As declarações do presidente francês, Emmanuel Macron, favoráveis à assinatura do acordo entre União Europeia e o Mercosul causaram revolta e indignação na França. Ao Brasil de Fato, a coordenadora da Via Campesina na Europa, Morgan Ody, disse nesta sexta-feira (7) que o sentimento é de “traição”.
“Nós, agricultores franceses estamos muito bravos. O sentimento é de traição porque Macron repetia que o acordo não seria possível, que ele iria vetar. No dia anterior, Macron disse a jornalistas que estava “mais otimista, mas me mantenho vigilante porque também defendo os interesses da França”, à margem da cúpula de chefes de Estado que precede a COP30 em Belém, no Pará.
“O acordo será fechado de qualquer forma, sem de proteger os agricultores. Então, Macron está mudando de ideia e se opondo aos agricultores. E em contexto em que mais de 80% dos franceses estão contra a assinatura do acordo com o acordo com Mercosur”, prossegue Ody.
“É como se, por ele não ter mais apoio público, não se importasse. Macron faz o que bem entende, sem levar em consideração o que o povo quer e isso causa muita revolta, é antidemocrático e não reflete de forma alguma o que a França deseja”, completa a dirigente.

Mais críticas da esquerda
Os agricultores e pecuaristas franceses temem que seu mercado seja inundado com carne, açúcar ou arroz provenientes da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, no âmbito do acordo UE-Mercosul.
Macron “está assinando a sentença de morte da agricultura francesa”, lamentou a eurodeputada de A França Insubmissa (esquerda), Manon Aubry, criticando a “virada inédita e escandalosa” do chefe de Estado, que “dizia que se oporia a este acordo de livre comércio”.
“Um presidente tão desacreditado deveria calar-se e deixar que o Parlamento decida!”, ironizou por sua vez o secretário nacional do Partido Comunista Francês (PCF), Fabien Roussel. Bruxelas espera obter o aval dos Estados europeus antes do final de dezembro, enquanto o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, ocupa a presidência rotativa do Mercosul.
Agricultores franceses e alemães assinaram uma carta aberta dizendo que o acordo representa uma ameaça às fazendas familiares e à transição para práticas agrícolas mais sustentáveis. Eles defendem a criação de condições equitativas que garantam perspectivas econômicas para os agricultores, ao mesmo tempo em que promovem a sustentabilidade e o cumprimento de metas europeias em áreas como saúde, nutrição, proteção do clima, biodiversidade e bem-estar animal.
No Brasil, analistas apontam que o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul deve aprofundar o poder do setor agropecuário brasileiro, e pode ser ruim e até “predatório” para a indústria nacional.
Revolta também na direita
Representantes da direita francesa criticaram Macron e reiteraram sua rejeição ao acordo UE-Mercosul.
“Este acordo, finalizado na opacidade e que atenta diretamente contra os interesses da agricultura francesa, deve ser rejeitado”, declarou Marine Le Pen, líder do partido ultradireitista Reagrupamento Nacional (RN), no X.
“Depois da indústria, agora é nossa agricultura que (o chefe de Estado) aceita vender a preço baixo”, criticou na mesma rede social o presidente do Os Republicanos (direita), Bruno Retailleau.
