a diplomata.
“Então, essa aproximação ela é muito natural pelos vínculos históricos entre as sociedades, mas ela é também natural pelo interesse comercial mútuo, um fluxo de mais de US$ 300 bilhões de comércio entre as duas regiões”, completou Padovan.
