Quem se entrega a festa de ver filmes no Festival do Rio tem todo tipo de experiência. Experiência em que podemos entender melhor a realidade das pessoas com deficiência e chegar a conclusão o quanto somos deficientes em entender a diversidade dos corpos na sociedade. Assistir uma estética de terror e conflito dentro de uma versão bem brasileira para o vampiro Nosferatu. Acompanhar a empreitada de umator brasileiro num filme estrangeiro, que fica entre a história de sedução e psicopatia, e que se esvazia de motivação, dos personagens e da realização em si. Ver os horrores da violência do Esquadrão da Morte, um grupo de extermínio de pessoas chancelado pela ditadura militar nos anos 1970. E se emocionar com os sonhos, conquistas e derrotas, de jovens, que há dezoito anos atrás faziam teste para um filme brasileiro e se enchiam de esperança na arte e na vida. Nessa resenha, vocês vão ler sobre cinco filmes bem diferentes, em que o único que eles têm em comum é o fato de terem o dedo do Brasil.
Em Lago dos Ossos, um filme tipicamente norte-americano, damos de cara com um brasileiro protagonizando a trama. O ator Marco Pigossi, muito conhecido aqui pela televisão desde 2004, faz um escritor em ascensão que se depara, junto com a mulher, com outro casal. Um casal que inicialmente
parece ser bastante simpáticos, mas que vão aos poucos se revelando serem um tanto invasivos. Isso tudo porque dividem uma casa de aluguel de férias com eles, por um possível engano do proprietário. A diretora Mercedes Morgan, que dirigiu muitos videoclipes, pesa a mão nas imagens e no sangue, a ponto de rirmos em alguns momentos de violência exagerada.
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Enquanto isso, Nosferatu de Cristiano Burlan (sim, um brasileiro), trás um sangue bem mais estilizado e experimental. Uma atmosfera cheia de sugestões a inconformidade e a busca. Toda essa procura e essa insatisfação do vampiro está nos diálogos do filme e nas performances dilatadas e obscuras, revelando o sofrimento da personagem em relação direta com o Brasil. O filme até parece da Helena Ignez, mas não é. Contudo ela está ali em carne… e osso também? Não. Em carne e sangue mesmo.
Referenciando até a cena famosa dela no filme do Bressane de 1970, o A Família do Barulho, onde o sangue escorre pela boca de maneira bem marginal. O Homem de Ouro, de Mauro Lima, fala de Mariscot, que era um policial brasileiro envolvido em assassinatos na época da ditadura. Nessa época, os militares davam passaporte para a polícia matar. E já nem era a repressão a militantes ou pessoas que lutavam contra a ditadura. Era a pena de morte para bandidos ou infratores. Eles selavam a frase que voltou a reverberar nos dias de hoje que diz que “bandido bom é bandido morto”. Mariel Mariscot afundou-se no desejo de poder e força. O poder seduz muita gente. E quando é aplaudido pelos superiores, o detentor do poder se sente indestrutível e acima de tudo. Por isso o policial não só matava, mas exibia seus feitos. É só a gente acessar na internet as fotos sobre o Esquadrão da Morte, que a gente vê lá as placas de exaltação sobre os corpos dilacerados a bala depois de serem torturados. E a loucura disso tudo é que ele seduzia também as pessoas com essa postura impávida.
Além de ter sido um homem bonito. Não foi à toa que o diretor escolheu Renato Góes, pra fazer o anti- herói. Embora quem roube a cena no filme mesmo é Luisa Arraes. Incrível dando corpo a ninguém menos do que a histriônica Darlene Glória, que dizem que chamava atenção pra si onde chegasse. Assim é Luisa no filme. Vale a pena dar uma olhada no documentário de 1970, do Sérgio Muniz, Você Pode Dar um Presunto Legal. Frase de ameaça do também matador da ditadura, o delegado Fleury. Assim a gente fica mais a par de como era a coisa toda.
90 Decibéis é um filme que serve muito como aprendizado de cidadania e inclusão. Todas as mancadas que a gente pode cometer quando não sabemos lidar com a diversidade de corpos está lá. O mais bacana é que parte de um aprendizado de quem começa a viver uma situação que a modifica quando ela inicia um processo de perda auditiva. O filme mostra um passo a passo de todos os tipos de atitudes incorretas e capacitistas que cometemos sem nem perceber que estamos sendo descriminatórios com o outro. Como se o mundo tivesse aprendendo agora. E é importante ter toda essa inclusão nas relações também, além dos espaços. No programa PCDPOD (PCD pode) na TV Futura aprendemos muito a desconstruir nosso olhar a partir das entrevistas que os apresentadores trazem. Aliás, ambos estão no filme. Benedita Casé, que é a protagonista, e Pedro Henrique França, que faz uma participação. 90 Decibéis, tinha que passar na sessão da tarde pra todo mundo ter uma visão mais aproximada do assunto.
Já Na Onda da Maré, vai atrás dos jovens atores e dançarinos que fizeram, há 18 anos, o filme Maré, uma história de amor da Lucia Murat. Surpreendente saber que a bailarina Ingrid Silva tava lá, com menos de 20 anos na época. Um documentário cativante.
*Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
